Esqueçam a morte asséptica dos hospitais modernos. No século XIV, a Europa colidiu com a Yersinia Pestis, uma bactéria transmitida por pulgas, que transformou o continente em um abatedouro a céu aberto. A peste, em três formas: bubônica, septicêmica e pulmonar. Mal-estar, febre alta, nódoas negras, dores excruciantes nas articulações; sem tratamento, o corpo cedia em até oito dias. Durante o pico da Peste Negra, entre 1343 e 1353, estima-se que metade da população europeia tenha sido varrida do mapa — algo em torno de 50 milhões de cadáveres em uma década. E a peste durou, com surtos retornando a cada dez ou vinte anos. A morte não era um evento extraordinário, era cotidiana, uma vizinha de porta. A expectativa média de vida despencou para 45 anos, empurrada por uma mortalidade infantil brutal. A iconografia da época, como a Dança Macabra ou o Triunfo da Morte de Bruegel, não era metáfora, não era poética; era crônica.

Michel de Montaigne passou por três grandes surtos na França. Em 1566, a doença matou 25 mil pessoas apenas em Paris. Levou Étienne de La Boétie, o grande amigo de sua vida, e vários de seus conhecidos. Não sabemos se Montaigne chegou a contrair a bactéria, mas o fato é que a morte fez morada em sua casa: após a perda de La Boétie, morreram seu pai, seu irmão mais novo e cinco de seus seis filhos. Empurrado por esse luto sistemático e pela leitura voraz dos clássicos, a morte tornou-se uma obsessão. Vem dela o seu ensaio mais famoso, cujo título traz uma frase atribuída a ele, embora pertença originalmente a Cícero: De como filosofar é aprender a morrer.

Antes de comentar esse ensaio, vale resgatar uma passagem do ensaio Sobre o Exercício, onde Montaigne relata o dia em que quase morreu após sofrer uma queda de cavalo. O ar cômico do relato revela a banalidade da experiência. A semiconsciência que se seguiu ao tombo era, segundo ele, “terna e doce”, semelhante à quietude do sono. Não havia dor, apenas um infinito bem-estar. Teria sido, diz ele, uma morte agradável. No entanto, ao retornar a si horas depois, o corpo cobrou a conta em dores terríveis. Para acomodar o pensamento ao fim, Montaigne exigiu que os presentes no acidente lhe contassem cada detalhe. Ele usou a quase morte como laboratório.

“É difícil que o raciocínio e o conhecimento sejam assaz poderosos para nos levar à ação se não nos exercitamos, e pela prática não adaptamos a alma ao que queremos. Eis porque os filósofos que visavam à perfeição não se contentaram em aguardar na serenidade do repouso os rigores da sorte. […] Mas não nos é possível exercitar-nos a morrer, o que constitui entretanto a mais árdua tarefa que nos cumpre enfrentar. […] No que concerne à morte só a podemos experimentar uma vez, e quando chega não passamos todos nós de aprendizes.” Montaigne, Ensaios, Sobre o Exercício

Uma contradição salta aos olhos: como se preparar para a morte se não há como exercitá-la? O medo do fim nasce da nossa ignorância absoluta sobre o que ele seja. Montaigne diz que não tememos o pós-morte, mas sim a sua aproximação na própria vida; e essa aproximação é passível de estudo. A partir desse ponto, os Ensaios passam a tencionar duas visões clássicas e irreconciliáveis sobre o fim: a premeditação da morte, dos estoicos; e a morte natural, dos epicuristas.

O Montaigne jovem, influenciado por Sêneca, Epicteto e Crisipo, busca o endurecimento do espírito. No livro I, a postura estoica predomina. Se a morte é expressão da pura necessidade, o sábio deve encará-la de frente, inspirando-se no suicídio honroso de Catão, o Jovem, que arrancou as próprias vísceras com as mãos, ou na serenidade de Sócrates ao beber a cicuta. Se a morte nos apavora, transformamos a existência em uma meditação constante sobre ela, a fim de nos preparar para o fim. Montaigne carrega nas tintas: “O fim de nossa existência é a morte; é este nosso objetivo fatal. Se nos apavora, como poderemos dar um passo à frente sem tremer? O remédio do homem vulgar consiste em não pensar na morte. Mas quanta estupidez será preciso para uma tal cegueira?”  

