Leitura por Maria Carolina Moracci,

Os homens eram todos iguais. Só as mulheres podiam aceder à diferença”

– Valter Hugo Mãe, O Filho de Mil Homens

Se todos os devires se efetivam através de um devir minoritário, a mulher é certamente o melhor porto de partida. Minorias que estão em maior número: trágico ou desafiador? “Todos os devires começam e passam pelo devir-mulher. É a chave dos outros devires” (D&G, Mil Platôs 4). Deleuze e Guattari dão ao devir-mulher as maiores honras e fazem dele um dos mais importantes. Não se entra em devir sem antes passar pelo devir-mulher.

Mas antes façamos uma última visita ao Homem, com H mauísculo, que não tem devir. Sim, a forma homem é incapaz de entrar em devir porque é um modelo fixo que procura modelar e territorializar todas as outras forças que o circundam. Para o Homem, tudo depois dele está em segundo plano, tudo veio depois dele, tudo existe para ele. A mulher, por exemplo, veio de sua costela (como sustenta a bíblia); a criança é um pequeno homem em formação, e talvez um dia o alcance; o animal é um ser irracional que deve ser domesticado pelo e para o homem.

Ou seja, a forma Homem quer colocar o mundo aos seus pés, faz isso pela manipulação ou pela violência, fixando um plano molar de existência. Este ponto central, este fundamento se dá na forma do Homem-adulto-branco-racional-europeu, heterossexual. E todas as variações são diminuições em relação à forma original. Tudo funciona numa representação um tanto quanto platônica. A forma oferece o modelo e os pretendentes devem imitá-lo para chegarem o mais próximo possível.

Mas, se o homem procura subordinar a forma mulher, a mulher faz variar a forma homem. Exatamente, o devir-mulher abala as estruturas do ser homem, uma linha molecular atravessa o plano definido de modelos dominantes: mulher, negra, adulta, irracional, homossexual, estrangeira, e assim por diante. Deleuze e Guattari definem o devir-mulher como a chave para todos os outros devires, ela é a porta de entrada para qualquer devir minotirário, a mulher é a primeira a desterritorializar o homem e fazer fugir suas formas binárias e hierárquicas. Uma linha de fuga causa um devir e se desvia do ponto fixo, entrando em contato com o fora, o indefinido, a vida.

Mas é preciso lembrar: entrar em devir não é imitar! Diremos isso mil vezes porque um homem pode colocar um vestido, mas quem prova que entrou em devir? Se nada mudar, se ficamos neste campo das imagens, não se chegará em lugar algum. Entrar em devir também não é capturar o outro, isso já fazemos cotidianamente: em vez de entender, procuramos engolir, digerir, incluir perversamente. A mulher pode participar do mercado de trabalho? Pode, mas precisa receber menos e aprender a copiar os homens. Uma mulher não tira seu devir-mulher das forças molares que a constituem, não se aprende em uma cartilha da boa esposa ou da boa dona de casa.

– por Alexandra Levasseur

O devir trata-se de uma dupla captura, as moléculas de um corpo entram na zona de vizinhança de outro, tudo começa a girar mais rápido e entrar em variação. A força de um devir está no que se passa entre, no que escorre destas determinações de poder, nos excessos. O devir-mulher contamina a forma homem, claro, mas também a forma mulher. Aceleração, velocidades, fluxos, o devir não se faz diante de nossos olhos, mas na relação entre os corpos. O que mais aterroriza nossa sociedade? O que o devir-mulher libera? Fluxos descodificados. É isso que a sociedade não pode tolerar; e como não consegue entender e dominar, oprime e afasta.

O devir-mulher é a liberação da potência do múltiplo, é uma força que faz variar, o mistério do indefinível. Freud disse não haver entendido as mulheres. Ora, as mulheres são fáceis de entender, elas são uma imagem criada pelo reflexo da figura masculina. O difícil é compreender um devir mulher, porque se passa embaixo da casca masculina ou feminina, porque libera forças que simplesmente não podem ser representadas, e nem podem ser compreendidas porque são forças de criação. Existe um feminino codificado, que se deixa dominar tanto quanto o masculino codificado, e existem forças que são pura desestabilização da identidade! Por isso o devir só pode ser mulher. É um desviar-se voluntariamente da norma: adeus mãe, adeus esposa, adeus filha. O devir-mulher são as linhas de fuga que escapam pelas fissuras de uma sociedade que foi pensada pelos homens e para os homens.

