A esfinge é a figura do enigma: um majestoso corpo de leão, asas de águia, cauda de serpente; a cabeça, no entanto, é de mulher. Seu tronco mostra a força das ligações heterogêneas, enquanto o rosto é capaz de linguagem. Mas qual linguagem pode ter um corpo desses? Ao encontrar Édipo, a esfinge o desafia: “responde ou te devoro: quem anda com quatro patas de manhã, com duas à tarde e três à noite?”. Édipo não hesita na resposta: o ser humano. Apressado, ele não percebe que há mais na pergunta do que na resposta, o problema que a esfinge coloca é, na realidade: quem somos nós? Muitas vezes é o não saber que determina nossos atos. De qualquer modo, o problema parece solucionado com a resposta, tal como a chave que entra na fechadura e num giro rápido destrava a porta, o que leva a esfinge a lançar-se do topo da montanha para dentro do abismo.
O inverso também acontece. Homens confusos e perdidos entram no oráculo de Delfos para falar com as Pítias, mulheres reclusas, em contato com o divino. Zenão diz: “Meu barco afundou, e agora, o que devo fazer?”, “Torne-se da cor dos mortos”, elas respondem; Querofonte pergunta “Quero saber quem é o homem mais sábio da Grécia” e a resposta surpreende: “É Sócrates”; e quando Diógenes, expulso de Sínope, vai até o oráculo procurando um caminho, escuta: “Mude o valor da moeda”. Neste caso, a situação é inversa, por mais que a pergunta seja direta, a resposta é equívoca, misteriosa.
Eis como homens apresentaram na história a relação entre o masculino e o feminino. Aqueles fazem perguntas objetivas e esperam por respostas certeiras, enquanto estas provocam com perguntas maliciosas e dão respostas enigmáticas. Eles querem uma solução apaziguadora, uma linha reta, mas não a obtêm quando se encontram com o feminino. A eles, parece que, ao solucionar o enigma, tudo estará completo. A própria mulher, construída pelo olhar masculino, aparece como este enigma a ser decifrado; e eles temem ser devorados caso não consigam. Talvez por isso, ao longo da história, sejam inúmeros os modos com que procuraram submetê-las.
A mulher, vivendo nesta estrutura social, aparece como portadora de segredos insondáveis. Como acessá-los? A psicanálise (também fruto de seu meio) se fez esta pergunta: afinal, o que querem as mulheres? Sua resposta, claro, não deixa de passar pela figura central do homem europeu branco com seu orgulho sempre em riste. A mulher, concluirá Freud, deseja o falo, que não é o órgão masculino, mas encarna-se na inveja deste, e precisa de algum substituto equivalente. Através dos milagres da metáfora e da metonímia, ela abdica de sua inveja do pênis ao ser contemplada com um filho. A imagem lembra a Virgem segurando Jesus. O desejo feminino encaixado no lugar que o homem lhe reservou: mãe, esposa, e só.
A luz desta análise acredita esclarecer os recônditos do inconsciente, anulando o mistério, mas apenas subordina o desejo a um modo de vida completamente estruturado por uma ordem simbólica falocêntrica. Sem perceber, a explicação da psicanálise recai em sua maior crítica: a de transformar a descrição, de uma prática social, em uma prescrição, uma prática normalizadora.
Infelizmente, o frescor do primeiro Freud se perde ao longo de sua obra e impede explicações melhores. Depois do primeiro ato, as histéricas deixam a cena e os obsessivos sobem ao palco do teatro da psicanálise. Dora é a última personagem conceitual a sair de cena. As mulheres desaparecem da obra de Freud por 15 anos. O medo da castração monopoliza o enredo dos pacientes masculinos que vivem suas próprias tragédias particulares. Quanto mais os pacientes reencenam o romance familiar, mais se afastam da abertura da sexualidade proposta nos primeiros anos de estudos psicanalíticos.
