As palavras mais quietas são as que trazem a tempestade. Pensamentos que vêm com pés de pomba dirigem o mundo” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

O mandatório mapa da sala de aula era seguido à risca. Talvez pelo meu jeito distraído, meu lugar era na primeira cadeira da primeira fileira, bem em frente à mesa da professora. Meu único consolo naquele presídio setorial era olhar pela janela. Naquele provável dia de primavera, o sol tinha um brilho suave. De vez em quando uma brisa de ar fresco soprava e eu podia sentir o vento em meus cabelos. A vista não era agradável, dava para o estacionamento do colégio, mas me permitia sonhar acordado em maneiras de serrar as grades daquela prisão, saltar pela janela e sair correndo.
No entanto, algo diferente aconteceu naquele dia. A professora, ocupada com o pandemônio da sala de aula, deixou um livro sobre a mesa. Espiei com o canto do olho: “Convite à Filosofia – Marilena Chaui”. A capa do livro me chamou atenção: o excesso de rabiscos em linha reta parecia formar uma figura humana com um quadrado central representando a cabeça. Me interessei. Sem a professora perceber, eu peguei o livro e comecei a folhear. Ler não me era estranho, eu gostava de livros de aventura, ficção, fantasia. Harry Potter e Senhor dos Anéis eram minhas companhias. Mas aquela leitura me atingiu de um jeito diferente.
Logo de início a autora provocava: muitos perguntam as horas, admiram a atriz mais linda e comentam a última fofoca. Mas quase ninguém se pergunta o que é o tempo, o que é a beleza e o que é a verdade. Este passo para trás me pegou de surpresa, como um vento forte que de repente bate contra no peito. Eu sentia que já havia feito aquelas perguntas antes, mas nunca com sentenças bem formuladas como aquelas. A continuação da leitura me deixou sem ar: a primeira atitude da filosofia é a negação, por que as coisas são como são? Por que não podem ser diferentes?
Naquele momento fui pego no flagra, “Rafael, você está lendo o livro que eu trouxe?”. Assustado coloquei o livro de volta, tentando evitar o pior, mas ela me tranquilizou dizendo: “pode ler se quiser, não tem problema” e voltou a ocupar-se dos alunos endiabrados. Com a permissão dada, retomei a leitura e descobri que filosofia era a junção de duas palavras e significava amor pela sabedoria, e que o seu nascimento, como nós a conhecemos, havia ocorrido na Grécia Antiga, há muito tempo atrás. Parei de ouvir o barulho da sala e me esqueci da janela onde o sol brilhava. Uma outra janela se abria.
A filosofia servia para as pessoas questionarem o porquê das coisas e do mundo, assim como Sócrates havia feito. Mas isso podia ser muito perigoso, pois o próprio Sócrates havia sido condenado à morte por fazer tais perguntas. Também descobri que muitos filósofos eram facilmente reconhecidos nas ruas, por suas vestimentas e suas maneiras inusitadas de viver; alguns viviam em jardins, outros em barris e alguns ensinavam onde só quem sabia matemática podia entrar. A filosofia parecia conversar com o marasmo e o ar parado que sufocavam meus dias.
Aquela lufada de ar me fez respirar fundo, tomar coragem, e perguntar para a professora se eu poderia levar o livro para casa. Ela respondeu que sim, abrindo um sorriso enigmático no rosto. Os dados foram lançados, ela percebera uma pequena fresta se abrindo, um mergulho num mundo que eu nunca tinha visto, repleto de emoções e aventuras muito diferentes dos dragões e hobbits que povoavam minha imaginação.
Quem poderia compartilhar comigo daquela loucura chamada filosofia? Quem estaria interessado em saber o que era a Justiça, Beleza, Deus, o Bem e o Mal? Ninguém, eu pensei, meus colegas de classe estavam preocupados com o time que passaria para a final do campeonato e as meninas se interessavam pelos atores da novela. Claro que eu jogava futebol e assistia Malhação, mas do alto da minha arrogância adolescente eu me imaginava portador de um tesouro que ninguém mais possuía. O oxigênio da minha vida começou a queimar mais forte com o fogo da filosofia e naquele momento tudo mais me pareceu desinteressante. Ela me provia de um sopro de vida que nenhuma outra atividade era capaz de dar.
Bati de porta em porta, tal qual um religioso numa manhã de sábado, procurando converter as pessoas. “Olá, você tem um minuto para ouvir a palavra de Sócrates?”. Das várias pessoas interpeladas uma delas também se interessou. Seu nome era fácil de lembrar, porque era o mesmo que o meu, Rafael. Naquele momento, uma outra janela se abriu e meus pulmões se encheram de alegria. Agora podia conversar por horas e horas sobre as coisas que eu lia e pensava.
O caminho fazia muito sentido, afinal, a própria filosofia elogiava a amizade. E questionar a existência apenas através das letras pode ser muito angustiante. A boa companhia se tornou uma necessidade, uma prioridade, uma felicidade que apenas uma amizade qualificada é capaz de prover. Ler é bom, pensar é melhor, mas dividir isso com uma boa companhia é inigualável. Foi muito tempo depois que veio a ideia: e se nós criássemos um site de filosofia, onde poderíamos falar sobre a ventania que desorganiza tudo depois de cada livro aberto? A ideia era que esta corrente de ar crescesse e se transformasse num grande furacão, arrastando tudo pelo caminho. O Razão Inadequada é isso: um pouco de ar, para não sufocar, e através dele encontrar muitos outros companheiros e companheiras pelo caminho.
Desde aquele dia, olhando pela janela, eu me tornei cativo deste modo anaximínico de pensar: tudo é feito deste ar, sussurrado nos ouvidos como um segredo, e no terrível estrondo causado pela força do tornado, que passa sem deixar pedra sobre pedra. Posso dizer que a filosofia é o ar que eu respiro, uma atmosfera fina preenche meu cotidiano, e dá a resistência necessária no ar que me permite levantar voo e alcançar as estrelas. Foi com ela que eu pulei pela janela, e saí voando, para nunca mais voltar.
Referências
- Convite à Filosofia – Marilena Chaui
- O Mundo de Sofia – Jostein Gaarder
- O que é Filosofia – Gilles Deleuze
- Saber Filosófico – Michel Foucault
- Elogio da Filosofia Antiga – Pierre Hadot
- O Banquete – Platão



