Num devir-animal, estamos sempre lidando com uma matilha, um bando, uma população, um povoamento, em suma, com um multiplicidade”

– D&G, Mil Platôs 4, p. 20

Deleuze e Guattari desenvolvem o conceito de devir para chegar no devir-animal. Sim, claro, existem alguns animais solitários, mas antes de mais nada estamos falando de animais capazes de compor bando, andar em grupo. Há neles uma lógica de propagação interessante: ele vão para o norte, vão para o sul, os leões seguem as zebras pela savana, quando há mudança de estações; as formigas se espalham pela planície, formando enormes ninhos; as bactérias se espalham pelo ar e atravessam continentes num navio. Rizomas.

Um bando se compõe para fora, com seu ambiente, e para dentro, com suas relações internas. Latitude e Longitude, antes de mais nada, os componentes do bando, latitude: um elefante maior, um menor, um mais rápido. É a composição destas singularidades que forma a manada, dá suas características, diz quem ela é. Depois, a partir destas composições, a longitude, o que esta manada é capaz? Em outras palavras, quais são os afetos que circulam neste bando, qual a sua capacidade de afetar e de ser afetado pelo mundo.

O devir-animal, nos ensinam, insistem Deleuze e Guattari, a pensar as multiplicidades. Por isso o distanciamento do animal solitário, o interesse encontra-se nas matilhas, nos bando, nas alcateias, nos enxames. Uma riqueza enorme do organismo múltiplo que se comporta como um na hora da caçada. Como os lobos sabem qual presa atacar? Como eles se entendem movendo-se pela floresta? Existe uma inteligência coletiva, uma comunicação sutil. Não se devém animal sem um fascínio pelo enxame, pela multidão. O mais interessante aqui é o modo de expansão, como um contágio, se espalhando, borbulhando. Todo devir-animal é um fascínio pela matilha, pela multiplicidade. Ao invés de perguntar: “o que é isso?”, é necessário perguntar-se “como essa aglomeração funciona?”.

Quando uma rede disseminada ataca, investe sobre o inimigo como um enxame: inúmeras forças independentes parecem atacar de todas as direções num ponto específico, voltando em seguida a desaparecer no ambiente” – Negri e Hardt, Multidão, p. 130

Sebastião Salgado

Não estamos sonhando, tudo isso é perfeitamente real. Sem metonímias, ou metáforas, o homem realmente devém animal, sem que cresçam pelos, nem caninos. Tal devir é possível quando, através desta zona de vizinhança, ele se modifica e suas partículas entram em outra relação de movimento e repouso. Todo devir é um portal que precisamos atravessar, um porto do qual partimos para um mar nunca antes navegado. Por isso é possível dizer que o devir é uma aliança. O devir-lobo do homem e o devir-homem do lobo, dupla captura. Alianças não filiativas, involuções criativas, enfim, criação de um bloco que segue por entre os dois termos.

O mutualismo dá uma boa ideia destas modificações, o que pode a célula primitiva ao associar-se à mitocôndrea? O que pode as bactérias ao se associarem ao suco digestivo do estômago? O que pode o pássaro ao associar-se ao dente do jacaré? São relações que modificam o modo de relacionar-se. Imitar o animal limitaria o devir, seria um ponto de parada que atrasaria todo o processo. É claro que pode-se imitar o animal, mas apenas para mais facilmente entrar nesta zona de convergência e encontrar seu próprio devir-animal. Traçar uma tangente, estar na periferia.

Não estamos falando de analogias: uso minhas mãos como os lobos usam suas patas (o estruturalismo não dá conta dos devires). Trata-se de uma desterritorialização, que só pode ser forçada, só pode ser violenta, vir de fora e arrastar a forma-homem. O xamã não imita o lobo, retira partículas dele para encontrar mundos invisíveis. O homem não imita o lobo, faz fronteira com ele para desterritorializar-se no lobisomem. É toda uma maneira de afetar e ser afetado que precisa se modificar

Trata-se de fazer corpo com o animal, um corpo sem órgãos definido por zonas de intensidade ou de vizinhança” – D&G, Mil Platôs 4, p. 69

E para que fique claro, não estamos falando de cachorrinhos nem de gatinhos, muito menos de direitos dos animais. O devir-animal não é vestir seu poodle com roupinha e sapatinho. Pelo contrário, estes animais são os mais neuróticos e precisam de um divã tanto quanto seus donos. “Meu devir é real, inclusive e sobretudo se vocês não podem julgá-lo, porque vocês são cachorrinhos domésticos” (Lawrence). O perigo do devir-animal é sempre imitar um animal doméstico, que, por aproximar-se do modelo de homem, perde seu devir. Dupla morte do devir: imitação e o familismo.

– Sebastião Salgado

Por toda parte onde há multiplicidade, você encontrará também um indivíduo excepcional, e é com ele que terá que fazer aliança para devir-animal” – D&G, Mil Platôs 4, p. 26

Ao encarar o bando, sempre encontraremos um animal anômalo. Ele é a ponta de desterritorialização da matilha, é o movimento que se destaca e se lança em outros devires, é o batedor que corre na frente. A anomalia é a forma pela qual a natureza cria. Podemos pensar em Moby Dick, de Melville; Josefina, de Kafka, Buck, de London. Um animal no limite do bando, na ponta da capacidade de afetar e ser afetado, que praticamente se descola, abrindo novas direções. É isso, quem foi o primeiro animal a sair da água? Qual foi o primeiro inseto a voar? Qual foi o primeiro morcelo a localizar-se pelo sonar? Qual foi a primeira baleia a cantar?

