São muitas as coisas que não conseguimos deixar de fazer. Respirar, por exemplo. É algo que até aprendemos a controlar, mas ninguém consegue parar. Pensar também. É passível de manejo, mas acontece a despeito. Dois exemplos —  no corpo e na mente — de incapacidade inata. A lista das nossas absolutas necessidades, embora discutível, não é tão longa. Além de ar e ideias, precisamos de sono, comida, abrigo, água e companhia. Alguns incluiriam arte, outros, lei. Seja como for, não são tantas. Agora, entre  as poucas necessidades e as muitas possibilidades — há uma enorme diferença. Costumamos pensar que a liberdade só é limitada pela necessidade e que, por consequência, somos tão livres quanto o vasto campo do possível. No entanto, e como já dito, são muitas as coisas que nós — simplesmente — não conseguimos deixar de fazer. Do ponto de vista da necessidade, há uma diferença qualitativa entre respirar e fumar. Mas por que, para um fumante, é tão importante o tabaco quanto o ar?

A neuroquímica traz respostas, a ciência do comportamento também, e se bobear até a psicanálise. Associadas elas fornecem recursos que podem interromper um tabagista de acender o próximo: excite os neurotransmissores, desmame da nicotina, modifique o ambiente, promova novos comportamentos, elabore essa fixação oral e conte com a sorte, porque ainda assim não vai ser fácil. Vê como é pequena a margem de ação? Ali, aperte os olhos, tá vendo aquela coisinha esmagada entre a dopamina e a sorte? Pois é isso que as pessoas chamam de liberdade, imaginando que ela é enorme. O que é mais ou menos como confundir o elefante com o rato.

Aliás, essa confusão deve vir justamente do medo que o elefante tem do rato. (Na verdade os elefantes não têm medo de ratos, mas pelo bem da metáfora, deixemos o mito em paz.) É muito ruim pensar que a gente pode tão pouco. Ser pequeno como um ratinho… dá medo. Parece mais confortável pensar que somos donos da vontade, como é o elefante de sua majestosa tromba. Pensar que a gente começa e para quando quer. Não é humilhante acreditar nisso e não conseguir? “Se eu quiser eu termino”, diz a moça de coração repetidamente partido um segundo antes de recosturá-lo às pressas após um bipe de emoji no celular, e então concluir “mas eu não quero”.

O necessário não se reduz à ideia que fazemos das necessidades. Temos dificuldade de encarar esse fato, porque nos imaginamos como causa da maior parte das nossas escolhas. Mas é um pouco… constrangedor insistir nessa ideia quando mal conseguimos mudar um pequeno hábito, como recusar um chocolate. Precisamos lidar com o fato de que as causas que nos levam a fazer aquilo que fazemos nos superam imensamente, a ponto de inverter a questão: será que somos livres? 

Uma pergunta que foi feita e refeita tantas vezes que podemos concluir, depois de muito estudo, com razoável certeza, que hã… não sabemos. Às vezes usamos o mesmo nome para falar de coisas diferentes, e então se torna um problema nominal; às vezes inventamos conceitos tão singulares que eles acabam fazendo sentido apenas dentro dos seus próprios planos. Mas de fato passamos bastante tempo pensando sobre isso, e muitos caminhos foram propostos. Poderíamos falar do livre-arbítrio, caro aos religiosos; ou tomar um rumo diametralmente oposto, e falar do determinismo dos cientistas; ou ainda criticar ambos por reduzir a questão ao binário determinado-indeterminado. Liberdade é mesmo um tema cabeludo.

Agora, a calvície não decorre do livre-arbítrio. Disso temos certeza. Esta, entre tantas outras certezas que temos sobre o que não podemos evitar… Mas um cigarro, um maldito cigarro, isso eu consigo evitar, não é possível, meu deus! Eu sou mesmo um rato! E cansei de fingir que isso é uma dissertação, escrita no plural de modéstia, como filosofia de qualidade duvidosa. Ah, faça-me o favor! Cansei dessa bobagem de a gente isso a gente aquilo, eu não sei, tá bom?, eu. não. sei!

Peço desculpas, acho que a abstinência está me deixando um pouco irritado. Eu mimei meu cérebro com nicotina, e agora ele protesta, aperta as gengivas, acorda no meio da noite, faz toda uma cena. E o que é pior!, eu não sei mais o que fazer com as mãos, e isso inclui escrever. Vocês não imaginam o parto que foi escrever esse texto — o primeiro, em anos, em que eu não paro para um trago cada vez que empaco. Agora é isso, termino uma frase e fico roendo as unhas ou andando pra lá e pra cá ou mexendo no maldito celular e piorando esse vício do qual eu também estou tentando me libertar!

