O desejo é um cavalo sem rédeas. Uma provocação onde vemos a impertinência semântica que é uma metáfora: uma força de linguagem que nos invade com imagens; no caso, a imagem de um animal indomável chamado querer. A primeira conclusão a que chegamos quando olhamos a frase bem de perto é a de que não sabemos o que é o desejo. O que é curioso, porque a proposição é afirmativa, e contém o verbo ser, o desejo é. Três palavras que prometem. Sabemos que não sabemos porque o desejo não é um equino de fato. Ou seja, a frase contém tanto o é quanto o não é. Ninguém avisou, mas uma quarta palavra foi omitida, o desejo é como. Sumiu porque expunha a nudez da analogia, e enfraquecia o truque. O escritor, voraz, a comeu. Nela, porém, reside nossa ignorância e também inteligência, justapostas em quatro letras. A analogia é um modo de saber não sabendo. Ora, falar sobre desejo é propor uma aventura, e essa começa com um salto. O desejo é como um cavalo. Essa é uma frase que se percorre assim: anda, trota, corre e pula. Onde caímos? Não sabemos ao certo. Afinal, o que é um cavalo? É forte, é belo, é bravo, e mais… Na ideia de cavalo cabe um infinito. Impossível saber de antemão quais serão os pontos que irão embaraçar os abstratos traços do desejo com as imaginadas crinas do cavalo. No entanto, metáforas são imprecisões que funcionam. É um jeito de falar olha eu não sei muito bem o que eu quero dizer, mas sabe tipo um cavalo, você entende quando eu te falo que o desejo é meio isso? E a pessoa na sua frente responde sei exatamente, e acrescenta mas esse cavalo aí não tem rédeas. Então vocês concordam que entendem alguma coisa sobre algo que não entendem.

A gente faz isso o tempo todo. Dizer de uma coisa que ela é outra. O processo parece fadado ao fracasso, mas por alguma espécie de milagre, dá certo. Por meio do verbo, estabelecemos relações de identidade entre coisas distintas, e nos tornamos mais capazes de navegar entre elas. Às vezes é só um passinho, como este: o cavalo é sua crina. Entre um nome e outro a distância é curta. Digamos que são vizinhos semânticos. Essa relação de contiguidade é – para alguns apaixonados obsessivos pela linguagem – a diferença entre metonímia e metáfora. Ao menos é isso o que está inscrito nas entranhas destas palavras: na etimologia, metonímia significa mudança de nome (meta + onoma); e metáfora, mudança de lugar (meta + pherein). Então a distinção é esta, enquanto uma respeita a distância entre os nomes, a outra a despreza. Talvez uma analogia ajude: a metonímia é um passo; a metáfora é um salto. É difícil, porém, dizer o que é metáfora e o que é metonímia nesse último caso. Os professores de português precisaram domesticar essa diferença para o vestibular, que de maneira um tanto perversa pede – em questões ditas objetivas! – que se calcule o vão entre analogias. Ao menos não se pede – ainda – o cálculo da área. Ora, qual régua poderíamos usar para dizer que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, se tudo o que fazemos o tempo todo é dizer que uma coisa é outra coisa?

Às vezes a gente acredita tanto naquilo que inventa que esquece que é invenção. Sorte é lembrar de nossa natureza lúdica. Ao brincar, qualquer bobagem pode galopar. Então, pensar o vão pode ser interessante. A busca pela resposta correta tantas vezes leva ao fracasso certo; este é um caso em que mais vale o exercício de encaminhar as dúvidas, para quem sabe chegar a múltiplos acertos. Os manuais de semântica apelam à distinção entre contiguidade e similaridade: a metonímia dá passos, mas não salta; a metáfora é um sapo, anda aos pulos. No entanto, por precaução, é melhor voltarmos aos equinos. Dizer que o cavalo é sua crina, e que o desejo é um cavalo, são procedimentos analógicos que se distinguem pela distância que o pensamento percorre entre um nome e outro: crina e cavalo habitam o mesmo prado; cavalo e desejo são criaturas que se estranham. Mas se a analogia é a base da linguagem, como acreditar que exista qualquer coisa mais próxima ou mais distante daquilo que descreve? Nisto está o problema – ou a graça. Onde termina a metonímia e começa a metáfora? Poderíamos dizer que a fronteira entre elas é a malícia. A metonímia quer te explicar; a metáfora tá te explicando prá te confundir.

A metáfora triangula. Pela sobreposição de duas imagens heterogêneas, ela abre na selva da linguagem uma trilha misteriosa que leva de uma à outra. Assim, vamos do A ao B, mas nos vemos obrigados a desviar pelo desvario do C. Como vimos, os linguistas mais ousados dizem que metáfora e metonímia se distinguem pela lógica. O que é no mínimo engraçado. Lógica? Parece melhor pensá-las em termos de sentimento. A força de uma metáfora reside no caminho que ela nos faz percorrer. No mapa da palavra ela aponta dois lugares distantes, e nos convida a inventar um jeito de chegar. É como se dissesse olha! lá longe. Vê? A frase é pronunciada, e nada podemos fazer senão perseguí-la como a um balão. É uma misteriosa espécie de encantamento, e talvez a diferença entre metonímia e metáfora seja a de um gracioso sequestro. O desejo é um cavalo sem rédeas. Começamos assim, com esta metonímica metáfora. O que será que ela quer dizer? Uma maneira de entender mais – sobre isso que continuaremos sempre a não entender – é continuar as analogias:

Querer é uma arte. Mas ninguém sabe dizer o que a arte é. Pedacinhos quebrados de porcelana que se rejunta em mosaico. Naco de terra úmida do qual se inventa um vaso. Ruído de cordas que se amadeira em canção. Fios coloridos que se entrelaça no tecer de um tapete. Corpo que se empresta aos desvarios de uma personagem. Luz que se captura, palavra que se profere, gesto que se dança, paixão que se escreve. Querer é um verbo que move as mãos e também os ventres, os olhares tanto quanto as ideias. Quereres são os calores atrás dos quais migram as aves, a cor das flores a enlouquecer os insetos, o luar pelo qual anseiam os lobos, o ar em que tomam fôlego as baleias, a carícia de que gostam os cabelos. Querer ninguém sabe o que é, querer ninguém sabe o quê, querer ninguém sabe — mas sabe que quer.


Referências 

Tom zé, Tô
The Red Balloon, Albert Lamorisse

Anne Carson, Ensaio sobre aquilo em que eu mais penso
Anne Carson, O método Albertine
Conversa com Guima

 

Como citar

LAURO, Rafael. Metonímica Metáfora Razão Inadequada, 2026. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2026/04/05/voce-também-viu/>. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Um dos criadores do site Razão Inadequada e do podcast Imposturas Filosóficas, onde se produz conteúdo gratuito e independente sobre filosofia desde 2012. É natural de São Paulo e mora na capital. Estudou música na Faculdade Santa Marcelina e filosofia na Universidade de São Paulo. Atualmente, dedica-se à escrita de textos e aulas didáticas sobre filósofos diversos - como Espinosa, Nietzsche, Foucault, Epicuro, Hume, Montaigne, entre outros - e também à escrita de seu primeiro livro autoral sobre a Anarquia Relacional, uma perspectiva filosófica sobre os amores múltiplos e coexistentes.

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