As tarefas da esquizoanálise são práticas! Trata-se de exercícios subjetivos que buscam seguir novas direções. Mas como traçar novos caminhos se estamos enredados na teia de interpretação da psicanálise? Como fugir se em todas as portas encontramos papai-e-mamãe? Ora… por isso a primeira tarefa será destrutiva:

Destruir, destruir: a tarefa da esquizoanálise passa pela destruição, por toda uma faxina, toda uma curetagem do inconsciente. Destruir Édipo, a ilusão do eu, o fantoche do superego, a culpabilidade, a lei, a castração. Não se trata de piedosas destruições como as que a psicanálise opera sob a benevolente neutralidade do analista”

– Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 441

Deleuze e Guattari se esforçaram para salvar a metapsicologia da interpretação furiosa em que a psicanálise se lançou, como se a criação de Freud tivesse sido pervertida por sua prática. Por isso, a primeira tarefa da esquizoanálise é negativa: liberar a clínica de toda interpretação edípica, da transferência paralisante e assim recuperar o princípio de produção do inconsciente maquínico. O modelo de inconsciente da esquizoanálise recusa toda forma de representação, para isso é preciso fazer guerra contra a interpretose.

Somos servos de um discurso que não é nosso, aprendemos a falar uma língua, mas ainda não encontramos nosso jeito de se expressar! A pessoa já chega viciada no divã, ela já chega com uma análise pronta! Deita no divã e se esforça para dizer papai e mamãe, agrandando assim o psicanalista. É preciso quebrar com as análises fast-food, de shopping, marketeiras, ready made. O paciente já monta uma narrativa completa que impede a mudança e faz da intervenção um mero consentimento de autoridade. Pois bem, temos que destruir isso! Esta é primeira tarefa! Ela é piromaníaca: que se coloque fogo no teatro edípico, que se coloque fogo em todas as representações baratas que colonizaram nosso inconsciente.

A organização dos corpos nos faz viver um vida de baixas intensidades: subjetividades privatizadas. O horror da esquizoanálise são corpos que se relacionam sempre com os mesmos corpos, sempre da mesma maneira. Nestes casos é preciso primeiro matar o que nos mata, como diz Zaratustra: desejar nosso próprio declínio. E o que nos mata? Édipo, a Ilusão do eu, o fantoche do superego, a culpabilidade, a lei, a castração. “Ah, mas fora de Édipo há a loucura” Não! Mentira! A loucura não é necessariamente um desabamento (breakdown), ela pode muito bem ser também uma abertura, uma saída, um ultrapassamento (breakthrough).

Por isso é necessário iniciar a tarefa destrutiva com a maior rapidez possível! Sim, rápido com isso, vamos! Uma verdadeira saúde mental implicará, de uma maneira ou de outra, a dissolução do ego normal-neurótico-edípico. O fim do eu normal é o fim da máquina sabotada, sua reforma, sua realocação, sua reformulação. Colocar as cartas na mesa e separar a joio do trigo: isso me pertence ou foi imposto? Como Édipo me afeta? É possível ser mais, ir além?

Não se deve procurar por um núcleo edípico da subjetividade porque ele simplesmente não está lá. A codificação do desejo, sua inserção em um regime familista, dizem Deleuze e Guattari, é uma armadilha, temos que nos precaver. O que diz o psicanalista em nós? O que ele quer? Em que acredita? Substitui-se a família pelo divã: representantes imaginários, estruturas de reterritorialização, o neurótico papagueia em uma terra estéril. Existe vida fora do divã, e o esquizofrênico anda, passeia, longe do consultório abafado do psicanalista, para provar. É preciso destruir o “eu” normal, o neurótico típico, tirá-lo de seu pequeno conforto.

A psicanálise perde-se na vida burguesa, e a reproduz. Sua ortodoxia não compactua com devires-revolucionários. A clínica que supostamente deveria libertar, muitas vezes utiliza os mesmos dispositivos disciplinares que escravizam! Deleuze e Guattari querem salvar a psicanálise dela mesma, de uma clínica que faz o homem lutar por sua servidão como se fosse sua liberdade. Liberar a psicanálise do que ainda a faz um sistema de repressão. Tornar o pré-edípico em anedípico, só se pode dar conta de tal tarefa primeiro limpando terreno.

