“Um existente não é senão o que faz” – Simone de Beauvoir

É interessante ver como a população de alguns países, em guerra por anos, encontra uma estranha forma de continuar uma relação fraterna. As fronteiras estão fechadas, o clima é hostil, mas é possível encontrar contrabandistas levando comida e outros mantimentos para seus vizinhos necessitados. Ainda há circulação de afetos. Eles são inimigos em teoria, seus governantes não se suportam, mas na prática encontram outra relação. Alguns campos do conhecimento são parecidos com países em guerra, suas fronteiras são guardadas por pesado armamento conceitual que ameaça o campo inimigo na esperança de que ele deixe de existir. Mas sem que as autoridades se deem conta, seus moradores continuam atravessando a fronteira, com o intuito de visitar seus familiares que moram do outro lado.

É isso que acontece também no mundo da psicologia, entre os países do Behaviorismo e da Fenomenologia. Num primeiro momento, parece que eles nada têm para contribuir um com o outro, dois campos absolutamente distintos do conhecimento, talvez até opostos. Os cursos de graduação tratam estas abordagens como irreconciliáveis. Mas quando as amarras se afrouxam, é possível encontrar algumas ideias que são muito parecidas, apenas expressas com uma linguagem diferente. Um destes campos é a resposta para a expressão: “seja homem!”.

O primeiro argumento contra esta demanda é simplesmente: “Ora, mas o homem em si não existe”. Afinal, é do existencialismo a famosa frase: a existência precede a essência, de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Pois bem, B.F. Skinner faz coro com todos aqueles que acreditam que a realidade não é constituída por essências ou tipos imutáveis. Os modelos, tanto para o existencialismo quanto para o behaviorismo, são dispensáveis. Cada coisa é singular a priori, e todo substantivo ou adjetivo é sempre dado a posteriori. Em outras palavras, um indivíduo só pode ser definido por suas relações, ele nunca é, apenas está.

É nesse sentido que se pode dizer que o Homem não existe em si, ele só pode ser dado num contexto, uma classificação vinda de fora. Nunca vemos o Homem andando por aí na rua, uma ideia não tem corpo. Entretanto, é possível categorizar certos comportamentos como masculinos e a partir de então dizer: de agora em diante usar blusa azul, brigar na rua, coçar o saco e assim por diante são comportamentos esperados, ou melhor, imputados, àqueles considerados do sexo masculino. É neste sentido que se torna possível dizer: não se nasce homem, torna-se homem

Trazer a discussão para o nível do fazer e não do ser é tão fundamental que aproxima as fronteiras pouco exploradas entre o behaviorismo e o existencialismo. Mas por que negar a existência de uma essência masculina não impede de existirem homens coagindo homens a serem mais homens? Aqui torna-se necessário se perguntar como é que essa essência veio a ser o que é.

A sociedade impõe a todo ser singular um lugar. A situação não confirma a essência, mas leva à imposição de um modo de se relacionar, isso torna a constatação de superioridade muito diferente da efetiva superioridade. Ou seja, a toda pessoa que for considerada homem em nossa sociedade serão impostas condições e consequências muito diferentes das pessoas consideradas mulheres. O mesmo vale para ser branco, negro, adulto, criança, rico, pobre, estrangeiro, e etc. Enquanto uns estarão no centro, outros viverão na posição de Outro, na periferia. 

Claro que corpos XY e XX na espécie homo sapiens possuem características diferentes. Para existir, é preciso um corpo, e cada um exibe o seu. Mas a diferenciação biológica é diferente das condições sociais reservadas a cada grupo social em nossa Cultura e de forma alguma é o suficiente para defini-lo. Em nossa sociedade, enquanto o corpo masculino foi colocado na posição de individualidade e superioridade, pois pode escolher seu caminho, o corpo feminino foi colocado na posição passiva, uma espécie de máquina de produzir filhos e cuidar da casa. Vivendo no patriarcado, estas funções sociais dadas a homens e mulheres são muito diferentes, e naturalizadas como se fossem sua essência. 

Se as condições sociais – nas quais o corpo considerado homem está inserido – são uma imposição arbitrária, quando o conservador diz “Você é um homem ou um rato?”, o importante é enfatizar o termo “comportar-se” que foi elidido na frase, e não a suposta essência homem. Em outras palavras, ele quer que este corpo performe, tenha atitudes, que o insiram numa categoria determinada. O que o conservador está dizendo é: “Vamos lá, abra a cartilha e faça como está indicado”. No fim das contas, o conservador diz apenas: “faça do jeito que eu quero, adquira o hábito de agir e reagir de uma determinada forma“. Mas existem corpos que simplesmente se recusam a seguir a cartilha. Quando isso acontece, é toda uma noção de mundo que vai por água abaixo. 

Aqui voltamos a Skinner. Com seu modelo de seleção pelas consequências, baseado na seleção natural de Darwin, ele afirma que o indivíduo se forma através de três níveis de seleção: genética, ontogenética, e cultural. Em outras palavras, a relação do organismo com o ambiente é tripla, pois se aplica a três níveis de seleção: a sobrevivência espécie, do indivíduo e por fim da sociedade. Os seres vivos são o resultado históricos e datados destas três dinâmicas entrelaçadas: genética, pessoal e histórica. 

Resumindo: todo indivíduo é um ser em relação bio-psico-social. Este entrelaçamento abre os corpos singulares para múltiplos caminhos. Isso significa que a vida, o indivíduo e a sociedade nunca estão dados, pois estão em construção e modificação recíproca. O centro do problema está em pensar que existe uma essência definitiva para a vida, o indivíduo, ou a cultura, e ignorar que tudo se move, mesmo que lentamente.

Desta forma, o objetivo não está em performar um modelo, mas sim em encontrar seu próprio caminho. Quando as essências explodem, inúmeras singularidades voam para todos os lados. Eis a luta travada de uma maneira mais interessante, muito mais que adaptar, há de se mudar o mundo, para que então múltiplas almas possam florescer.


Referências

  • Segundo Sexo – Beauvoir
  • Existência e Transitoriedade – Marco Casanova
  • B. F. Skinner e Simone de Beauvoir: “a mulher” à luz do modelo de seleção pelas consequências –  Emanuelle Castaldelli Silva e Carolina Laurenti
  • Subjetividade e Relações Comportamentais – Emmanuel Tourinho 

Como citar

Trindade, Rafael. Seja Homem!, Razão Inadequada, 2026. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2026/05/11/seja-homem/>. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Filósofo, Psicólogo Clínico e Supervisor

Mais textos de Rafael Trindade

Deixe um Comentário