Para o estoico, evitar a finitude é tolice; a morte nos espreita sob variadas formas. Ésquilo morreu esmagado por uma tartaruga derrubada por uma águia; o irmão de Montaigne morreu aos 23 anos devido a uma bolada na cabeça durante uma partida de tênis. É melhor se preparar. O exercício proposto pela razão é o Memento Mori: meditar sobre o fim, a cada telha que cai, a cada tropeço do cavalo, a cada dia que termina, transformando a consciência da finitude em uma ferramenta de valorização da vida presente.  

“Não sabemos onde a morte nos aguarda, esperemo-la em toda parte. Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer desaprendeu de servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento” Montaigne, Ensaios, De como filosofar é aprender a morrer

O estoico retesa o abdômen antes de levar o soco da natureza. No entanto, Montaigne é um cético que traz um estoico em uma orelha e um epicurista na outra. No meio desse estoico ensaio, irrompe uma frase estranha: “Nascemos para agir: ‘quero que a morte me surpreenda em pleno trabalho.’ Vamos agir portanto e prolonguemos os trabalhos da existência quanto pudermos, e que a morte nos encontre a plantar as nossas couves, mas indiferentes à sua chegada, e mais ainda ante as nossas hortas inacabadas”. Plantar couves é uma imagem engraçada para a postura estoica de enfrentamento heroico; parece o início de um desvio. É a infiltração da perspectiva epicurista de Lucrécio, que em vez de retesar o corpo, propõe esquecer a morte para preservar a vida.

Essa guinada em direção à morte natural ganha corpo no avançar dos Ensaios, quando a peste atinge diretamente as terras de Montaigne em 1585, obrigando sua família a fugir. Ao ver os trabalhadores mais simples, os pobres, os velhos e as crianças enfrentarem a epidemia e a guerra sem os aparatos conceituais da filosofia, Montaigne percebe que eles morrem com uma dignidade e indiferença que o sábio estoico gasta a vida inteira tentando adquirir por meio de exercícios. A razão, obcecada com a morte, acaba por corromper nossa natureza. O exercício da premeditação pode se tornar uma doença, estragando o presente pelo temor do futuro. Assim, o tom muda drasticamente, ele escreve: 

“É certo que na maioria dos homens a preparação para a morte causa maiores tormentos que o instante fatídico. […] A perspectiva de uma morte ainda por vir exige uma firmeza de ânimo mais prolongada e portanto mais difícil de manter. Se não sabeis morrer, não vos atormenteis; a natureza ensinar-vos-á no momento preciso de um modo suficiente. Ela executará a tarefa, não vos preocupeis…” Montaigne, Ensaios, Da Fisionomia

Se o medo é a coisa de que Montaigne mais tem medo no mundo, a preocupação constante com o fim passa a ser um veneno. Então, ele abraça o diagnóstico epicurista: perturbamos a vida com a morte, e a morte com a vida. Se soubermos viver com calma e serenidade, saberemos morrer do mesmo modo, sem a necessidade de converter o pensamento em um vigia fúnebre.

Tentar encaixar Montaigne em fases definitivas — dizendo que ele começou estoico e terminou epicurista — é trair a natureza dos Ensaios. Montaigne é um autor em movimento, um cético que pesa e experimenta opiniões contrárias sem intenção dogmática. Ele deixa suas incoerências expostas na página como um traçado honesto de onde seu pensamento esteve, convidando o leitor a exercitar o juízo junto dele. A escrita não serve para fixar uma tese, mas para formar quem escreve em uma relação potencial com quem lê. Uma passagem, tão estoica quanto epicurista, é particularmente bela:

“Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante.” Montaigne, Ensaios, I, 20


Referências 

Montaigne, Ensaios


Como citar

Montaigne – Reter ou Desviar. Razão Inadequada, 2026. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2026/07/07/montaigne-reter-ou-desviar>. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Razao Inadequada

Autor Razao Inadequada

Texto produzido em conjunto com o Grupo de Estudos, um espaço colaborativo de leitura e escrita. Os encontros acontecem semanalmente pela internet às quartas-feiras à noite. Os temas abordados são escolhidos em conjunto com os participantes. Quer fazer parte? Seja um assinante, colabore com o nosso site e receba benefícios.

Mais textos de Razao Inadequada

Deixe um Comentário