Deve ter uns seis anos esse menino que acaba de cair de cara no chão. Logo vem a mãe, que atravessa o pátio em passos urgentes para pegá-lo no colo. Ele berra entre soluços enquanto aponta — com o dedinho virado para o próprio rosto — o lugar onde dói. A moça balança o pequeno, averigua a testa que avermelha num galo, está preocupada. Chama uma amiga para uma segunda opinião, ela também traz uma criança ao colo. Juntas as mulheres se acalmam na ideia de que não foi nada. A cria, agarrada, deita a cabeça sobre os ombros que o amparam, e os encharca; a mãe se senta para aliviar o peso, acaricia os cachos castanhos do menino, depois levanta-o pelo queixo, distribui beijinhos pela testa e diz vai passar e repete vai passar. Eu vi a cena desde antes, vi os olhos do menino a imaginar, e só depois aumentar o passo, e então correr, até voar. Vi nele a expressão contente de quem aprendeu há pouco a usar as pernas, e ainda se entusiasma com isso. Até o tropeço. Nem pedra tinha. Só o peso do corpo desgovernado, e uma vontade maior que o medo. Abro a conversa comigo mesmo, e escrevo: cais porque brincas. 

Agora sentado à frente do teclado, penso sobre essa frase que me aconteceu naquela terça-feira em que, de pé na fila pro almoço, eu vi de longe a cena do menino que olhando de perto reconheço. Menino que certamente fui eu e, aquela, minha mãe; ou melhor, que sou eu e, aquela, minha mãe. Mas também minha amiga, e também meu irmão, e também meu amor; que são, todos eles, os colos de que preciso, e aos quais recorro quando caio. Quem dera fosse pouco, tropeçar só de vez em quando, e só porque brinco. Eu caio de tanta coisa. Mas aqui me interessa o quando brinco, quando confio no movimento das pernas. Todo brincar tem um quê de inventar alguma coisa que não se sabe onde vai dar. Sem brincadeira de mão!, dizia minha mãe tentando me proteger de alguns caminhos. E não é que os tombos mais doídos que eu tomei foram por brincar de mão, de boca, de corpo? Muita mãe sabe muita coisa, a minha sabe.

Eu invento alguma coisa que eu não sei como fazer. (Este texto é um exemplo.) Ou entro de supetão na brincadeira dos outros. E aí vou aprendendo como fazer enquanto faço. Tem dia que corre tudo bem; tem dia que — de repente, nem percebo de onde vem, se é pedra ou palavra, se promete galo ou corte; mas vem o inevitável trepidar. Então tropico, e saio à galope, dobrado, tentando o equilíbrio pra não me esborrachar. Às vezes me esborracho. E choro. Às vezes sozinho. Mas talvez eu só ouse brincar porque muito do meu chorar foi acolhido. Na verdade deve ter começado antes, por terem me oferecido um desamparo diferente do abandono; quando, nas redondezas do cuidado, eu aprendi a brincar no extracolo; quando eu senti que podia cair.

Dizem que Winnicott — aquele psicanalista inglês que passou anos e anos acompanhando crianças órfãs do pós-guerra — fazia sempre a mesma pergunta para ter uma primeira ideia da gravidade de um novo caso: ela brinca? Eu não entendo nada sobre Winnicott, mas sei que ele desenvolveu uma teoria a partir de observações do brincar. E que uma prática clínica se estruturou a partir disso. Um dia eu leio. Mas não hoje. Hoje a anedota me basta. Pergunto à minha criança: brincas? Ela responde: caio.

Dizem que Schopenhauer – aquele filósofo alemão que empurrou a vizinha da escada — é um pessimista entre os pessimistas, porque afirma que a vontade, essa coisa que se revolve em nossos ventres, que nos atira sobre a cama ou sobre a mesa, que, pior ainda, busca sentido numa existência que oscila entre a dor de não ter e o tédio de possuir, enfim, que a vontade quer comer a si mesma. Produção, horror aesthetics, por favor! 

Um rosto velho brota do canto ensombrecido, como mofo do teto onde dormes. Tu sabes que dormes, porque vês a cena de fora do corpo. E por isso nada podes fazer para intervir, e nada fazes para evitar a cauda do vulto, que envolve a cama em névoa, que enrola-se em giros lentos e aperta o pescoço para que não grite. A pálida criatura de cabelos brancos aproxima-se lentamente dos ouvidos amarrados, e sussurra versos em alemão. O adormecido se retorce, mas não tem escolha. Recebe como um pesadelo a asquerosa língua a derramar sua baba. A flutuar, tu assistes teu próprio corpo sumir na penumbra espessa do monstro bolorento, que termina a récita com palavras de misericórdia: sofres porque queres. 

Corta! Foi só uma brincadeira. Quer dizer, a parte do Schopenhauer ser assustador não. Vamos de novo, por partes. O primeiro argumento já é chato. Ok, ok, não tem como viver sem sofrer. Blá blá blá, eu sei. Mas aí ele vem com outro: quanto mais você desejar, mais vai sofrer. Aí fica difícil. E talvez ele esteja certo. Mas precisa ir até os fundamentos ontológicos pra esfregar isso na nossa cara? Precisa. Então tá. Mas que homem triste! Queria pegar ele no colo, e dizer calma, calma, vai passar. (Eu tenho um fraco por sad boys.) Que sofrer seja inevitável, certo, que o risco do desejo traga mais sofrimento, beleza, mas daí a negar a vontade? Já é demais pra mim. Desculpa, Schô, mas eu quero querer, eu desejo desejar, e enquanto eu viver eu vou brincar, mesmo que isso signifique me estropiar. 

O menino volta a correr. Chorava cinco minutos atrás, mas voltou a correr. Vejo como agora ele abre os braços, e imitando um avião inventa um jeito de voar, que atravessa o pátio num ruído de boca, vuuuuuun. Percebo que ele brinca consigo, mas não está sozinho. Eu tampouco me aventuro só. Busco e ofereço companhia — e colo. Me sinto seguro pra cair, porque tenho três ou quatro ou cinco bons amigos pra me acolher, que não apenas vão me receber, como vão ter prazer nisso, que vão cuidar de mim porque sabem que eu também cuido deles. Invento por minha conta as estrepolias, mas me sinto acompanhado. É só por isso que eu topo sofrer. Se eu contasse apenas comigo, seria muito difícil brincar. Até porque eu prefiro brincadeira a — no mínimo — dois.

 

 


Referências 

Winnicott, O Brincar e a Realidade
Schopenhauer, O Mundo como Vontade e Representação
Pixinguinha, Sofres porque queres
Céline Sciamma, Tomboy

 

Como citar

LAURO, Rafael. Cais porque brincas. Razão Inadequada, 2024. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2026/09/15/cais-porque-brincas>. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Um dos criadores do site Razão Inadequada e do podcast Imposturas Filosóficas, onde se produz conteúdo gratuito e independente sobre filosofia desde 2012. É natural de São Paulo e mora na capital. Estudou música na Faculdade Santa Marcelina e filosofia na Universidade de São Paulo. Atualmente, dedica-se à escrita de textos e aulas didáticas sobre filósofos diversos - como Espinosa, Nietzsche, Foucault, Epicuro, Hume, Montaigne, entre outros - e também à escrita de seu primeiro livro autoral sobre a Anarquia Relacional, uma perspectiva filosófica sobre os amores múltiplos e coexistentes.

Mais textos de Rafael Lauro

Deixe um Comentário