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“A escritura não tem outro objetivo: o vento…” – Gilles Deleuze

Escrever parece um ato banal, basta apertar as letras no teclado e dizer o que se pretende dizer. Isso parece funcionar nos casos mais simples como: “traga 8 pães, por favor”. Mas a questão se torna ingrata quando precisamos escrever o que de certa maneira ainda não sabemos o que é. Como falar do que não sabemos?

Podemos definir, grosso modo, dois tipos de escrita: a primeira possui um sentido completo em si mesma. Ela está, digamos assim, mais fechada, porque evita equívocos, a ideia do que se quer dizer precisa ser clara, reta, bem delimitada. A interpretação é tão objetiva quanto se pode ser, a própria frase já aponta para onde quer ir e não necessita de muita imaginação. No final, a mensagem está toda ali, não há mais nada para dizer, é como o manual de eletrodoméstico, uma lista de compras, uma ordem de um superior, uma descrição objetiva de um exame médico, uma notícia de jornal, um relatório mensal de gastos da empresa. Simplesmente se escreve para comunicar o óbvio, o único caminho, fazendo a linguagem correr do emissor ao ouvinte como numa linha de trem. Existem muitos escritores de manuais, o mundo precisa deles.

O segundo tipo de escrita se abre para a multiplicidade, é aberta porque segue por mais de um caminho. Inclusive, ela se abre e produz sentidos novos enquanto acontece. Nesta forma de escrita, o próprio ato se torna uma ferramenta de criação de intensidades, algo meio egoísta, mas prazeroso, então justificável. Em vez de seguir por uma linha reta onde o destino é o que importa, na escrita plurívoca a jornada é o mais importante. Infelizmente este processo também produz angústia, porque nesta forma de escrever não se sabe exatamente o que virá, não se sabe o resultado, não há um script, não há um objetivo bem definido.  Escrever desta forma é mais ou menos como abrir a porta e as janelas de casa, nunca se sabe que visita chegará de surpresa.

Dois tipos de escrita, que na verdade passam por muitos graus entre uma e outra. Uma anotação na agenda diária que pode aproximar-se do poema, e um término de relação que pode parecer uma notificação de mensagem de texto. A linguagem, especificamente no ser humano, permite isso, ela é capaz de uma mobilidade quase infinita. Dependendo de onde a palavra está, no começo ou no fim, ela muda completamente de sentido. Se o escritor usar um sinônimo, o sentido da frase corre um sério risco e tudo precisa ser analisado cuidadosamente. É tudo muito sutil, de modo que uma vírgula é capaz de te incriminar e te levar à prisão. Os poetas sabem disso melhor do que ninguém, seu objetivo é descascar a palavra e encontrar novos sentidos para ela, fazê-la vestir roupas novas e andar por lugares desconhecidos. O poeta faz a palavra se redescobrir. Há um fascínio pela instabilidade das palavras, pela maneira como elas dançam no papel. O escritor se apaixona pela flexibilidade das palavras, cada hora em posições diferentes. Em sua mão, elas traem sua vocação inicial de descrição das coisas, e começam a ganhar vida própria. O escritor dá vida própria às palavras.

Neste processo, o escritor se torna um portal por onde algo novo chega, ele é uma antena sintonizando o desconhecido, um porto por onde o novo desembarca. E ele precisa ser capaz de sustentar isso, ganhar um certo controle de si, para submeter à forma o que ainda o atravessa de maneira informe. E ao mesmo tempo, paradoxalmente, ele precisa abrir mão de si, precisa confiar, se deixar levar. Todo escritor está ao mesmo tempo além e aquém da palavra. O que torna todo escritor uma espécie de profeta esclarecido, preocupado com a qualidade divina da mensagem que quer traduzir. Ele se debruça sobre o texto com afinco e dedicação. Ele quer que a mensagem seja passada, mas sabe que a tarefa é ingrata. Qual é o seu objetivo? Encontrar um equilíbrio entre o finito e o infinito. A escrita, como produto finito, contém o infinito.

O que faz o escritor? A escrita como produção de intensidades é uma maneira de viajar sentado no lugar. E como ele devém escritor? Ele quer escrever algo que ainda não existe, ele transcreve em letras o que ainda não tem forma. Ele se esforça para dizer o indizível, descrever o indescritível, expressar o inefável. A linguagem tenta falar de algo que não possui, um logos originário, ela tenta falar então de algo que está aquém dela, e no próprio ato de tentar ele falha. Mas é neste ato absurdo, fadado à derrota, que ele triunfa. Neste vai e vem o livro lentamente ganha forma. Seguindo este raciocínio, o que é um bom livro? É aquele que contém um bom recorte do infinito, como uma fotografia que não dá conta da imensidão da paisagem. Um bom livro está sempre abrindo caminhos, lugares, sensações. Um bom livro nunca se fecha, mesmo depois de terminado, mesmo depois do ponto final, ele ainda permanece aberto. Ele sai em uma jornada, atravessando lugares e pessoas, o que torna necessário ao escritor sair com ele, tentar acompanhá-lo, explicar o que escreveu, enquanto seus leitores incitam descontroles, levando a escrita a lugares imprevistos, começam a viajar sem o escritor acompanhá-la.

A escrita (e talvez a arte como um todo) é prova da finitude e da grandeza do ser humano. Sabemos que nunca seremos capazes de ler todos os livros, muito menos de escrever todos os livros possíveis. Mas ao mesmo tempo isso é prova da altura a qual podemos nos elevar. O escritor é mais que ele mesmo quando escreve, e menos que ele mesmo quando termina de escrever.

paul klee

Paul Klee – Nos limites da Razão

 

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Renato
Renato
8 meses atrás

…o limitado tentando o ilimitado, assim são as palavras…