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Tudo está sobre este corpo incriado, como piolhos na juba do leão”

– Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 30

Francis Bacon

O Corpo sem Órgãos (ou apenas CsO) é um conceito desenvolvido por Deleuze e Guattari, utilizado em Anti-Édipo e Mil-Platôs. É com certeza um dos conceitos mais importantes e mais difíceis dos autores. Isso porque ele está ligado tanto à questão ontológica (no Anti-Édipo), quando à questão ética (no Mil Platôs). Neste texto falaremos da questão ontológica, o corpo pleno sem órgãos mais no sentido de substância. Claro, se queremos criar novos conceitos, precisaremos primeiramente fundamentar o solo no qual eles crescerão.

Para começar, o que é um corpo? Ele é o espaço onde o desejo se move. Todo corpo é uma superfície para intensidades circularem. Não estamos falando de uma individualidade, mas de um fundamento pré-individual para que qualquer individualidade venha a surgir. Ou seja, antes dos órgãos e das organizações, é preciso pensar nas intensidades de um plano.

Em segundo lugar, o que é um órgão? Ora, podemos dizer que o órgão é uma parte ou uma estrutura de um organismo vivo. O organismo se compõem de órgãos, tecidos, sistemas. Então o órgão é sempre um instrumento para além dele mesmo, uma parte de um todo, uma ferramenta. Ou seja, todo órgão é dotado de uma teleologia, de um sentido, que se desenvolve porque desempenha uma função de sobrevivência. O órgão sonar é usado para encontrar a presa, o órgão dente e veneno é usado para matar a presa, o órgão estômago é usado para digerir e assim por diante.

Então por que falar antes de mais nada de um Corpo Sem Órgãos? Com isso, Deleuze e Guattari querem fugir de toda e qualquer teleologia. Queremos um corpo pleno, que não esteja de modo algum relacionado com uma direção ou função determinada. O Corpo sem Órgãos é um corpo sem objetivo, sem imagem, sem destino. O universo não segue em uma direção, o sistema solar não tem uma meta, o planeta terra não tem um rumo certo, a humanidade tem um destino, uma sina, e nós não devemos seguir uma direção final também.

Tudo está aí, um corpo pleno onde os órgãos não formam um organismo. As coisas se conectam e se cortam, apenas isso… Desta maneira, deixamos para trás todo o dever e caímos de cabeça no ser. A imanência importa mais que a transcendência. Queremos entender o que é o desejo e não como ele deveria ser.

O corpo sem órgãos é plano de expressão do desejo. O plano de imanência é o que sustenta toda a produção de conceitos de uma filosofia, é sobre ele que se assentam os personagens conceituais. Por isso defendemos que ele é o plano de imanência do Anti-Édipo! Tudo está aqui! Por isso este conceito é essencial. O problema então está nas circulações de desejo, os espaços que o desejo percorre em seu movimento nômade. Onde ele pára? Onde ele acelera? Onde ele realiza encontros? As máquinas se ajeitam, se acomodam de uma determinada maneira onde o desejo flui ou empaca.

O Corpo sem Órgãos é o próprio desejo: ele é o fundamento sem fundo, o afundamento de qualquer fundamento. Ele derruba qualquer ponto final, qualquer predeterminação. Embaixo dos órgãos só há intensidades de um corpo sem órgãos, o afundamento que funda. Por isso ele é visto como o não engendrado e como aquele que desfaz as organizações. É o próprio devir devindo. Ele se apropria da produção desejantes ou a desfaz, desarranja. Podemos chamá-lo de o antiprodutivo naquilo que se toma como produção. Ou de produtivo naquilo que se faz sem um destino final.

Ou seja, enquanto a produção acontece no campo maquínico, no agrupamento das máquinas, o CsO desarranja as máquinas, as faz pararem de funcionar. A máquina de vez em quando emperra, e faz sair outra coisa. Esta linha de desejo que tangencia novas direções. Mas também pode haver uma confluência do desejo onde essas novas configurações são produtivas de novas intensidades.

O Corpo sem Órgãos é o limite imanente interno do desejo. Não há como ir além! Além disso é o caos completo, acelerações destrutivas demais para habitarmos. Ele se confunde com a morte para aqueles que estão apaixonados por seu pequeno organismo. Mas ela também pode ser vista como desejo vital e constritivo para aqueles que querem criar. É tudo uma questão de ponto de vista. A fluidez do CsO provoca o desacoplamento das máquinas… ele desarranja, produz morte. O CsO impede que as máquinas desejantes se fechem em um arranjo local. Ela faz funcionar desarranjando. Não é o caos, é o corte no caos, univocidade onde todas as multiplicidades se implicam.

CsO é o corpo pleno que permanece aberto às intensidades, é nele que devemos habitar para criar para nós mesmos um corpo sem órgãos. É sobre sua superfície móvel que encontramos a diferença, pululando, se fazendo, aparecendo, se diferenciando em si mesma. Ele é o espaço para o indeterminado. É a linha que desvia de sua produção mecânica e previsível.

O Corpo sem Órgãos é um conceito importantíssimo, ele está aí para nos lembrar que toda e qualquer tentativa de transcendência ainda está assentada no caos! O fundo das coisas é o afundamento no caos. Devemos ter medo? Não…. mas devemos ter prudência. É sobre ele que tudo começa e termina.

