“É verdadeiramente do filósofo este sentimento, o espanto; pois não há outra origem da filosofia a não ser esta”

– Platão, Teeteto

Suponhamos que Platão estivesse falando do amor. Não que ele não o tenha feito, O Banquete é um dos seus textos mais famosos. Ele poderia dizer: “É verdadeiramente do amante este sentimento, o espanto”. Em sua filosofia, isso significaria que o amante fica estupefato perante o amor, e a partir deste estado põe-se a pensar sobre ele. Assim, ele se espantará tanto mais quanto for capaz de descobrir o verdadeiro amor – puro, simples e sem mistura – por trás daquele que se apresenta. Bom, é isso que queremos subverter.

Queremos virar do avesso essa ideia de espanto. Em vez de buscar o amor verdadeiro, desconfiados de que aquele que sentimos é passageiro, queremos que o amor se passe em nós. Não queremos descobrir um amor puro, retirando o véu de maia da frente dos olhos, queremos que o amor se misture em nossos corpos. Deixamos de nos admirar com o amor eterno, mil vezes repetido na cultura romântica, nos espantamos com o amor novo em cada noite ou renovado a cada manhã.

O espanto é um grande começo, é um anúncio triunfal de um novo caminho – quem sabe onde vai dar? Conhece num dia, troca algumas palavras, uma gentileza outra hora, uma coincidência boba, um café naquela mesa, uma mensagem ontem, uma presença hoje. Nos encontramos de repente imersos no outro. Tão imprevisível quanto pode ser, de repente a ficha cai, e como nos espantamos! Não estava ali antes, não havia isso ontem, como foi que chegamos aqui? O fato é que agora as coisas mudaram, e o espanto é o índice dessa mudança.

Às vezes, amar é experimentar uma vertigem. Andamos pelas mesmas ruas, mas elas não são mais as mesmas. Falamos com as mesmas pessoas, mas elas não são mais as mesmas. As coisas estão nos mesmos lugares, mas os lugares não são mais os mesmos. Nós fomos modificados pelo acontecimento-amor, e experimentamos uma radical mudança de perspectiva. Nosso olhar foi deslocado por um encontro, como por um golpe de força, e agora precisamos aprender tudo de novo.

Às vezes o amor não acontece tão rápido, mas ainda assim nos surpreende bastante, porque passa despercebido. A  grande questão é que não percorremos o caminho que transforma uma pessoa qualquer em uma pessoa fundamental sem nos espantar. Outro dia não era ninguém, hoje é causa de uma alegria indispensável. O que aconteceu? Parece evidente que o amor não pede passagem, ele nos toma em seu movimento, e nós ficamos a admirar.

Somos tomados pela vontade de viver tudo mais uma vez. Queremos contar novamente os antigos detalhes, revisitar as memórias, passear em velhos lugares – pois tudo isso se tornou novo de novo. O amor é um ritornelo: ele se faz, se perfaz, se refaz e,  quando retornamos para casa, já somos outros. É nesse ponto que está o princípio do espanto: não queremos permanecer os mesmos. Somos modificados pelo mundo e o modificamos também. Ainda que espantados, queremos acompanhar de perto esse processo. 

Não queremos nos relacionar com o mundo descobrindo sempre o mesmo a dobrar cada esquina, por trás de cada rosto. O espanto é nossa medida para a diferença, para aquilo que é sempre outro, sempre múltiplo. Estamos cansados da vida de sempre, cotidiana, repetida, mecânica, comprida. A anarquia relacional preza pelo que há de inédito nos encontros, por isso não compara, não hierarquiza, não prioriza, não julga o que há de singular em cada relação. Cada pessoa é uma porta para a multiplicidade enquanto intensidade, enquanto efetuação de uma vida mais viva.

O espanto vem de fora, mas é com nós mesmos que nos espantamos. Por mais gosto que tenhamos em atribuí-lo ao outro, somos nós que fomos modificados. É por isso que há tão pouco a exigir do outro. Enquanto tentarmos encaixar o novo amor em um padrão repetido, em uma representação das nossas expectativas, estaremos exigindo justamente aquilo que ele não pode ser. Não devemos regular o espanto pelo quanto o outro se encaixa em nossas expectativas, mas pelo quanto ele nos leva para passear por outro campo.

