Tudo está sobre este corpo incriado, como piolhos na juba do leão” – Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 30
O Corpo sem Órgãos (ou apenas CsO) é um conceito desenvolvido por Deleuze e Guattari, utilizado em Anti-Édipo e Mil-Platôs. É com certeza um dos conceitos mais importantes e mais difíceis dos autores. Isso porque ele está ligado tanto à questão ontológica (no Anti-Édipo), quando à questão ética (no Mil Platôs). Neste texto falaremos da questão ontológica, o corpo pleno sem órgãos mais no sentido de substância. Claro, se queremos criar novos conceitos, precisaremos primeiramente fundamentar o solo no qual eles crescerão.
Para começar, o que é um corpo? Ele é o espaço onde o desejo se move. Todo corpo é uma superfície para intensidades circularem. Não estamos falando de uma individualidade, mas de um fundamento pré-individual para que qualquer individualidade venha a surgir. Ou seja, antes dos órgãos e das organizações, é preciso pensar nas intensidades de um plano.
Em segundo lugar, o que é um órgão? Ora, podemos dizer que o órgão é uma parte ou uma estrutura de um organismo vivo. O organismo se compõem de órgãos, tecidos, sistemas. Então o órgão é sempre um instrumento para além dele mesmo, uma parte de um todo, uma ferramenta. Ou seja, todo órgão é dotado de uma teleologia, de um sentido, que se desenvolve porque desempenha uma função de sobrevivência. O órgão sonar é usado para encontrar a presa, o órgão dente e veneno é usado para matar a presa, o órgão estômago é usado para digerir e assim por diante.
Então por que falar antes de mais nada de um Corpo Sem Órgãos? Com isso, Deleuze e Guattari querem fugir de toda e qualquer teleologia. Queremos um corpo pleno, que não esteja de modo algum relacionado com uma direção ou função determinada. O Corpo sem Órgãos é um corpo sem objetivo, sem imagem, sem destino. O universo não segue em uma direção, o sistema solar não tem uma meta, o planeta terra não tem um rumo certo, a humanidade tem um destino, uma sina, e nós não devemos seguir uma direção final também.
Tudo está aí, um corpo pleno onde os órgãos não formam um organismo. As coisas se conectam e se cortam, apenas isso… Desta maneira, deixamos para trás todo o dever e caímos de cabeça no ser. A imanência importa mais que a transcendência. Queremos entender o que é o desejo e não como ele deveria ser.
O corpo sem órgãos é plano de expressão do desejo. O plano de imanência é o que sustenta toda a produção de conceitos de uma filosofia, é sobre ele que se assentam os personagens conceituais. Por isso defendemos que ele é o plano de imanência do Anti-Édipo! Tudo está aqui! Por isso este conceito é essencial. O problema então está nas circulações de desejo, os espaços que o desejo percorre em seu movimento nômade. Onde ele para? Onde ele acelera? Onde ele realiza encontros? As máquinas se ajeitam, se acomodam de uma determinada maneira onde o desejo flui ou empaca.
O Corpo sem Órgãos é o próprio desejo: ele é o fundamento sem fundo, o afundamento de qualquer fundamento. Ele derruba qualquer ponto final, qualquer predeterminação. Embaixo dos órgãos só há intensidades de um corpo sem órgãos, o afundamento que funda. Por isso ele é visto como o não engendrado e como aquele que desfaz as organizações. É o próprio devir devindo. Ele se apropria da produção desejantes ou a desfaz, desarranja. Podemos chamá-lo de o antiprodutivo naquilo que se toma como produção. Ou de produtivo naquilo que se faz sem um destino final.
Ou seja, enquanto a produção acontece no campo maquínico, no agrupamento das máquinas, o CsO desarranja as máquinas, as faz pararem de funcionar. A máquina de vez em quando emperra, e faz sair outra coisa. Esta linha de desejo que tangencia novas direções. Mas também pode haver uma confluência do desejo onde essas novas configurações são produtivas de novas intensidades.
O Corpo sem Órgãos é o limite imanente interno do desejo. Não há como ir além! Além disso é o caos completo, acelerações destrutivas demais para habitarmos. Ele se confunde com a morte para aqueles que estão apaixonados por seu pequeno organismo. Mas ela também pode ser vista como desejo vital e construtivo para aqueles que querem criar. É tudo uma questão de ponto de vista. A fluidez do CsO provoca o desacoplamento das máquinas… ele desarranja, produz morte. O CsO impede que as máquinas desejantes se fechem em um arranjo local. Ela faz funcionar desarranjando. Não é o caos, é o corte no caos, univocidade onde todas as multiplicidades se implicam.
CsO é o corpo pleno que permanece aberto às intensidades, é nele que devemos habitar para criar para nós mesmos um corpo sem órgãos. É sobre sua superfície móvel que encontramos a diferença, pululando, se fazendo, aparecendo, se diferenciando em si mesma. Ele é o espaço para o indeterminado. É a linha que desvia de sua produção mecânica e previsível.
O Corpo sem Órgãos é um conceito importantíssimo, ele está aí para nos lembrar que toda e qualquer tentativa de transcendência ainda está assentada no caos! O fundo das coisas é o afundamento no caos. Devemos ter medo? Não…. mas devemos ter prudência. É sobre ele que tudo começa e termina.



