“O verbo ser foi o começo da decadência da filosofia” – Luiz Fuganti

Estamos preocupados demais com quem somos. Fomos engolidos pela mensagem do Oráculo de Delfos: conhece a ti mesmo. Será que não conseguiremos escapar destas formatações? Será que não podemos fugir destas definições?

A ditadura da identidade é o ímpeto pelo nome, pela definição, pela forma. Não sabemos mais conviver com o desconhecido, tanto em nós como no outro. O mundo se tornou uma sala de interrogatório: qual seu nome? Número do RG? Quantos anos? Solteiro ou casado? Qual sua orientação sexual? Qual seu partido político? E não sabemos dizer não, pensamos apenas em responder tudo certo para sermos aceitos. Uma ficha nos define, nosso perfil de facebook é nosso novo templo.

Mas quanto mais nos nomeamos, mais nos perdemos de nós mesmos. O ser é inefável. Cada palavra que utilizamos para nos comunicar apenas nos torna mais comuns. Carregamos como camelos todos os nomes em nossas costas. Somos tantas coisas que não temos tempo para apenas estar. O que há de mais essencial em nós se perde na gramática que cria uma identidade, um número, com o qual nos identificam.

A identidade é uma função do poder: as “estruturas” do eu, a “forma” do indivíduo, mas a unidade é sempre simulada, sempre um corte, uma prisão. A vida existe de modo plural, não em um formato definido. Ela é uma reta que passa por infinitos pontos entre A e B, e faz infinitas conexões de um lugar a outro.

Não sabemos mais tirar a máscara que pedimos para nos darem. Nos irritamos quando erram nosso nome: “sou Fulano! Não Sicrano!” Mas por que não Sicrano? Ele também é legal, não podemos ser ele por alguns segundos? É mentira? E quando a mentira passou a ser menos interessante que a verdade? O ego é efeito de submissão, existe uma pluralidade em mim a qual não posso (e não quero) submeter. Não é possível acabar com a potência em nós sem pagar um preço muito alto pela vida. Mas parece que não há lugar para a vida intensiva em nossa sociedade: precisamos ser responsáveis, sérios, frágeis, “humanistas”. Isto quer dizer, faça seu trabalho, mande seu filho para a escola e não reclame do trânsito.

As formas são o último efeito da nossa sociedade: homem, branco, heterossexual, meia-idade, com carro, conta bancária, barba por fazer, terno e gravata. Mulher, jovem, gostosa mas não vulgar, mãe, esposa, cabelo comprido, amorosa, atenciosa, fiel. As formas são mentiras inalcançáveis.

Vivemos constantemente sob tutela, fazemos falsas escolhas mentirosamente oferecidas. Todo Sim que nos obrigam a dizer faz parte de um Não maior que nos impõem: será que não saberemos um dia apenas dizer Sim? Nietzsche soube, e o chamou de Amor-fati. Porque eu não posso escolher rock E bossa nova? Não há todo um universo infinito entre um e outro que eu posso experimentar? Por que escolher entre ser homem ou mulher? Só escolhe quem ainda não aprendeu a criar. Só pede opinião quem não inventou seu modo de existir.

Nos seguramos à nossa identidade com unhas e dentes, esta máscara que vestimos já está colada. E assim tememos o que há de mais verdadeiro em nós, que foge à toda racionalidade, toda unidade. A única coisa eterna em nós é a potência. Mas potência é vontade de diferir, mudar, trocar de pele. Matamos o que há de eterno em nós para apostar na mentira da identidade. A vontade de conservação em nós é diretamente oposta à vontade de criação. Mas alguns acham que o investimento na forma poderá salvar o homem, coitados, alguns acham que podem parar o tempo. Não dá pra parar o tempo, não dá pra descer do mundo, nós temos que nos efetuar, tudo em nós se usa, gasta, queima, e no fim nada se conserva. É impossível que cada momento não seja absolutamente inédito, e por isso é impossível que não sejamos absolutamente diferentes a cada momento.

A diferença em nós se submete à identidade na qual nos escondemos. É muito pouco “transgredir” essa máscara, a verdadeira diferença não se compara com qualquer outra coisa. A diferença não pede reconhecimento. Não há senhor, nem escravo, nem espelho, nem reconhecimento, tão pouco dialética: há apenas uma vontade de criar, inventar, produzir, diferir e experienciar a transformação de si que acontece a cada encontro.

Foucault disse, “não me pergunte quem sou, e não me diga para permanecer o mesmo!”. Enquanto eu puder dizer “eu não sou, eu estou”, ainda valerá a pena viver.

Arte de Priscilla Fierro
Arte de Priscilla Fierro

Confira outros textos da série “Regime Ditatorial de Valores“.

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

15 comentários

  1. Aaaaa, ótima reflexão! Que texto bom!

    Mais uma provocação sobre o tema: ( 😉 )

    […]
    O que aos poucos se descobre é que não se tem identidade quando se está no ato de fazer alguma coisa. Identidade é reconhecimento, você sabe quem é porque os outros se lembram de alguma coisa sobre você, mas essencialmente você não é isso, quando está fazendo alguma coisa. Eu sou eu porque meu cachorrinho me conhece, mas, do ponto de vista criativo, o cachorrinho saber que você é você e você reconhecer que ele sabe é o que destrói a criação. É o que faz escola. Picasso uma vez comentou pouco me importa quem me influencia desde que não seja eu mesmo.
    […]
    Gertrude Stein

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  2. Que leve e delicioso é não ser nada. Nem ter que nada. Estar pleno como uma revoada . Silenciosamente dizer nada e nunca assustar se com uma trovoada. A única tormenta é a da cabeça tentando SER. Queres que eu seja? Pois bem. Serei a extensão do Mar e suas ondas bailando no vai e vem. Não tente me segurar nem queiras saber “aonde isso vai dar” …Todo meu prazer consiste em estar. Onde estou. Estar onde jamais sei quem sou. Gracias Rafael, você me inspirou 😍

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