O problema prático da esquizoanálise é, contrariamente, o da reversão: devolver às sínteses do inconsciente a seu uso imanente. Desedipianizar, desfazer a teia de aranha do pai-mãe, desfazer as crenças para chegar à produção das máquinas desejantes e aos investimentos econômicos e sociais onde atua a análise militante. Nada é feito enquanto não se toca nas máquinas. Na verdade, isto implica intervenções muito concretas: substituir a benevolente pseudoneutralidade do analista edipiano, que só quer e só escuta pai e mãe, por uma atividade malevolente, abertamente malevolente — cago pro seu Édipo, se você continuar a gente para a análise, ou então leva um choque elétrico, chega de dizer papai-e-mamãe”

– Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 153

Estamos cagando para seu pai e sua mãe, isso não nos interessa! Não há material a ser descoberto no inconsciente! Não há nada para ser encontrado, há tão somente máquinas e o uso que faz delas. Não há nada para ser descoberto, não há um pano em cima do inconsciente a ser tirado e revelar nossos segredos, se agimos assim, ainda nos comportamos como religiosos. O mundo é aqui, o inconsciente é aqui, ele se faz, refaz, constantemente. Há de se criar um inconsciente, mas para isso é necessário antes demolir ídolos. Afinal, somos máquinas ligadas a máquinas.

Destruir Édipo é desfazer as conexões familistas, destruir todas as canalizações do desejo para o seio familiar, desviar estes fluxos em outras direções, quebrar o retrato de papai e mamãe e sair de casa para dar uma volta no quarteirão. Destruir a ilusão do Eu: o Eu é uma alma pequena, que se contém dentro de suas fronteiras. É necessário fazer a máquina girar mais rápido, para ver até onde ela pode chegar. A destruição é uma desterritorialização, um movimento em busca de novas terras.

Partir, fugir, mas fazendo fugir. As próprias máquinas desejantes são os fluxos-esquizas ou os cortes-fluxos que cortam e ao mesmo tempo escorrem sobre o corpo sem órgãos: não a grande ferida representada na castração, mas as miríades de pequenas conexões, disjunções, conjunções, pelas quais cada máquina produz um fluxo em relação a uma outra que o corta e que, por sua vez, corta um fluxo que uma outra produz”

– Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 416

A esquizoanálise quer destruir as resistências ao desejo, para seguir estes fluxos, a esquizoanálise está muito curiosa para saber onde eles vão dar; mas as máquinas parecem estar emperradas, por isso a tarefa destrutiva é tão necessária, é a primeira delas. Desterritorializar-se não é fugir do mundo, não é deixar destruir-se passivamente. É ativamente procurar a destruição daquilo que impede as máquinas de se conectarem, é ativamente procurar desfazer-se daquilo que atrapalha o funcionamento maquínico.

Em sua tarefa destrutiva, a esquizoanálise deve proceder com a maior rapidez possível, mas também só pode proceder com uma grande paciência, uma grande prudência, desfazendo sucessivamente as territorialidades e as reterritorializações representativas pelas quais um sujeito passa na sua história individual. Isto porque há várias camadas, vários planos de resistência vindos de dentro ou impostos de fora. A esquizofrenia como processo, a desterritorialização como processo, é inseparável das estases que a interrompem, ou então que a exasperam, ou que a fazem girar em roda, e que a reterritorializam em neurose, em perversão, em psicose. Isto ocorre a tal ponto que o processo só pode se desembaraçar, perseverar em si mesmo e se efetuar, na medida em que for capaz de criar — o quê, então? — uma terra nova

– Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 420

Aqui a importância de substituir uns conceitos por outros não pode ser subestimada. há de se pensar em algum substituto para o superego que não seja o pai, a mãe, ou qualquer representante familiar. Devemos destruir o fantoche do Superego. Sim, por quê? Não queremos nenhuma instância de limitação de nossa potência. Não queremos nenhum agente interno responsável pela nossa própria repressão. Já basta a máquina social! Mas não é tão simples: a potência de afirmação precisa vir acompanhada por uma boa dose de prudência. Sim, prudência para tomar o cuidado necessário na escolha dos encontros. Um passo para trás, dois para frente.

