O verbo ser, eis a decadência da filosofia! Opor o ser ao devir é nossa eterna maldição. Será que um dia escaparemos? Difícil responder… Afinal, estamos preocupados demais com quem somos. Fomos engolidos pela mensagem do Oráculo de Delfos: conhece a ti mesmo. Será que não conseguiremos escapar destas formatações? Será que não podemos fugir destas definições?
A Ditadura da Identidade é o fetiche pelo nome, é ânsia por definição, o feitiço da forma. Não sabemos mais conviver com o desconhecido, tanto em nós como no outro. O mundo se tornou uma sala de interrogatório: qual seu nome? Número do RG? Quantos anos? Solteiro ou casado? Qual sua orientação sexual? Qual seu partido político? E pior, não sabemos dizer não, queremos apenas em responder tudo certo para sermos aceitos. Uma ficha nos define, nosso perfil de Facebook é nosso novo templo.
Mas quanto mais nos nomeamos, mais nos perdemos de nós mesmos! O ser é inefável, inexprimível. Cada palavra que utilizamos para nos comunicar apenas nos torna mais comuns. Quem fala consente, quem cala, cria. Carregamos como camelos todos os nomes em nossas costas. Somos tantas coisas que não temos tempo para apenas estar. O que há de mais essencial em nós se perde na gramática que de uma identidade, um número, com o qual nos identificam.
A identidade é uma função do poder: as “estruturas” do eu, a “forma” do indivíduo, mas a unidade é sempre simulada, sempre um corte, uma prisão. A vida existe de modo plural, não em um formato definido. Ela é uma reta que passa por infinitos pontos entre A e B, e faz infinitas conexões de um lugar a outro. Somos, como dizia Hume, um feixe de percepções! Mas insistem em nos tornar átomos sociais, comportados e definidos!
Não sabemos mais tirar a máscara que pedimos para nos darem. Nos irritamos quando erram nosso nome: “sou Fulano! Não Sicrano!” Mas por que não Sicrano? Ele também é legal, não podemos ser ele por alguns segundos? É mentira? E quando a mentira passou a ser menos interessante que a verdade? O Ego é efeito de submissão, existe uma pluralidade em cada um de nós que não podemos submeter. Não é possível acabar com a potência em nós sem pagar um preço muito alto na vida. Mas parece que não há lugar para a vida intensiva em nossa sociedade: precisamos ser responsáveis, sérios, frágeis, “humanistas”. Isto quer dizer, faça seu trabalho, mande seu filho para a escola e não reclame do trânsito.
As formas são extremamente necessárias em nossa sociedade: Homem, Branco, Heterossexual, meia-idade, com carro, conta bancária, barba por fazer, terno e gravata. Mulher, jovem, sedutora mas não vulgar, mãe, esposa, cabelo comprido, amorosa, atenciosa, fiel. As formas são mentiras inalcançáveis! Cada passo em sua direção é uma morte! A ideia não se move, não existe.
Vivemos constantemente sob tutela, fazemos falsas escolhas mentirosamente oferecidas. Nos ensinaram a dizer sim e não, a escolher, a excluir, a restringir. Ora, porque não podemos escolher rock E bossa nova? Não há todo um universo infinito entre um e outro que podemos experimentar? Por que escolher entre ser homem ou mulher? Só exclui quem ainda não aprendeu a criar. Só pede opinião quem não inventou seu modo de existir. Vivemos em falsas oposições, perdemos toda a cromática que existe entre um e outro.
Nos seguramos à nossa identidade com unhas e dentes, esta máscara que vestimos já está colada. E assim tememos o que há de mais verdadeiro em nós, que foge à toda racionalidade, toda unidade. A única coisa eterna em nós é a potência. Mas potência é vontade de diferir, mudar, trocar de pele. Matamos o que há de eterno em nós para apostar na mentira da identidade. A vontade de conservação em nós é diretamente oposta à vontade de criação. Mas alguns acham que o investimento na forma poderá salvar o homem, coitados, alguns acham que podem parar o tempo. Não dá pra parar o tempo, não dá pra descer do mundo, nós temos que nos efetuar, tudo em nós se usa, gasta, queima, e no fim nada se conserva. É impossível que cada momento não seja absolutamente inédito, e por isso é impossível que não sejamos absolutamente diferentes a cada momento.
A diferença em nós se submete à ditadura da identidade na qual nos escondemos. Nossa identidade nos protege, nos deixa aconchegantes, preguiçosos, estúpidos, mortos. A diferença toma outro caminho, não pede reconhecimento, é anômala, quer apenas efetuar seus encontros e ir para além de si. Não há senhor, nem escravo, nem espelho, nem reconhecimento, tão pouco dialética: há apenas uma vontade de criar, inventar, produzir, diferir e experienciar a transformação de si que acontece a cada encontro.
Foucault disse, “não me pergunte quem sou, e não me diga para permanecer o mesmo!”. Enquanto pudemos dizer “eu não sou, eu estou”, ainda valerá a pena viver.





