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Estamos acostumados a disfarçar nossos interesses, não é novidade. Adquirimos reflexos de submissão a qualquer autoridade, pois acreditamos que é melhor consentir mentindo do que sair perdendo. Estamos viciados na ideia de que um desejo é uma ofensa, e de que nossas relações são muito frágeis para que ele seja colocado. À todas as práticas relacionais opacas, opomos um princípio de sinceridade, um apelo por mútuo consentimento.

Podemos enganar quem quisermos, mas essa esperteza, diria Estamira, está ao contrário. A intenção de levar vantagem sobre o outro é bastante burra, pois quando agimos “sobre” alguém, estamos deixando de agir junto deste alguém. Enganar o outro é uma forma muito eficiente de sair sempre perdendo, pois o que se ganha é irrelevante comparado aos resultados da associação. Se isso soa óbvio, então é preciso pensar por que algumas obviedades ainda não se tornaram práticas. Quando somos verdadeiros, não o fazemos apenas em nome dos outros, mas por nós mesmos. A sinceridade é um apelo por relações com o mínimo de reciprocidade.

A falsidade não é uma questão moral, é pura perda de tempo – e temos muito pouco tempo a perder. Não se trata de um mandamento, “não mentirás”, mas de uma prática translúcida, onde aquilo que importa é mostrado, e não tem por que ser escondido. Buscamos relações onde podemos ser e mostrar aquilo que somos, incluindo as contradições. Fugimos das relações onde a sedução depende de um falseamento de nós mesmos. Quanto mais verdadeiramente pudermos ser diante dos outros, mais confortáveis estaremos. 

Parece aquele clichê, “ser amado pelo que se é”, mas isso ainda não é tudo. Não “somos” algo fixo, então o amor precisa ser um devir. Nosso ser é devir: somos inseparáveis de nossas metamorfoses particulares. A sinceridade é um suporte para a confiança, ela dissolve o medo de que as mudanças ocorram sem a participação dos envolvidos. Somos verdadeiros quando contamos ao outro o que se passa em nossos processos íntimos de mudança, e somos ainda mais verdadeiros quando acolhemos aquilo que o outro nos traz de suas próprias experiências.

Quando não somos verdadeiros estamos perdendo não só o presente, a atualidade das relações, mas a criação de um passado vivo, que é a base da alegria duradoura. O passado não é um acúmulo de dias todos iguais. Aprendemos errado, o passado não está morto, ao contrário, ele é feito de uma trama elástica que nos impulsiona conforme nos atinge e somos tão intensamente atingidos quanto presentes estivemos em sua constituição. O amor é a duração de uma alegria que toma corpo no presente.

O que significa estar junto senão coexistir nas questões? Comunicar algo aos outros não é informar, entregar algo pronto, mas buscar um campo comum para a construção de algum entendimento. Ser sincero é  menos informar o outro de algo, do que entender algo junto do outro. A única condição é o acolhimento. Não podemos punir uns aos outros por sentirmos as coisas de maneiras diversas. Não podemos culpar uns aos outros por sermos afetados de inúmeras maneiras. Não podemos castigar uns aos outros por não corresponder sempre àquilo que se espera de nós. Privilegiar a sinceridade depende de uma disposição em acolher o inesperado.

A linguagem não define as relações, mas é atravessada por elas. As palavras não nos esperam prontas, as frases não nos aguardam formuladas, as ideias não estão postas – quantos novos pensamentos ainda não teremos, ainda que com as mesmas palavras, frases e ideias! Por esse motivo é que a sinceridade não é a transmissão de um fato ao outro. A forma mais interessante de usar a comunicação é subversiva: por um grande respeito a nós mesmos, não aceitamos as respostas já dadas. Construir um significado comum, não é isso dialogar? 

A sinceridade é a condição de possibilidade de um entendimento comum em torno de alguma questão. Neste sentido, uma das coisas mais tristes é pedir aos outros que saibam tudo de antemão: “só me procure quando souber o que se passa”. Ora, há inúmeras questões para se pensar juntos. Precisamos permutar nossas incertezas, elas são valiosas. Sempre existirão questões para se pensar sozinho, mas a individualidade total acaba excluindo da relação uma parte fundamental dela. Não tenham dúvidas, chegaremos em outras respostas se pensarmos juntos.