Precisamos estar dispostos a nos espantar com o quanto podemos ser diferentes, pois este é o objetivo no final das contas. Não queremos construir uma torre de marfim para nos proteger do devir, tampouco queremos naufragar, queremos navegar. Se esperamos sentir as coisas com alguma intensidade, não podemos esperar sair totalmente ilesos. Relacionar-se afetivamente é um risco que corremos de bom grado. Se envolve dor, queremos ser fortes o suficiente para transformá-la em mais prazer.

Nos acostumamos a desconfiar daquilo que se difere em nós, pois temos medo de não acompanhar as mudanças. Armamos uma intensa vigilância, cercamos a casa com arame farpado, apontamos as câmeras para todos os suspeitos, trancamos todas as portas, colocamos grades em todas as janelas – inútil, pois o sujeito da mudança está em nós mesmos. A metamorfose nos habita e, de um dia para o outro, acordamos parecendo insetos. Ao invés de fugir, é melhor substituir o assombro pelo espanto, deixar de temer o amor como devir para conseguir admirá-lo.

Queremos amar seguindo uma lógica dos simulacros. Não perseguimos o amor como uma ideia, mas o vivemos como a cópia mais distante da ideia, aquela monstruosa, que não segue mais as regras. Seguindo essa lógica, o amor real se diferencia tanto do ideal que já não deve mais nada a ele, passa a acontecer segundo suas próprias leis, passa a ser regido pelas medidas da própria relação. É assim que dispensamos o modelo e a estranheza que sentimos em relação aos nossos afetos. 

Relacionar-se pela e para a diferença depende de deixar a hierarquia para trás. A hierarquia (do grego hierós ‘sagrado’ + arkhḗ ‘autoridade’, ‘fundamento’, ‘ordem’) é o amor que sentimos pela ideia, pelo modelo, pela lei, pelo tirano. O espanto que surge desse amor é aquele que tem nojo da diferença, que desconfia de tudo que muda, e que só admira aquilo que se submete constantemente à autoridade. Anarquia (a ‘negação’ + arkhé) relacional é, antes de mais nada, não estimar o tipo de relação hierárquica, apaixonada pelo poder.

Um famoso mito platônico nos conta que bebemos do rio do esquecimento (o lethes) antes de encarnar e por isso não lembramos as ideias, as essências verdadeiras das coisas. Então, enquanto filósofos nossa altiva tarefa seria a de relembrar e aproximar ao máximo essas ideias (a-letheia). No amor, Platão nos aconselha a buscar não as relações, as pessoas, as mudanças, mas a verdade, aquilo que não muda por trás de tudo isso. Afastemos, nós mesmos, esse cálice. Não queremos mais a ideia, queremos a vida.

Temos o espanto em alta conta, como o princípio de amor à diferença. Em vez de amor ao próximo, ao que se assemelha, ao que se submete, o amor ao distante, ao que se diferencia, ao que não obedece. Pois sabemos bem como o amor ao próximo, enquanto amor ao mesmo, se converte em ódio ao outro, lei máxima da intolerância. Em qualquer relação amorosa, queremos admirar nossa capacidade de mudar, nos alegrando com o que nos tornamos através dos outros. Aquilo que nos tornamos na conjunção de nossas alegrias sempre será razão de espanto, pois não há plano capaz de prever o que se faz por amor.

Texto da Série:

Anarquia Relacional

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Música e Filosofia são as linhas que tecem a minha vida...

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Kétely Aquino
Kétely Aquino
2 meses atrás

Ler vocês nao me move apenas o intelecto, mas, o corpo inteiro. Eu mudo a todo instante.
O que é essa razão inadequada???
Escapa a tudo…. Melhor ficar sem definição. Belíssimo texto?????

Roberto
Roberto
2 meses atrás

Poesia domingueira dos espantos para viver! O texto esta excelente!Somos a dualidade de escolhas! Da vida de dores ou de alegrias? da vida comedida dos sentidos, da vida da permissão de todos os sentidos? Todos tem o direito de não sentir falta dos sentidos, todos imaginam liberdade, todos amam a solidão, todos querem sentir os corpos em sua plenitude! Onde reside a escravidão? Em que elo tua servidão responde, em que medida é tua suscetibilidad? Há em todos a covardia do medo quando não temos as respostas. Vejo nos espaços decoráveis da tua insatisfação a parilisia do mau humor! Na… Ler mais >