waltandjessebreakingbad

É bastante improvável que você não tenha ouvido falar de Breaking Bad. A série americana, dirigida por Vince Gilligan (Arquivo X), tornou-se rapidamente um fenômeno mundial, acompanhado de mais de 60 prêmios internacionais, entre eles o Golden Globe e o Emmy de melhor série de drama. Até aí, pouco importa. Sou bastante resistente aos programas televisivos e não costumo me deixar enganar pelos prêmios da indústria americana, que costumam ser apenas um jeito chique de vender o peixe, uma feira com tapetes vermelhos. Também não me impressionei ao ver a Record gastando seus milhões na compra dos direitos televisivos, aliás, isso só me afastou (explicações adiante). Não lembro exatamente por que é que comecei a assistir, acho que foi uma dessas coisas que não escolhemos, mas que escolhem a gente.

Fato é que assisti o piloto e depois a primeira, a segunda, a terceira temporadas viciadamente. Agora, estou já no fim da série e escrevo este texto propositalmente sem ter terminado de vê-la. É uma parada para saborear o percurso, lembrar-se da escalada antes de dar uma olhada na vista lá de cima. Não uso a metáfora da escalada à toa, a série é uma construção de uma solidez impressionante. Um processo incrível de transformação de um personagem. Walter White não é só um professor de química frustrado que vira traficante de metanfetamina em nome da família. Para mim, ele é a ilustração mesma da necessidade. Break Bad é antes devir-impulsivo, do que um tornar-se mau.

Aqui, estou utilizando a noção de necessidade num sentido bastante preciso. Walter White torna-se Heisenberg porque lhe é absolutamente necessário, não há escolha! De um ponto a outro não há bifurcações, veredas, atalhos nem sendas.  É como a pólvora que explode ao entrar em contato com o fogo, não há escolha aqui! Há necessidade. Antes de prosseguir com minha interpretação, gostaria de esclarecer que esta noção de necessidade não tem nenhuma relação com a carência. Não é uma questão de fraqueza, é uma questão de força. Walter não tem necessidade de nada, ele se descobre enquanto necessidade. Walter não carece de ser acontecido, ele quer acontecer!

Pois bem, na minha opinião, é neste ponto que reside boa parte do interesse da série. Acompanhando os passos do protagonista, brilhantemente interpretado por Bryan Cranston, vemos de perto a história de um homem entregue à fatalidade. A primeira cena da série mostra a última das escolhas, propriamente ditas, de Walter: uma tentativa de suicídio. Ele deixa uma mensagem de despedida para a família após ver fracassar todo seu empreendimento na produção de metanfetamina e aponta a arma para a própria cabeça, mas a arma não dispara. Ele sobrevive e, a partir desse momento, sua saga se inicia.

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Pense num homem que entra em um grande rio e é levado pela forte correnteza de uma só direção. Este homem resiste à corrente? Questiona a corrente? Pergunta à natureza “Por que tens este destino”?  Não. É aqui que começa meu problema com a Record e com várias das pessoas com quem eu conversei sobre a série. No terreno da pura necessidade, não há bem nem mal. O diretor estrutura a narrativa de forma que fiquemos incomodados moralmente, mas isso não significa que ele expressa uma moral, uma censura. Vejo o exato oposto. Ele nos quer questionadores, não julgadores. É por isso que discordo completamente do subtítulo “A química do mal” dado pela Record. É uma interpretação grotesca. Daquelas que não possui argumento, é só ruim mesmo. Não se julga moralmente o inevitável. É tão estúpido quanto enfurecer-se com a água por ela ter a propriedade de afogar ou com a gravidade por ela ter a propriedade de derrubar.

Breaking bad é um jogo entre Caos e Linearidade, onde o possível e o necessário entrelaçam os fatos como numa dança. A genialidade desta série está na perfeição com que este jogo é apresentado. Assistimos tudo com estupefação, sempre imaginando as consequências e muitas vezes acertando na mosca, não por serem previsíveis, mas por serem inevitáveis.  Nem por um minuto pensamos que as coisas poderiam ter sido de outra maneira. Ficamos com a impressão de que a história de Walter White não é uma ficção, mas uma aula de química dada fora da sala de aula.

“Chemistry is the study of matter, but I prefer to see it as the study of change.

Now, just think about this.

Electrons, they change their energy levels.

Molecules change their bonds.

Elements, they combine and change into compounds.

Well that’s… That’s all of life, right?

It’s the constant, it’s the cycle… It’s solution, dissolution, just over and over and over.

It’s growth, then decay, then transformation.

It is fascinating, really.”

Walter White

BreakingBadPoolPilot

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

2 comentários

  1. Química: uma ciência que estuda a transformação.
    A explosão laranja de Albuquerque diante do irretocável azul do céu no deserto. A química é o estudo da transformação. Imprimir no devir o caráter de ser? Vontade de potência?
    Uma estória sobre drogas e dinheiro. Ou seria sobre arte e filosofia?
    Uma pergunta insiste em não ser respondida: o que é o homem? Ou melhor… O que é um corpo? Afinal de contas, nosso querido W.W se transformou ou permanece o mesmo?
    Na corda instável da ambigüidade, dança o cozinheiro maluco. Fraco? Tediosamente classe média? Ressentido? Egocêntrico? Megalomaníaco? Violento? Nada disso. É de sua humanidade que se tem medo.
    Sidarta em busca de sua iluminação sob o deserto escasso em redenção.
    Van Gogh da ilusão azul com nove nove ponto um de pureza. Se não existem fatos, o que se pode é criar. O que vale na vida de um homem é saber escolher a própria morte, fazer de sua ação obra de arte. Se a busca é a arte, não se carece justificativas. Moral, família, morte, medo, doença: palavras vazias para quem sabe ouvir a natureza.
    R.I.P mister Walter White. Tiveste a morte doce dos que sabem viver.

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