“É sempre com mundos que fazemos amor” Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo
Nosso pensamento foi impregnado pela ideia de falta quando, em verdade, só estamos vivos graças à abundância. A vida é produto do excesso: por que então pensar o amor como carência? Se sentimos um buraco no peito, então nos cabe perguntar se ele sempre esteve lá ou se é produto de alguma forma social decadente. Por que o amor é pensado como o desejo daquilo que não temos? O amor-carência como busca por completude é o primeiro problema que precisamos enfrentar.
Quando pensamos que o amor se apresenta como a falta de alguém, somos levados a buscar no outro um preenchimento, que, convenhamos, é impossível, e não deveríamos nos entristecer com essa constatação. Ninguém pode ser totalmente responsável por nossa alegria. A alegria eterna não existe, a tristeza faz parte de qualquer relação. Assim, o mito do par perfeito só serve para maldizer o amor que existe.
De um problema ruim surge uma solução pior: se somos faltosos por excelência, esperamos que o outro nos complete. Assim, nossos relacionamentos amorosos tornam-se pretensões totalitárias na medida em que esperamos do outro a objetiva realização de nossa própria subjetividade. Estamos buscando a tampa de nossa panela, mas isso provavelmente só servirá para cozinhar algo em alta pressão.
De uma péssima solução surge um modo de vida bastante limitado: se o outro nos completa, então não é possível amar mais ninguém. Se acontecer de amarmos mais alguém, isto é visto como falta de amor ao primeiro, que provavelmente não era o definitivo, o melhor, o que se esperava. Vejam como um problema mal colocado nos coloca em um caminho ruim. Não é difícil perceber quanto o amor exclusivo é uma demanda difícil de atender. Um caminho trilhado recorrentemente pela monogamia sequencial: falta, pretensa satisfação total, clara insatisfação conjugal, separação, volta ao começo.
Precisamos recolocar o problema, pensando o amor a partir da abundância. O amor é o que surge de um mundo mais vasto desabrochando à nossa frente. E isso acontece com mais frequência do que se imagina, ainda que em diferentes intensidades. Fazer do amor uma experiência mais cotidiana não significa diminuí-lo, significa desplatonizá-lo. Amamos um gesto, uma ideia, uma poesia, uma paisagem e, claro, uma pessoa – mas que erro ter dito “uma”!
O amor é abundante, não é um espaço a ser preenchido onde a partir de determinado encontro se diz “cheio”, como um banheiro ocupado. Temos o hábito infeliz de pensar tudo em termos espaciais. Entre os corpos, os encontros se dão numa dimensão intensiva onde nunca há capacidade máxima, há apenas variação, e nós próprios somos essa variação. Apesar do que nos fazem crer, estamos sempre abertos ao amor, querendo ou não, mais cedo ou mais tarde, somos inevitavelmente convocados a uma variação intensiva da qual não somos capazes de nos esquivar.
Costumamos definir o amor-paixão nesses termos e é sempre bom lembrar que as paixões podem ser alegres ou tristes. A intensidade, no entanto, pode ser imensa, muitas vezes não é algo que possa ser ignorado facilmente. Nos encontramos apaixonados e nos perguntamos: o que foi que aconteceu? O encontro com os outros se dá sempre em um campo imprevisível e, às vezes, mesmo querendo nos esquivar, somos tomados por completo. As relações são produtos de inúmeras trocas espontâneas em um mundo imenso e vivo.
Cada pessoa é profundamente singular. Assim, não há por que eleger uma a despeito de outra quando se ama ambas. Cada relação é única. Em nossos relacionamentos, não precisamos nos ofender se outra pessoa aparecer, pois aquilo que ela é naquele momento, isto é, outra, nós não podemos ser. Não há como comparar relações, pois elas se dão em um campo próprio, em seu momento, em seu canto, à sua maneira. Nós criamos e somos criados pelo amor a partir da abundância de corpos que nos cerca.
Ainda nos surpreendemos quando amamos mais de um? Essa deveria ser uma condição para amar, pois o mesmo ser pode ser, ele mesmo, outro, daqui a pouco. Vejam, não se trata de fazer um elogio tolo à poligamia. Já dissemos, é uma possibilidade, mas apenas uma delas. No entanto, para que nossos amores sejam mais leves, precisamos aprender a nos relacionar a partir da diversidade que há em nós e nos outros.
Perdoem-nos se esses princípios parecem descomprometidos com a realidade. Sabemos o quanto pode ser difícil lidar com a mudança. O devir é desafiador, mas ele não deixará de sê-lo por torcermos contra ele. Implicar-se no processo que faz com que tudo se modifique é a nossa maneira mais franca de lidar com a vida. Nossa luta não deve ser contra a mudança, mas pela contemplação de nossos desejos nela.
Nossa primeira captura foi o amor como falta e a idealização do casal perfeito. Mas, em tempos tão acelerados, há ainda outros problemas. É evidente que nossas relações amorosas foram arrastadas pelo capital. A questão é que o capital produz uma falsa abundância. Nas prateleiras estão infinitas unidades das mesmas coisas, diversas marcas de um mesmo conteúdo, apenas em embalagens diferentes. Escapar do amor-carência para cair no amor-consumo não parece muito interessante, aliás, eles são muito semelhantes.
Por isso a proposição de uma anarquia relacional essencialmente anticapitalista é importante. Sem ela, pensaremos que estamos nos relacionando a partir da abundância, mas na realidade estaremos apenas tratando pessoas como produtos, dispensando-as à esquerda de nossas telas. Se não questionarmos o capital, jamais encontraremos no amor um valor não monetário. Costumamos pensar que os relacionamentos monetários são apenas aqueles que envolvem moeda, mas na verdade o capital não se resume a isso, ele é o valor em torno do qual tudo gira, inclusive nossas relações.
A forma de troca simétrica dominou toda a nossa expectativa relacional. A realidade é que uma relação amorosa é tudo menos uma transação, uma troca entre iguais. Uma transa é a produção de um corpo misto, transversal, em intersecção com outros. Trocamos porque somos distintos, entregamo-nos em nossas particularidades, multiplicamo-nos em nossas diferenças. Unir-se por amor é difundir-se, é tornar-se menos individual, é perder-se um pouco de si mesmo, para encontrar-se um pouco no outro.
Para escapar do capital, precisamos insistir no amor como produção de uma intensidade real, que vá além da lógica do consumo. O amor não é um serviço, uma pessoa não é um produto, uma relação intensa não se traduz em números, quantidades e comparações. Abundância não significa múltiplas unidades todas iguais, mas múltiplas singularidades. Uma relação amorosa é a ocasião única, onde vivemos uma alegria irreprodutível, irreplicável, incomunicável.
Queremos o amor como vivência da multiplicidade e, para isso, precisamos questionar as noções de carência, completude e consumo. Partimos de um princípio de abundância para descaracterizar o amor como um recurso limitado. Somos tão capazes de amar múltiplas pessoas ao mesmo tempo, quanto somos capazes de amar de múltiplas maneiras uma mesma pessoa.