Em qualquer relação, a conversa é uma potência de integridade. Ser sincero consigo é ter-se ao seu dispor para elaborar algo mais próprio; ser sincero com os outros é dispor-se a eles para estabelecer relações mais interessantes. Quando nos colocamos dessa maneira, nossas relações tendem à horizontalidade, nos vemos lado a lado – e como é bom sentir que estamos verdadeiramente acompanhados! Chamamos de imanentes as relações que não deixam as questões se descolarem de seu plano: onde não há afastamento de si, não há sombras projetadas na relação; onde não há necessidade de esconder do outro, não há zonas obscuras.

Não é fácil, já admitimos mais de uma vez, mas o sofrimento nunca foi opcional, engana-se quem pensa ao contrário. Dizem que a tristeza é inevitável e o sofrimento é opcional – nunca encontramos ninguém que deixou de sofrer por pensar assim. Não existem afetos opcionais, não somos capazes de determinar completamente aquilo que se passa conosco. Ao contrário, nossa capacidade de lidar com eles está justamente na compreensão de sua necessidade. Quanta angústia não precisamos ser capazes de suportar para viver relações interessantes?

Por que a sinceridade é uma necessidade? Ora, porque a mudança é uma indiscutível realidade. Uma relação que não suporta isso não é interessante. Precisamos compreender o que se passa entre nós. Não queremos rodear nossas casas de cercas elétricas para protegê-la das mudanças, queremos ser capazes de colocá-la sobre rodas se assim parecer melhor! Ou essas transformações são pensadas com carinho, em conjunto, ou acabam submetendo o outro a alguma violência. 

A maior dificuldade não é individual, mas coletiva e social. Nos acostumamos com a hierarquia e somos extremamente tolerantes com o patriarca. Quantas mulheres não foram desconsideradas nas relações? Quantas filhas não foram abusadas em sua condição? Quantos de nós não fomos usados? Contra toda uma estrutura opressiva, precisamos desnaturalizar essa violência. Ao invés de elevar o olhar, vamos nos levantar dos joelhos e questionar toda autoridade. Tornar-se irreverente é deixar de reverenciar aqueles que se julgam merecedores de nosso amor. “Não se apaixonar pelo poder” é mais do que um conselho dado por Foucault, é uma prática de contestação da legitimidade das estruturas hierárquicas.

As relações desiguais são aquelas onde uma das partes retira seu poder diretamente da impotência dos outros. O que isso significa? Que aqueles que amamos aprenderam a usar este amor em benefício exclusivo. Eles tomam para si aquilo que não podemos deixar de entregar, fazendo dos nossos afetos mais doces uma fragilidade e retirando daí sua força bruta. Esse tipo de sedução é um golpe que pode submeter uma paixão a terríveis destinos, fazendo dos outros os meios para fins egocêntricos e mesquinhos. Só a hierarquia permite a continuidade de relações assim: a anarquia relacional nos convida a desertar os centros de poder.

A veracidade é um princípio relacional, mas também político, como não pode deixar de ser toda relação. O desejo é revolucionário na medida que os corpos se tornam capazes de enunciá-lo, não apenas como indivíduos mas como sujeitos coletivos. A sinceridade é a implicação de todos em um grito comum que abre fendas nos discursos sociais e políticos pretensamente uniformes, colocando em circulação a multiplicidade de desejos e afetos de que somos capazes e de que temos necessidade. 

A sinceridade é, muitas vezes, um sacrifício que estamos dispostos a cometer pelo outro. É uma recusa em sair ganhando sempre, e uma disposição em assumir a responsabilidade por pensar e sentir de determinada maneira. Já sabemos, ao menos desde Sócrates, o parresiasta se equilibra num fio de conversa que corre o risco de se romper, uma fala sincera pode acabar com uma relação. Então, ele busca a verdade na medida que as relações suportam, mas abrindo novos caminhos, que então convida os outros a percorrer junto dele. A sinceridade é um risco, pois sempre há a chance de decepcionar, mas a autenticidade que ela traz consigo é a base para relações mais livres.

Texto da Série:

Anarquia Relacional

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Música e Filosofia são as linhas que tecem a minha vida...

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