Certo… prestar atenção nos pensamentos, claro que eu consigo fazer isso! Nossa, mas por que esse cara do lado precisa respirar tão alto? A minha geladeira também está fazendo esse barulho… espero que ela não quebre, gastei muito dinheiro neste começo de ano. Por que que eu pago o CRP mesmo? Eita, tá meio frio aqui, né? Acho que é por isso que ele tá respirando tão alto, tá com o nariz entupido. Coitado… Espera, eu tenho que prestar atenção nos meus pensamentos. Ah não, minha perna tá dormente, será que os monges também ficavam com a perna dormente? Não dá pra imaginar o Buda atingindo a iluminação sem sentir a própria perna. Ou dá? Não, óbvio que não… ele tinha prática em fazer isso. Ai ai, é tão bom ficar sem fazer nada, vai ver que é só por isso que a meditação funciona. Esses monges são sábios mesmo, querem só ficar na vida boa. Pena que pra isso eles precisam usar essas roupas tão estranhas… Calma, me perdi… prestar atenção nos pensamentos”
Eu fiz uma promessa de ano novo, lidar melhor com a minha ansiedade. Para isso, muitas estratégias são possíveis, e uma delas é a meditação. Sendo assim, decidi experimentar e fui em um templo budista. Este relato de abertura é um exemplo do que acontece quando alguém se propõe a sentar e observar seus próprios pensamentos.
A palavra Zazen significa “meditar sentado”. Na teoria é fácil, você se senta em uma almofada (zafu) em posição ereta e as pernas cruzadas, se volta para a parede, permanece com os olhos semicerrados e presta atenção na respiração. Pronto, começou, você está meditando. Mas é claro que não acaba aí. É neste momento que inúmeros pensamentos começam a invadir a consciência. “Não se preocupe”, diz o monge de roupa laranja, “permaneça atento ao ir e vir de cada ideia sem se apegar a nenhuma delas”. Mas não tem jeito, somos carregados pelos pensamentos como quem pula num rio tempestuoso. É tanta violência que nos deixamos levar. “Falhar é parte do processo”, replica o monge em voz compassiva.
Conclusão, sentar em silêncio e observar os pensamentos pouco a pouco se transforma num pesadelo. Quando o movimento do corpo cessa, percebemos o quanto a mente está agitada. Na verdade, ela já estava assim, mas o barulho interno era abafado pelos afazeres do dia. O silêncio apenas nos torna mais sensíveis a certas vozes.
Depois da pandemia, minha ansiedade veio para ficar. Uma constante na fórmula da vida. Isso não vale apenas para mim, este sentimento parece parte inextirpável da organização da nossa sociedade, um efeito colateral necessário do capitalismo. A bula do neoliberalismo tarja preta avisa: cuidado, o acúmulo excessivo de renda pode espalhar ansiedade e depressão pelo tecido social que, muito antes de destruir o mundo, destrói nossas mentes.
E como escapar desses efeitos colaterais? Os revolucionários de plantão têm a resposta na ponta da língua: é preciso mudar o mundo à nossa volta para que os sentimentos que brotam dessa relação sejam diferentes. Se se trata de uma relação tóxica, então é necessário cortar o mal pela raiz. Pois bem, concordo plenamente. Mas já vivi tempo o bastante para acreditar que o derretimento das calotas polares chegará antes da revolução. É exagero da minha parte acreditar mais no fim do mundo do que no fim do capitalismo? Uma analogia pode ajudar: se não há como não bater os dentes numa noite fria de inverno, que ao menos eu possa me agasalhar. Ou seja, se não é possível adiar o fim do mundo, que ao menos seja possível dispor de uma proteção enquanto ele desmorona. Talvez seja isso a meditação: uma proteção mental.
Não encontrei nada sobre revolução social nos ensinamentos de Buda, e nada sobre Nirvana no Manifesto Comunista. À primeira vista, as duas escolas de pensamento parecem ser como água e óleo. Mas logo de saída há uma semelhança marcante: existe sofrimento, e muito. Tanto que, para o budismo, o sofrimento é a primeira nobre verdade, Dukkha, como eles chamam. Já para o marxismo, o sofrimento é estrutural, parte de uma forma de organização econômica que envolve acúmulo de riqueza na mão de poucos.
Como acabar com o sofrimento? É aqui que Marx e Buda largam as mãos. A revolução exige que uma mudança radical ocorra na sociedade, o proletário precisa unir-se para tomar os meios de produção. Enquanto Buda afirma que o mundo é, sempre foi e sempre será, sofrimento; a roda de Samsara nunca vai parar de girar. Ontologia versus economia. A raiz de todo o mal, diz Buda, na segunda nobre verdade, está no desejo, não no sistema. A partir desta segunda constatação vem a pergunta: o que fazer? Eis o X da questão. Enquanto alguns são encorajados a mudar o sistema, outros buscam mudar a si mesmos. O chamado do manifesto é diferente dos ensinamentos dos Sutras: um acredita que a história poderia exaltar os humilhados, enquanto o outro procura pelo caminho do fim do desejo.