Aos entusiastas da filosofia, talvez traga incômodos o que preciso admitir a seguir: ter passado anos estudando não me ajuda tanto assim a parar de fumar. Ajuda um pouco? Acho que talvez. Precisaria perguntar primeiro ao que se refere o termo filosofia. Se for a prática de pensar junto com os outros, então ajuda sim. Os livros, os conceitos, os filósofos, aí eu já não sei. O máximo que eu me arrisco a dizer é que faz parte dos recursos. Junto com os adesivos que liberam nicotina na minha pele em pequenas doses ao longo dia; com o cloridrato de sei lá o quê que dá uma encorajada nos meus neurônios; com os amigos dispostos a me atender quando eu estou prestes a recair; enfim, com um monte de coisa que eu preciso fazer pra — tentar — mudar um mísero hábito.

Eu não acho que ler filosofia crie algum tipo de reservatório de sabedoria que torne uma pessoa mais apta do que outra para lidar com os problemas. Porque a vida, quando acontece, acontece nas contingências, sempre imprevistas, e nossa ação acaba circunscrita pelo momento. O pensamento modifica a ação quando se exerce, mas isso ele faz de maneiras variadas. A lembrança e atualização de conceitos pela força da ocasião é apenas uma dentre muitas delas. Não é irrelevante, mas também não é muito superior ao mascar chicletes para aguentar a fissura. 

Mesmo assim, a dificuldade me fez pensar de novo sobre a liberdade, e as palavras para pensá-la me vêm da filosofia. O discurso mais comum, quando se fala em vícios, é de que parar é uma decisão, de que a mudança parte de uma escolha. Eu até concordo com a premissa, mas acho que a decisão, por mais firme, é insuficiente. Ah, mas meu avô decidiu parar e nunca mais na vida colocou um cigarro na boca. Parabéns pro seu avô. A minha experiência é a de alguém que decidiu inúmeras vezes e falhou em todas elas. Quer dizer, esta vez não. Ainda? Não sei. O que eu sei é que no processo eu fui aprendendo alguma coisa sobre mim e, o que talvez seja mais importante, sobre a minha relação com o tabaco. 

Admitir que eu sou impotente frente a essa substância foi fundamental no percurso. Se não consigo moderar, acho melhor parar. Mas isso não se aplica a tudo, seria inútil abstrair na forma de um conceito. Pois em mim mesmo encontraríamos contra-exemplos. De toda maneira, perceber quão reduzida é minha liberdade nesta relação específica foi o que me fez despertar para a necessidade de transformá-la. Essa é a raiz do meu incômodo: não o mal que o cigarro me faz, pois eu seria hipócrita se dissesse que não me faz bem também, mas a servidão a que me submete. Que tenha sido assim porque eu sou orgulhoso ou porque tenho Marte em Áries ou porque estudei Espinosa, meio que tanto faz. São apenas tentativas de compreender causas que eu desconheço. E portanto recursos, ainda que pequenos.

Na verdade, na verdade mesmo, o que eu quero não é parar, o que eu quero é fumar só quando eu quiser. Mas acreditem, eu tentei. Vezes o suficiente. E de novo e de novo me peguei fumando sem querer. Talvez haja aqui algo interessante para pensar: o desejo de liberdade. Cabe atenção ao lugar onde se manifesta essa vontade, que constata a servidão com tristeza, e clama por mudanças. Dentro de limites bem estreitos, dá pra encontrar um jeito melhor. Seja acreditando no indeterminado, seja buscando as determinações, seja recusando ambas — o que podemos fazer é dar lugar para esse desejo de agir sobre nós mesmos. E a filosofia é um dos jeitos. Ela ajuda, ela ajuda… Acho que tenho certeza.

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Um dos criadores do site Razão Inadequada e do podcast Imposturas Filosóficas, onde se produz conteúdo gratuito e independente sobre filosofia desde 2012. É natural de São Paulo e mora na capital. Estudou música na Faculdade Santa Marcelina e filosofia na Universidade de São Paulo. Atualmente, dedica-se à escrita de textos e aulas didáticas sobre filósofos diversos - como Espinosa, Nietzsche, Foucault, Epicuro, Hume, Montaigne, entre outros - e também à escrita de seu primeiro livro autoral sobre a Anarquia Relacional, uma perspectiva filosófica sobre os amores múltiplos e coexistentes.

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