Fora com a culpa, esta máquina de impotência: “você quis matar seu pai, você quis dormir com sua mãe“. Há tão somente resistências e máquinas! A culpa, como bem explicou Nietzsche, são forças que se voltaram contra si mesmas. A culpa é a má-consciência de um sujeito iludido, pensando que suas forças de afirmação não deveriam existir. A quem serve esta culpa? Certamente não par nós. O inconsciente não sente culpa, nossa consciência deve acompanhá-lo. Não há nada a se culpar no desejo, apenas lamentar seu mau jeito, sua maneira pouco efetiva de afirmar-se.

Abaixo a lei! Esta imposição de limites que nos constrangem, limites que sobrecodificam nossos fluxos, axiomatizam nossa produção desejante. Não devemos pensar em termos legalistas, é preciso abolir todas as barreiras que nos constrangem, limitam, fecham. Pelo fim da castração: não ao fechamento dos fluxos, ao canto da triste, fraco. O esquizoanalista tem horror ao sujeito separado do que pode.

Como vemos, na boca do analisando crescem presas venenosas com as quais ele contamina a si mesmo e o mundo ao seu redor, ele sussurra em nossos ouvidos: então é isso, o desejo é falta! Mas o esquizoanalista diz: não acuse o desejo aqui, ele é produção, é criação. Já sabemos que um pouco de desejo já é o bastante para colocar toda sociedade cheque. Um pouco de desejo e toda a máquina edipianizada se desarranja. O desejo é nossa conexão com o fora, é a maneira de deixar a diferença entrar.

Desfamiliarizar e desedipianizar, ampliar o processo do inconsciente para além da família; descastrar, ligar o sujeito ao que ele pode; desfalicisar, desviar do poder, não ceder ao poder, ele é triste; destruir o teatro, reencontrar os índices maquínicos, as máquinas desejantes e produtoras de inconsciente; desfazer sonhos e fantasmas, encontrar a produção do real lá onde ela está, não em representações e interpretações, mas nos encontros, nos fluxos; descodificar e desterritorializar, romper com os limites impostos de fora, encontrar novos valores, desamarrar-se do poste da lei.

A esquizoanálise deve empenhar-se com todas as suas forças nas destruições necessárias. Destruir crenças e representações, cenas de teatro. E para levar a cabo essa tarefa não há atividade malevolente que baste. Explodir Édipo e a castração, intervir brutalmente toda vez que um sujeito entoe o canto do mito ou os versos da tragédia, reconduzi-lo sempre à fábrica”

– D&G, Anti-Édipo, p. 414

Reconduzir o inconsciente às oficinas, encontrar a matéria prima de criação, mobilizar os operários para que ocupem as fábricas, se organizem, se motivem. “Aqueçam as caldeiras!”, “joguem mais carvão!”, “aumentem a velocidade!”, estávamos funcionando em piloto automático, produzindo por produzir sem saber nem para quê nem para quem. O teatro é perigoso demais para começar por ele, fechem os teatros! Queremos ouvir o som dos martelos, das prensas, das engrenagens, das roldanas! Queimem todos os roteiros e nos tragam chaves de fenda!

A primeira tarefa destrutiva é a mais urgente. Mas todo este esforço em  quebrar ídolos pede prudência: as máquinas edípicas estão embrenhadas com as máquinas revolucionárias (separando-as do que elas podem). Por isso é preciso desmontar sem deixar que o sistema todo desabe, há muita coisa útil embrenhada no inconsciente psicanalítico, a esquizoanálise procura pelos índices maquínicos de desterritorialização, e só o passeio do esquizofrênico pode encontrar o funcionamento de suas máquinas desejantes. Queremos abrir caminho por entre  o pântano viscoso que prende as subjetividades e as faz rodar em círculos. Depois de desinfetar a casa de todo Império de Édipo, a esquizoanálise entra em sua tarefa positiva, a mecânica.

É por isso que esquizoanálise deve, inversamente, empenhar-se com todas as suas forças nas destruições necessárias. Destruir crenças e representações, cenas de teatro. E para levar a cabo essa tarefa não há atividade malevolente que baste. Explodir Édipo e a castração, intervir brutalmente toda vez que um sujeito entoe o canto do mito ou os versos da tragédia, reconduzi-lo sempre à fábrica”

– Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo,  p. 414

Texto da Série:

Esquizoanálise

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Filósofo, Psicólogo Clínico e Supervisor

Mais textos de Rafael Trindade

Deixe um Comentário