Este é o caso de Dora, pseudônimo de Ida Bauer. Freud tenta, por diversas vezes, convencer a paciente de que ela está apaixonada por Sr. K (e portanto por seu pai, e portanto por ele mesmo, o pai da psicanálise). Uma leitura atenta nos faz perceber como Freud interpreta segundo seus interesses (algo que qualquer supervisor abominaria). Dora se incomoda, às vezes ri, às vezes se enfada, e por fim, interrompe a terapia, deixando o psicanalista com uma análise fragmentária a ser preenchida por sua imaginação fértil. São necessários 15 anos até Freud perceber que Dora não estava apaixonada pelo Sr. K – que pode ser melhor descrito muito simplesmente como um assediador. O amor de Dora voltava-se, na verdade, para a Sra. K, e não para seu marido. Não surpreende um homem acreditar que o mundo gira em torno da figura masculina.
Apesar de não ser aceitável, é compreensível: os fragmentos de Dora, causam angústia em Freud, despertam nele o desejo de saber, de colocar cada coisa em seu lugar, mesmo que tenha que preencher as lacunas de seu conhecimento com seus preconceitos. Ainda assim, todo o saber que Freud tem a oferecer ainda é insuficiente. A mulher, olhada pelas lentes masculinas, continua sendo um mistério insondável. Algo que Freud concluiu logo no começo de sua obra, afinal, a sexualidade é – por necessidade – confusa e desordenada. Não há lei que a submeta, há sempre mais de uma resposta para a pergunta da esfinge, e há sempre mais de uma interpretação para a resposta das pítias.
No final, a figura do feminino continua confundindo o olhar dominador masculino, caminhando pelas sombras de uma língua que almeja a clareza, e se escondendo quando é assediada pelo exame dos olhos do opressor. As histéricas de Freud falam uma língua menor, em devir, cujas palavras são polissêmicas e os modos de vida, incompreensíveis. Não apenas seus sintomas, mas toda a sua existência questiona este saber iluminador e afirma uma maneira de viver distante da essência falocêntrica, tão distante que mal pode ser compreendida por ela.
Ora, e não é esta a função de uma boa análise, colocar em questão um saber que tornou-se opressivo e inquestionável? O psicanalista faz perguntas estranhas, usa termos que conduzem a vários caminhos diferentes. Ele abdica do furor sanandi da medicina para caminhar pelas galerias do inconsciente vivo. Seu objetivo é colocar em questão as crenças mais fundamentais do analisando. É aí que a figura feminina dá mostras ao mesmo tempo da opressão que sofre e de sua persistência em encontrar novos caminhos.
Isso nos ensina algo muito interessante, que pode inspirar o trabalho do analista a fazer o oposto de Freud. Em vez de fechar uma interpretação em caminhos estreitos é necessário encontrar saídas. Aos corajosos, há muito o que desaprender, porque talvez, diferente de Édipo, o melhor seja errar a resposta. Abandonar os caminhos delimitados, se perder, explorar, e até quem sabe, ter a honra de ser devorado pelo seu não saber.
Decifra-me ou devoro-te
Diz a Esfinge
Decifra-me ou devoro-te
O enigma chama
Quem nada deve não teme nem ora
São símbolos e desaforos
Sussurram as Pítias
Cifras escondem ouro
Enquanto uns riem e outros choram
Transforme a sina em bom agouro
Assine, assassine, elabore
Na encruzilhada alguém morre
Enquanto ao lado o coro
Curioso olha
Quem responde de pronto
Comemora
Desafia a verdade
Espanta a esfinge
Que pula no abismo
E some
Deixando a vida
Escancarada
Um porre
Referências:
- O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir
- Mil Platôs vol.4 – Deleuze e Guattari
- Fragmentos de um Caso de Histeria – Freud
Como Citar:
Trindade, Rafael. “Decifra-me ou devoro-te”. Razão Inadequada, 2026. Disponível em: https://razaoinadequada.com/2026/04/06/decifra-me-ou-devoro-te/. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Todas as pinturas são da autoria de Alessandro Sicioldr










