O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. ‘Para onde foi Deus?’, gritou ele, ‘já lhes direi! Nós o matamos — vocês e eu. Somos todos seus assassinos!’” – Nietzsche, Gaia Ciência, §125

O filósofo é o estraga prazeres de seu tempo. Cabe a ele olhar longe e trazer as más notícias. No caso de Nietzsche, a mensagem é conhecida: “Deus está morto, e nós o matamos!”. Para ele, a crença no Deus cristão já não fazia sentido, pois não possuía os alicerces metafísicos necessários para se sustentar. Melhor seria se o velho deus cristão fosse considerado um artigo de museu, ultrapassado, mas digno de curiosidade.

E não para por aí, o filósofo alemão passou sua vida toda tentando mostrar que as implicações deste gigantesco ato poderiam ser muito boas, mesmo que oferecessem também muita resistência. Agora que temos o sangue de deus escorrendo em nossas mãos, diz Nietzsche em seu famoso aforismo “O homem louco” do Gaia Ciência, agora que afastamos a Terra de seu Sol e vagamos pela escuridão do espaço sideral, que novos ritos precisaremos inventar para dar conta deste ato? A vida se mostra cheia de possibilidades, como um mar aberto a ser navegado. Ou será que não?

– John Martin

Corta a cena, somos transportados para outro lugar do tempo e do espaço: Brasil de 2026, 144 anos depois do anúncio no obituário metafísico. Olhamos ao redor e nos perguntamos: será que Deus realmente morreu? A primeira e mais óbvia resposta é: não, muito pelo contrário, esta ideia coletiva parece estar mais viva do que nunca. Basta pegar a estrada para o interior e ler: “A cidade tal pertence ao senhor Jesus Cristo” para acabar com a suspeita.

Esta prática confirma o verso bíblico: “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (mt 18:20). Ou seja, tanto faz a existência factual de uma entidade divina; se falam dele, se seguem ele, se são fiéis a ele, então ele existe. Em outras palavras, toda ideia existe na medida em que é vivida. Igrejas, mosteiros, congregações, centros espíritas, sinagogas, templos, mesquitas e assim por diante não provam a existência factual de Deus, mas, muito mais importante, vivem como se ele existisse. E isso basta. 

O brasileiro não busca por provas metafísicas da existência de deus, não há necessidade de um São Tomás de Aquino para defender a fé cristã dos ataques de Nietzsche. Pelo contrário, ao pronunciar o nome do filósofo alemão é capaz que as pessoas confundam o gesto com um espirro e digam: “Deus abençoe”. Pronto, rápido, prático: Nietzsche está morto, Deus vive. Não há tempo a perder com ninharias porque a preocupação do cristianismo no Brasil é outra: o poder político.

A questão não é se devemos ou não acreditar em Deus por argumentos metafísicos, o problema ganhou contornos maiores: a imposição de uma vida cristã aos não cristãos. Trata-se, mais uma vez e sempre, de uma questão de poder: o que aqueles que acreditam em Deus querem daqueles que não acreditam? Impor suas ideias, seu modo de vida. Baseados em quê? Na bíblia.

Os evangélicos seguem uma diretriz central do novo testamento: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (mc 16:15). Qual o objetivo desta empreitada? A resposta pode ser dada de imediato: a conversão dos infiéis. Esta é uma característica profunda do cristianismo que destoa de praticamente todas as outras crenças. Afinal não vemos umbandistas, judeus, e taoístas buscando converter outras pessoas à sua religião. A propagação do evangelho tem como objetivo trazer todas as ovelhas desgarradas para o rebanho de Deus e concretizar a profecia bíblica. 

Esta postura cristã está em direta contradição com a nossa sociedade, pois afeta uma das bases da Constituição: o estado laico e a liberdade de crença. Eles encontraram uma brecha porque se um cristão quer que você siga as suas próprias crenças, ele está te importunando, mas se ele vira um deputado, então ele está fazendo política. O livro sagrado dos cristãos – um conjunto absolutamente heterogêneo e contraditório de livros escrito ao longo de um extenso período de aproximadamente 16 séculos – passa a ser confundido com a Constituição Brasileira, promulgada em 1988. Não é nada surpreendente constatar isso, a bancada da Bíblia (que divide espaço com a bancada da bala e do boi) cresce cada vez mais no Congresso e no Senado e impõe suas ideias, quer você seja cristão quer não.

Para este grupo, a possibilidade de viver sem Deus é absurda,  impensável. Um desespero toma conta de todo cristão quando alguém se afasta do livro sagrado. Para eles, um ateu que faça pouco caso dos mandamentos divinos está mais próximo do assassinato, da traição, e de todos os outros crimes hediondos. A Bíblia transforma-se assim em sinônimo de civilização, e, invertendo o pensamento, a civilização precisa ser Cristã. E quem seria, pensam eles, contra à civilização? Ora, se tal pessoa existe, ela precisa ser convertida, afastada, ou destruída, o mais rápido possível. 

Ou seja, Deus não está morto porque possui defensores ávidos em promulgar leis que forçam todos a se tornarem reféns em seu rebanho. E a vontade cristã se mostra, cada vez mais, um esforço rumo à teocracia. Não há nada de estranho nisso, afinal, desde o tempo de Moisés, Estado e Religião estão absolutamente misturados, e é recente a ideia de que não precisamos adotar o modo de vida de uma religião. Mas as lideranças evangélicas acreditam que “uma vontade suprema deve reinar”, e assim impedem o debate público, sem perceber que esta afirmação é fundamento de toda e qualquer ditadura.

Mas voltemos a Nietzsche. Ele pode ser o estraga prazeres de seu tempo, mas isso não significa que todos ouviram o que ele tinha a dizer. O filósofo alemão era amante das batalhas, mas no fundo queria apenas encontrar novos caminhos, brincar de Deus-não-existe e ver o que aconteceria. A vida toda ele procurou por aliados, mas não os encontrou e infelizmente enlouqueceu no solitário processo. Nietzsche estava cansado de toda essa baboseira de mandamentos, predestinação e apocalipse. Este faz de conta, acreditava ele, só gerava mais ressentimento e má consciência. No lugar desta fantasia escatológica, ele propôs algo muito mais interessante: o Eterno Retorno do Mesmo. Infelizmente a maioria das pessoas ainda prefere a boa e velha distração bíblica do pecado e da redenção. Quanto a nós, cabe rir ou chorar, mas não se render.

Novas lutas – Depois que Buda morreu, sua sombra ainda foi mostrada numa caverna durante séculos – uma sombra imensa e terrível. Deus está morto; mas, tal como são os homens, durante séculos ainda haverá cavernas em que sua sombra será mostrada. – Quanto a nós – nós teremos que vencer também a sua sombra!” – Nietzsche, A Gaia Ciência, §108

Referências:

  • §125 Gaia Ciência – Nietzsche
  • Tratado Teológico Político – Espinosa
  • Apocalipse nos trópicos – Petra Costa
  • Escravos da Fé: Os Arautos do Evangelho – Cássia Dian e Marcelo Canella

Como citar

Trindade, Rafael. A constituição evangélica. Razão Inadequada, 2026. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2026/06/09/a-constituio-evanglica/>. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Filósofo, Psicólogo Clínico e Supervisor

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