Uma segunda feira depois do almoço, sentado no ônibus, meio vazio, a caminho do trabalho. Ainda perto de minha casa, passávamos por uma rua famosa por suas lojas de departamento e varejo, no melhor estilo C&A. Como de costume, estou com o pensamento longe dali, lendo um romance francês, quando percebo ao meu lado algumas senhoras comentando vivamente as belas peças expostas nas imensas vitrines das lojas que passavam do lado de fora. O ônibus, então, para no farol vermelho. As senhoras levantam-se e vão até a janela ver mais de perto e comentar os preços promocionais de tal blusinha azul ou de uma linda calça jeans, não me lembro bem. Olho para o outro lado e vejo alguns passageiros assistindo, em uma daquelas pequenas televisões que todos nossos ônibus possuem, um comercial qualquer em que uma celebridade qualquer exibe um produto qualquer.
Fecho o livro. Observo atentamente o comportamento daquelas pessoas. As senhoras, entusiasmadas, perguntando-se se haveriam, por acaso, números maiores daquela roupa exposta no corpo franzino da manequim. Os telespectadores, entediados, buscando algo com o qual identificar-se, depositando na pequena televisão a esperança de que esta possa achar-lhes algo de útil no que gastar o tempo perdido.

Estou parado no ponto. Um pouco desnorteado. Perdi em algum lugar minha vontade. Quando volto à mim, ouço algumas pessoas comentando este novo ponto de ônibus, que fora instalado semana passada. Abrigo arrojado, design “High-Tech”, todo de vidro, teto com espessura de 12 milimetros, película escurecedora e vedação adicional para o caso de chuva. E, é claro, um painel de 2 metros quadrados destinado à publicidade, com o qual me deparei logo que desci do ônibus. Nele, uma cerveja estupidamente gelada. Naquela segunda feira de inverno, eu não estava com sede, até então.