O cristianismo diz: a mulher veio da costela do homem, o patriarcado diz: a mulher deve respeitar o homem, Estado diz: a mulher deve trabalhar (recebendo menos) e fazer dupla jornada. Para tudo isso o devir-mulher responde: mas eu ainda não tive a chance de experimentar quem eu sou, vocês me interpretaram demais e não me deixaram experimentar. Por isso a mulher racha todos os modelos para abrir caminhos novos, novas subjetividades não capturadas. Isso é importante: partir de forças moleculares, criar linhas de fuga, desfazer codificações e sobrecodificações, criar movimentos e afetos. É preciso saber jogar, é preciso uma nova suavidade, é preciso ser malandra.

Isso é imprescindível também para o homem. Afinal, o homem também precisa entrar em devir mulher, este é necessariamente seu primeiro devir: ser chefe? pai? autoridade? reconhecimento? O que quer o devir-mulher que há em todo homem? Romper com os jogos essencialistas de identidades atadas ao poder e à representação. Encontrar o que em cada um de nós foge às formas estabelecidas, quais potências em meu corpo se afirmam em um devir-mulher, essa potência é muito mais efetiva que a forma mulher, que impede os homens de juntarem forças nesta empreitada. Encontrar onde estão as forças de afirmação, não as formas de reconhecimento; atuar no molecular, não no molar.

O devir-mulher escorrega das teias do poder, sai do mundo das ideias e toca o chão. A mulher dança para escapar do poder pelo puro prazer do movimento.

Claro, é preciso prudência, toda luta se faz com forças de criação e conservação. É preciso entrar em devir sem se desfazer. Por isso o devir-mulher jamais pode abandonar as lutas por direitos. Mesmo que vinculado ao Estado, estas lutas por reconhecimento são importantes, essenciais. Devir mulher é se afastar do homem na questão da não efetuação, mas é importantíssimo aproximar-se em direitos, tomando sempre o cuidado de não cair em uma armadilha: afastar-se quando necessário para retomar a capacidade de diferir de si mesmo. Juntar as condições favoráveis para múltiplos devires, é isso que as lutas molares permitem. Mas o seu perigo é se tornar a única bandeira de luta, porque assim correm o risco de se tornarem ressentidas, representativas, estanques .

– por Alexandra Levasseur

Nesse sentido, podemos dizer: Sim, conscientização do câncer de mama; sim, delegacia da mulher; sim, lei maria da penha, mas não saciar-se de direitos concedidos pelo poder. Guardar para si o direito de criar valores! Para isso é necessário fazer subir uma força que fuja às formas morais e afirme uma Ética dos devires. Devir-mulher não é reverter as representações, de modo que os que estavam embaixo passem para o lugar de cima, não queremos estar no lugar daqueles que oprimem, e sim buscar lugares novos, onde eles ainda não chegaram, um mundo de intensidades puras que eles não conhecem.

Onde está o corpo da mulher? Ele foi definido por homens. Onde está a essência feminina? Ela foi definida por homens. Mas qual a essência do devir-mulher? É isso que estamos tentando dizer, ela não existe! Há algo que escorre para o fora, indefinível, em devir. A mulher não é um fim em si mesma, ela é, usando uma analogia de Nietzsche, uma corda estendida, entre o sedentário e o nômade, entre o homem e o desconhecido, entre a representação e as intensidades. Um horizonte que se abre para todos os outros devires minoritários.

O devir-mulher é primeiro, é ele que dá início à resistência de uma forma homem que fecha os fluxos de experimentação e abre para um corpo nômade aberto à variação, que se recusa a ficar no mesmo lugar e buscar uma forma definida. Emitir partículas de microfeminilidades, longe da máquina dual que se opõe ao homem, isso todos nós podemos; produzir um devir mulher molecular, totalmente novo e desconhecido, isso todos nós podemos; conquistar um corpo novo, uma história nova, afetos novos, isso todos nós podemos; mas para esta importante tarefa é imprescindível, felizmente, devir-mulher.

Admirava a liberdade que tinham para a expressão da sensibilidade, achava que era como uma permissão para ter a alma à solta, autorizada a manifestar-se pela beleza ou pelo espanto de cada coisa. Estava autorizada à sensibilidade que fazia da vida uma travessia mais intensa. As mulheres, pensava ele, eram mais intensas”

– Valter Hugo Mãe, O Filho de Mil Homens

 

Texto da série:

Ética dos Devires

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Filósofo, Psicólogo Clínico e Supervisor

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