Foi aí que o budismo me pegou. A filosofia ocidental pensa a história com heroísmo. Somos convocados para o grande acontecimento. Primeiro, Aquiles, vencendo os troianos; depois Odisseu, vivendo grandes aventuras pelo mar mediterrâneo até retornar para Penélope. Mas eu estou começando a achar que não estou num livro de aventuras. E é deste lugar que o budismo chama a minha atenção, ele parece ter algo de diferente, mais sereno. Estudei bastante da filosofia ocidental, de Deleuze até Sócrates, só zen que nada sei, e começo a pensar que talvez o budismo tenha algo a me dizer, algo de importante, algo de diferente.
Voltemos à meditação. Sentar. Respirar. Observar. Não há segredos! E no entanto, é uma das práticas mais misteriosas do mundo. Extremamente difícil de definir em palavras. Ela leva para outro lugar onde uma sensação de completude e alegria parecem fazer parte intrínseca da realidade. Como se por baixo do sofrimento estivesse guardado outro sentimento. Os poucos momentos intensos de meditação me fizeram esquecer a solidão, a culpa e o medo que criaram raízes profundas em meu ser. O budismo me ensinou algo que eu já sabia, a não esperar a redenção da história, o sentido não se dá apenas com o ponto final, ele se mantém durante todo o processo. Mas me ensinou também algo que ainda não sei se entendi direito. Começo a desacreditar em toda ação forçada, a leveza e a suavidade me parecem mais fortes.
O zen budismo tem me ensinado muitas coisas. Uma alegria sem causa, que me é estranha; uma ação sem sujeito, que me parece ilógica; e uma leveza na impermanência, que sempre me causou angústia. Eu sei que esta prática não é tão revolucionária quanto a luta sindical, mas por que precisaria ser? Já temos à nossa disposição um “Manifesto do Partido Comunista”, não precisamos de outro. Nem tudo se reduz à dialética da luta de classes, e talvez, lá no fundo, o que muitos de nós queremos é apenas sentar numa postura ereta, com as pernas cruzadas e contemplar a lua, enquanto ela suavemente afunda no mar. Se ela levará consigo o capitalismo, não sei dizer, mas certamente o espetáculo será contemplado por inúmeros olhos semicerrados.
Referências:
- Budismo e filosofia em diálogo – Oswaldo Giacoia Junior / Antonio Florentino, ed. Phi
- As Coisas Como Elas São: uma Iniciação ao Budismo Comum – Hervé Clerc, ed. Ayiné
- A Arte Cavalheiresca do Arqueiro zen – Eugen Herrigel, ed. Pensamento
- Zen e a Filosofia – Byung Chul Han, ed. Vozes
- Ausência – Byung Chul Han, ed. Vozes
- Espinosa e o Zen Budismo – Donati Caleri, ed. 7 letras















Um texto que, ironicamente, causa certa ansiedade
Será que o deus de Espinosa é meio budista? (coloquei o ponto de interrogação mas pra mim eu acho que a resposta é “Completamente”.) E outro comentário: quanto menos eu medito e quanto mais eu estou vivendo uma vida agitada (do que seja: leituras, amigos, trabalho, pouco sono, etc…) mais os pensamentos vem com potência. Como se a meditação também fosse um espaço de “reset”. Como se a gente fosse um vaso grande com tampa. Se eu vou meditar e consigo colocar a tampa, é mais fácil. Tem dia que tá tão cheio que a tampa fica caindo, aí é… Ler mais >
Obrigado pelo texto Rafa, me identifiquei nele!
Comecei a sentar em zen em 2019, justamente quando o isolamento pegou e o medo da morte me acertou de uma forma avassaladora. Me ajudou mundo com a ansiedade e com diversas outras compreensões de sentimentos/pensamentos. Desde então tento meditar todos os dias, ao menos 20 minutos e recomendo as pessoas a minha volta sempre que posso!
Para pessoas que gostam de filosofia, seja oriental ou ocidental, a meditação é colocar os ensinamentos em prática!
Fiquei muito feliz em ver que você começou a sentar em zen, que seja uma jornada incrível!
Namastê!
Que texto bacana, Rafa. De fato, é mais fácil se conceber o fim do mundo do que a derrocada capitalismo. Agora, entendo que a meditação é de certa forma revolucionária, ela representa uma luta consciente contra nossa natureza volátil. Mudar a si, eis um grande desafio. Já fui adepto à prática em meados de 2017. Durante uns meses, cheguei a ficar viciado na tranquilidade pós meditação. Eu passava algumas horas da minha semana sentado no chão tentando entrar em confluência com o universo ao meu redor e, quando terminava, não sentia a necessidade de me comunicar com os outros. Definitivamente,… Ler mais >