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O nosso primeiro erro, repetido por todo o lado e em todos os cantos, é acreditar que o dinheiro é a nossa real necessidade. Sim, um erro inevitável, afinal somos reféns de um modo de produção que tem o capital como valor dos valores. Parece, no entanto, que nos afeiçoamos ao nosso sequestrador, aceitamos negociar em seus termos. O que realmente necessitamos é de chão, luz, água e pão, mas acabamos acreditando que o que nos falta é dinheiro. Assim, passamos a vida correndo atrás de numerinhos numa tela, quando os recursos naturais existem em abundância. De tão constante, já nem percebemos mais o roubo que sustenta as coisas como são. Entramos resignados na máquina de moer gente e só de pensar no trabalho já nos sentimos cansados, mas o dinheiro é o Papai Noel no qual ainda acreditamos, e pelo qual nos comportamos bem o ano inteiro. 

É assustadora a nossa crença de que a moeda corresponde adequadamente ao valor. Mais do que isso, é bizarra a ideia de que a vida dependa do dinheiro para se organizar. Só alguém que nunca parou para observá-la com atenção chegaria a tal conclusão: ainda não há notícia de que as formigas tenham inventado um banco. A organização dos valores de uma sociedade em torno de uma abstração monetária é tão incoerente que apenas elementos como o hábito e a crença nos ajudam a compreender sua normalização. Acreditar que um pedaço de papel vale ouro é tão estranho quanto engarrafar água para vender plástico. Nós, a comunidade dos humanos, tão capazes quanto as plantas de produzir tudo aquilo de que necessitamos, teríamos inventado o capital como forma mais racional de organizar as relações? Parece uma hipótese ridícula, no entanto, a opinião dominante é a de que o dinheiro é, senão a única, a melhor maneira de organizar as trocas. O que será que foi responsável por naturalizar esse absurdo?

O nosso segundo erro, tão repetido quanto o primeiro, é acreditar que existe riqueza individual. Estamos tão acostumados a contar unicamente com a venda dos nossos próprios braços que acabamos por imaginar que os ricos tenham alguma força excepcional ou alguma inteligência rara. Na realidade, eles apenas se apropriam de uma trama de relações que gera valor e que não os pertence. Todo enriquecimento extremo é uma apropriação ilegítima de bens coletivos, pois, assim como o dinheiro não representa o verdadeiro valor, o valor nunca pode ser individualmente pensado; não há número capaz de resumir a importância de um prato de comida quando se tem fome; assim como não há extrato bilionário que corresponda ao trabalho de apenas uma pessoa. Embora se encontrem reduzidos às finanças, tanto o valor quanto a riqueza são sociais: dessa perspectiva, as necessidades reais não deveriam ter preço e os bilionários não deveriam existir.

Podemos dizer que toda moeda é uma criptomoeda, porque a abstração monetária é uma maneira astuta de esconder a origem do valor. Ao acreditar na representação numérica, perdemos de vista a multiplicidade de relações que possibilitam àquele objeto ou serviço realmente conter um valor. Ou seja, por sua natureza espectral, o capital escapa do tecido comunitário, que é o único responsável pela produção de riquezas. Ou seja, mais do que os meios de produção, os capitalistas expropriam as redes de relações que nos sustentam em tudo o que fazemos – e o fazem chamando o valor por outro nome, que, sarcasticamente, em nosso país chamam de real. 

Um preço em reais jamais vai comunicar o valor real, porque o que torna algo verdadeiramente valioso não é um preço alto, é a sua posição de relevância em uma comunidade. As coisas mais valiosas que temos não são os iates nem os jatinhos particulares, são as coisas que nos são absolutamente comuns, não pela banalidade, mas pelo fato de compartilharmos a necessidade. Por esse motivo é que podemos dizer que uma praça com algumas árvores vale mais do que um shopping inteiro, porque suas relações não são mediadas por quem pode pagar, mas pela própria comunidade dos vivos – incluindo as plantas e outros animais – que se estabelecem ali. Vejam a que ponto chegamos, precisamos argumentar para convencer alguém de que um rio limpo é mais importante do que uma indústria de refrigerante. 

Para dizer em termos talvez redundantes, precisamos nos radicalizar a partir do que é, de fato, a raiz: somos nós que geramos o valor, é de nossas mãos que ele provém; e temos feito coisas inacreditáveis: dirigimos ônibus para levar desconhecidos ao trabalho, fazemos massa de pão às cinco da manhã, abrimos a farmácia aos domingos, varremos as calçadas por quilômetros, entre tantos outros exemplos realmente valiosos. Ou seja, a comunidade já existe, e o capital é o verme que lhe suga. Para dizer de outra maneira, o capitalismo está fundado no comunismo, porque não é possível produzir nada de valor sem a efetiva participação de todos. Ora, se é assim, então por que parece tão difícil mudar as coisas? 

Por último, mas não menos importante, existe ainda um terceiro erro ao qual somos diariamente levados: acreditamos que o valor é efeito da competição. O capital, este sim, realmente depende da produção de escassez, da desconfiança perpétua, do egoísmo intratável, mas essa não é a matéria das nossas sociedades. Nós somos feitos de pessoas que confiam a vida uns aos outros a todo momento, e que dependem do apoio mútuo para viver bem. Por mais que nossos laços comunitários estejam esgarçados, é ainda a relação de cooperação entre as pessoas que realmente provê o necessário – e que nos faz continuar em sociedade. 

Se o capitalismo subsiste como o parasita de um sistema majoritariamente cooperativo, então a radicalidade política depende de uma ação que faça essa comunidade sacudir-se como um cachorro a repelir as pulgas. Em outras palavras, não existe perspectiva revolucionária interessante se não formos capazes de acessar essa comuna subjacente. Isso depende, em grande medida, de se opor aos três erros – da abstração monetária, da riqueza individual e da competição mútua – por meio de três princípios de luta: o valor social, a riqueza comunitária e o apoio mútuo. Buscamos a confiança para agir a partir daquilo que nunca faltou, a força das relações de alegria pela qual beneficiamos uns aos outros.


Referências 

P. Kropotkin, Apoio Mútuo, Biblioteca Terra Livre 
A. Grubačić e D. Graeber, Prefácio ao Apoio Mútuo
D. Hume, Tratado da Natureza Humana
Negri e Hardt, Isto não é um Manifesto

 

Como citar

LAURO, Rafael. A Comuna Subjacente. Razão Inadequada, 2024. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2024/05/06/a-comuna-subjacente/>. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Um dos criadores do site Razão Inadequada e do podcast Imposturas Filosóficas, onde se produz conteúdo gratuito e independente sobre filosofia desde 2012. É natural de São Paulo e mora na capital. Estudou música na Faculdade Santa Marcelina e filosofia na Universidade de São Paulo. Atualmente, dedica-se à escrita de textos e aulas didáticas sobre filósofos diversos - como Espinosa, Nietzsche, Foucault, Epicuro, Hume, Montaigne, entre outros - e também à escrita de seu primeiro livro autoral sobre a Anarquia Relacional, uma perspectiva filosófica sobre os amores múltiplos e coexistentes.

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