Não estamos falando do anormal, que submeteu-se a uma conotação moral. O anômalo é aquele que ainda não tem nome, que está se desterritorializando, o descodificado, o feiticeiro, o demônio. Encontramos o anômalo na beira das florestas, na periferia, no topo da montanha, no fundo do mar. Qualquer lugar onde o poder não chega. Nem indivíduo, nem espécie, o anômalo é o que escapa. Há sempre um corte na multiplicidade onde as forças ativas são anômalas, é com elas que se faz alianças e se entra em devir. São elas que puxam para novas direções. Encontramos assim as possibilidades que jamais encontraríamos se não entrássemos na zona de vizinhança de um animal qualquer: um rato, um macaco, um carrapato, um lobo. Encontrar a anomalia na multiplicidade é lidar com intensidades ainda não reconhecidas.

Mas pode dar sempre errado. Nenhum devir é garantido. Gregor Samsa, por exemplo, resiste quando devém barata. Sua família não consegue lidar com o fato, o chefe vai buscá-lo em casa. A única pessoa que parece compreender sua modificação é a sua irmã. Todo devir pode naufragar, é frágil, exige cuidado. Torna-se necessário uma fuga ativa, uma fuga intensa, para encontrar novos territórios. Fugindo, criam-se armas. A fuga aqui não é sinônimo de medo, é preciso fazer fugir, o tédio, a culpa, o medo, o marasmo são capturas.

Há toda uma política dos devires-animais, como que uma política da feitiçaria: esta política se elabora em agenciamentos que não são nem os de família, nem os da religião, nem os do Estado. Eles exprimiriam antes grupo minoritários, ou oprimidos, ou proibidos, ou revoltados, ou sempre na borda das instituições reconhecidas, mais secretos, ainda por serem extrínsecos, em suma anômicos” – D&G, Mil Platôs 4, p. 31

Nossa intenção? Encontrar uma lógica viral, que se propague pelo campo, que se amplie, se divida, contagie. O vírus é um Cavalo de Troia, ele entra na célula e sua suas próprias ferramentas contra ela. Desterritorialização e reterritorialização. Contágio e incorporação, este território agora nos pertence, nós marcamos seus cantos, mijamos nas paredes, roçamos nossos corpos nos portões de entrada. Esta terra é minha, esta escola é minha, esta praça é minha. A matilha dá ao seu território o seu cheiro.

Contagiar com novas maneiras de afetar e ser afetado, este é o devir animal. Uma compreensão das multiplicidades, dos vários componentes que fazem uma máquina funcionar. E, ao mudar determinadas peças, mudar a maneira como a máquina funciona. Não é difícil, exige paciência, cuidado, atenção. Mas toda multiplicidade se faz de elementos que compõem um grau de potência, uma maneira de ser afetado pelo mundo e de afetá-lo. O que pode uma colmeia? Pode esquentar, pode juntar mel, pode ferroar quem se aproximar. Quais são os componentes, como eles se relacionam? O que pode um conjunto de corais? O que pode um grupo de caçadores e coletores com pedras lascadas? Todo devir animal opera com multiplicidades no limite da desterritorialização.

Operar somente por contágios e matilhas que se juntam para buscar e constituir novos territórios. É difícil de identificá-los dentro de normas e regras porque eles estão sempre se desterritorializando quando os territórios se tornam inférteis. Todo devir-animal é uma nomadização do cachorrinho de madame. O vira-lata está mais próximo dos devires que o poodle no carrinho de bebê passeando pelo shopping. As multidões compõem devires, pontes, em seu movimento contínuo, e quantas vezes elas não se afastam dos partidos. A autonomia é a ordem do dia, a máquina partidária não sabe o que isso significa. O devir-animal é a possibilidade de uma devir revolucionário.

Nós que já falamos tanto da capacidade de compor territórios, podemos apostar em um devir-animal para fazer isso. Sempre criando alianças, sempre encontrando aliados. A alcateia é composta por vários lobos, eles se movem como um organismo vivo pela floresta, eles encontrar sinais na casca das árvores, rastros na neve. Mesmo quando o macho alfa não veja algo, o resto do bando vê, não é esta a questão. São vários olhos, várias orelhas, vários focinhos, todos funcionando em conjunto. É desta forma que eles se misturam com a floresta, se espalham, se estendem, criam um território onde vivem e se proliferam. A mesma coisa vale para cardumes, enxames, manadas.

A mesma coisa vale para um único indivíduo, porque não existem mais indivíduos, existem apenas bandos, manadas, revoadas, um imenso panápaná de composições. Todo indivíduo é múltiplo, uma singularidade, uma hecceidade, composto de partículas móveis que dão um certo grau de potência. Mesmo com todas as dificuldades, mesmo estando em um cubículo apertado de escritório, é possível devir-animal. As linhas de fuga são capazes de vazar pelas paredes claustrofóbicas e encontrar outros fluxos (vale lembrar as possibilidades rizomáticas da internet).

Tudo o que é vivo sempre vaza, sempre extrapola, cria conexões com o fora. A própria vida pode ter aprendido a atravessar planetas, o que é uma parede pra ela? Por isso a importância das alianças, a necessidade constante de se fazer aliados. O devir-animal cria rizomas, Zonas Autônomas Temporárias, invade, ocupa, destrói, constitui territórios. No devir-animal, a luta acontece nas bordas. Todo animal sabe comer pelas beiradas.

Devir animal é precisamente fazer o movimento, traçar a linha de fuga em toda a sua positividade, ultrapassar um limiar, atingir um continuum de intensidades que só valem por si mesmas, encontrar um mundo de intensidades puras, em que todas as formas de desfazem” – D&G, Kafka – por uma literatura menor, p. 27

 

Texto da série:

Ética dos Devires

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Filósofo, Psicólogo Clínico e Supervisor

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