Qualquer ideia de sinceridade pressupõe uma ideia de verdade, e também sobre a mentira. A maioria de nós espera que os outros sejam sinceros, porque parece inviável construir uma boa relação sem ela, ainda mais no caso do amor. No entanto, quem consegue responder exatamente o que é a verdade e o que é a mentira quando tratamos de coisas tão movediças quanto os nossos desejos?
De maneira geral, pensamos a verdade em nossas relações amorosas como um fato íntimo que deve ser comunicado; enquanto a mentira costuma ser tratada como pecado inicial que tende à toda espécie de infidelidades. Será que, por pensar desta maneira, não estamos minando nossa própria condição de ser sinceros?
Não podemos negar, a sinceridade envolve riscos: dizer a verdade é se equilibrar num fio de conversa que pode se romper. Uma fala sincera pode sim acabar com uma relação. Então, para recolocar o problema da sinceridade, talvez precisemos repensar o que significam verdade e mentira em termos relacionais. Outra maneira de conceber o verdadeiro pode ajudar a diminuir nosso medo de trazer os desejos à tona.
Nos acostumamos com a ideia de que determinados desejos são ofensivos, e de que nossas relações amorosas são muito frágeis para que eles sejam colocados. Por esse motivo, passamos boa parte do nosso tempo juntos a disfarçar os interesses. Não que sejamos capazes de deixá-los completamente de lado: acabamos nos contentando com alegrias menores, distantes dos olhos dos outros, vividas em segredo, pelos cantos. Acontece desses interesses envolverem afetiva ou sexualmente outras pessoas, mas acontece também deles se expressarem em experiências íntimas, sustentadas por ideias ainda frágeis demais para serem expostas aos outros. Assim, por medo de sair perdendo, preferimos consentir mentindo. Ao fazê-lo, entretanto, perdemos a sinceridade como princípio que faz das relações amorosas uma vivência compartilhada do mundo.
Parece que a mentira é, antes de mais nada, uma espécie de conforto, que permite um escape na relação consigo e com os outros. Também podemos pensá-la como um atalho, que leva mais rápido à satisfação, embora complique o caminho de volta. Antes de nos culpar e sair por aí julgando os outros por mentir, precisamos lembrar como a sociabilidade pesa. Entre colegas, familiares ou desconhecidos, não importa, a maioria dos encontros exige um certo tônus, uma atenção à postura, uma disposição em aparecer de determinada maneira. Nem sempre conseguimos ser verdadeiros nesses momentos: maquiamos as tristezas, deixamos os problemas em casa, para suportar algumas situações. Aliás, às vezes precisamos mesmo desse tempo distante das nossas verdades.
Para pensar a sinceridade, precisamos lidar com o fato de que, pela própria natureza da sociabilidade, a mentira acontece e, dada sua inevitabilidade, não podemos recorrer a nenhum moralismo barato para resolver a questão: as dissimulações, as meias verdades, os subterfúgios fazem parte da nossa interação com os outros. Isso, no entanto, não muda o fato de que nos sentimos melhor em relações que podem nos acolher por inteiro. Uma das coisas que qualifica as relações é justamente a capacidade de suspender as exigências normais da sociabilidade: o silêncio que se compartilha sem desconforto entre amigos, por exemplo, é um pequeno indício dessa qualidade, que chamamos de sinceridade.
Ora, o problema não é mentira em si mesma, o problema é que ela sempre envolve alguma tristeza. Por mais justificada que seja, para evitar sofrimentos excessivos ou facilitar algumas convivências, a mentira acaba deixando os outros de lado na consideração das questões. Assim, ao enganar os outros, todos saem perdendo, porque o que se ganha é irrelevante comparado aos resultados de uma possível associação. Às vezes uma relação se sustenta por causa das mentiras, mas ainda podemos considerar essa uma situação interessante quando pensamos em termos de alegria mútua?
Nos acostumamos a pensar a falsidade em termos morais, mas isso não nos ajuda a lidar com o problema da verdade nas relações. Não adianta reciclar o mandamento “não mentirás”, porque uma lei moral universal não dá conta das inúmeras situações particulares que a vida apresenta. Em vez disso, parece melhor valorizar a sinceridade enquanto prática reflexiva feita em conjunto, que aposta no fato de que, quando somos sinceros, estamos criando as condições para que a verdade apareça na relação.
Em termos relacionais, a verdade não nos espera pronta, ela está por fazer. Relacionar-se com sinceridade não significa ser obrigado a dizer tudo o que pensa ou faz, mas de criar condições pelas quais possamos ser e mostrar aquilo que somos, incluindo as contradições. Então, a sinceridade não é apenas a comunicação das certezas, mas fundamentalmente a conversa cuidadosa sobre as incertezas. Essa disposição em compartilhar as vulnerabilidades é o que permite quebrar a ideia de verdade como fato íntimo, maliciosamente planejado de antemão para machucar os outros. Lembrar que a gente não sabe muito bem o que quer e, mesmo quando fazemos alguma ideia, não temos muita certeza do que fazer com isso, é o que traz calma para que as coisas possam ser pensadas.
Por se tratar de uma dinâmica tão delicada, existem várias condições prévias para a sinceridade. O acolhimento, por exemplo, é fundamental quando pensamos relações dispostas à veracidade. Não faz sentido esperar sinceridade se punimos uns aos outros por sentir as coisas de maneiras diferentes ou se culpamos uns aos outros por não corresponder sempre àquilo que se espera. A sinceridade depende de uma abertura para acolher o inesperado e olhar para aquilo que não se encaixa perfeitamente nos planos.
A mudança é uma indiscutível realidade em qualquer relação: nada que dura permanece o mesmo. Somos verdadeiros quando contamos uns aos outros o que se passa em nossos processos íntimos de mudança. É isso que faz da sinceridade uma necessidade, na medida em que ela permite que a novidade surja gradualmente, oferecendo aos envolvidos a oportunidade de participar em seu tempo. Quando as transformações não são acompanhadas com carinho, pensadas em conjunto, acabam submetendo os outros à violenta pressa da adequação.
O que significa estar juntos senão coexistir nas questões? Comunicar algo aos outros não é informar, não é entregar algo pronto, mas buscar um campo comum para a construção de algum entendimento compartilhado. Ser sincero é menos informar os outros de algo, do que entender algo junto dos outros. Quem espera a certeza para comunicar seus processos e pensa a sinceridade como exposição de fatos prontos, acaba perdendo a possibilidade de construir uma maneira compartilhada de experimentar os novos desejos.
Ao ser sinceros, escolhemos o caminho mais longo, porque sabemos que a verdade requer esforço tanto sobre si quanto junto dos outros. Sabemos bem que uma alegria própria às vezes pode causar a tristeza alheia e, ao lidar abertamente com isso, estamos apostando na nossa capacidade de transformar lentamente as tristezas inevitáveis em alegrias mútuas, em vez de continuar apostando apenas nas satisfações particulares – tão pequenas, tão mesquinhas.
A sinceridade é a condição de possibilidade de um entendimento comum em torno de alguma questão. Por isso, uma das coisas mais tristes é pedir aos outros que saibam tudo de antemão: “só me procure quando souber o que se passa”. Ora, há inúmeras questões para se pensar juntos, enquanto elas passam. É claro que existem questões para se pensar sozinhos, mas estamos viciados em recorrer à individualidade para resolver problemas que exigem muito mais do que somos capazes de sustentar na solidão. Não tenham dúvidas, chegaremos em outras respostas se pensarmos juntos.