Texto da Série:

Esquizoanálise

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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jose augusto lagoeiro
jose augusto lagoeiro
8 anos atrás

estou estudando para dar prosseguimento ao meu trabalho em arte contemporanea .Estudando nômadamente pela internet ,e com a falta de costume de quem não é acadêmico percorro e persigo teses , sendo
muito massa (molecular?) perceber o quanto alguns textos curtos e
sintéticos ajudam acelerando o percurso ao ligar teoria e vida diária esclarecendo clara e rapidamente por ex: O que pode um corpo

Marlene Braz
Marlene Braz
Reply to  Rafael Trindade
4 anos atrás

Rafael. Texto muito bom. Claro, preciso. Dou como referencia a meus alunos.

Cris Reys
Cris Reys
8 anos atrás

sensacional, com o sempre!

Rafael Lauro
Reply to  Rafael Trindade
7 anos atrás

Milene, Talvez sexo, drogas e rock ‘n’ roll não tenha sido o exemplo mais feliz, concordo. Mas por que eles não haveriam de ser escolhas de um corpo intensivo? Acho que, na interpretação do autor, ele tomou este exemplo como uma escolha de um sujeito que experimenta legitimamente o seu corpo e não como aquele que se deixa manipular pelos dispositivos da indústria cultural, como você disse. Como eu disse, entendo e concordo com sua crítica: imagino exemplos melhores. Por outro lado, me preocupo com qualquer tipo de preconceito com as escolhas, algo que sem dúvida leva a um prejuízo… Ler mais >

Rafael Lauro
Reply to  Rafael Lauro
7 anos atrás

Com todo o respeito, discordo em partes mais uma vez, Milene. Sobre o assunto do desejo não ser falta, há ótimos textos aqui mesmo neste blog. Dê uma olhada na parte de Deleuze .. vide “Não há padre que não seja Onanista”, “Deleuze e o Desejo” entre outros .. Lembro-me imediatamente da frase do Luiz Fuganti (um intérprete de Deleuze que gosto bastante): “A prudência é um instrumento da ousadia”. Frase que muito bem poderia ser substituída por alguma muito próxima do próprio Deleuze… O problema não é o encontro com essas substâncias que você chamou de viciantes, mas sim… Ler mais >

Rafael Lauro
Reply to  Rafael Lauro
7 anos atrás

Desculpe por responder? Não entendi. Eu esperava pela resposta, haha. Não há incômodo, não …

Já li e assisti boas partes do abecedário, inclusive esta. Não acho que eles esteja falando “Olhem, crianças, amor live e drogas são ruins, viu?”. Pelo contrário, ele põe uma condicional no fim: “Se algo dá errado”. É um grande clamor pela prudência.

Rafael Lauro
Reply to  Rafael Lauro
7 anos atrás

Claro que não faz sentido a busca irrestrita por um prazer absoluto. Recomento, também deste blog e, neste caso, textos meus sobre o hedonismo e a apropriação que nós temos de prazer. Com relação aos trapos, são problemas de dosagem. Aliás, a prudência é arte das doses e overdose nada mais é do que aquela que não te dá a possibilidade de retorno. Bom, não vejo muita diferença entre o que eu estou chamando de experimentação e a o que você chamou de “entender na própria pele”. Enfim, acho que deixar-se invadir pela arte é também uma maneira de experimentar… Ler mais >

lenin
lenin
Reply to  Rafael Lauro
4 anos atrás

Curiosidade sobre o conceito de desejo: O capítulo d’O capital apresenta exatamente o conceito de desejo que Deleuze usou. E qual ele critica o consumo no capítulo 24 acho. Mas confesso que as constantes referencias marxianas e a falta de leitura das obras marxistas tornam as ideias de Deleuze bem individualista, contrário ao sentido que se pretende

ciclotron
Reply to  Rafael Lauro
6 anos atrás

Milene você ia bem na crítica deste texto até aqui, mas….. O “vício” é uma “satisfação” e está atrelado ao “desejo” por isso a “prudência” na hora de criar para si um CsO. Entendam que o CsO é uma tomada de consciência dos “órgãos do corpo” com a “mente universal” onde “espiritualidade” e “matéria” se encontram abrindo um campo de “imanência” que remete a experiência do infinito cósmico, portanto o CsO é “transcendental” e se “busca” por isso: “Encontre seu corpo sem órgãos, saiba fazê-lo, é uma questão de vida ou de morte, de juventude e de velhice, de tristeza… Ler mais >

Eduardo Graf
Reply to  Rafael Trindade
6 anos atrás

Bacana Rafael, realmente simplificar uma obra tão complexa, no entanto tão simples é complicado. Mas achei otimo a iniciativa, as pessoas tem muita dificuldade em entrar em Deleuze e seus textos ajudam sim a pelo menos ter um ponto de entrada, algo para começar a produzir um incosnciente apto a lidar com esse universo. Ja a Srta que faz a critica, deveria de saber que Deleuze vai se revirar sim, mas quando souber que tem “intelectuais” tentando interpretar seu trabalho. Heheheh abraços e parabens!

Gábi
Gábi
6 anos atrás

Riquíssima discussão.

Klasen Tânia
6 anos atrás

Republicou isso em Tentativa doise comentado:
Texto maravilhoso, didático e de fácil entendimento. Procure, então, o seu CsO.

O Liquidificador Argonauta
6 anos atrás

Bela discussão, apenas queria apontar dois pontos – na entrevista que a Milena Tafra retirou uma parte e ele está falando sobre os loucos e seus agenciamentos está frase é explícita: ” Era… a filosofia dita do desejo consistia, unicamente, em dizer para as pessoas: não vão ser psicanalizados, nunca interpretem, experimentem agenciamentos, procurem agenciamentos que lhes convenham.” Repetindo, procurar agenciamentos que lhes convenham, o que isso significa? Ora, não existem agenciamento superiores, existem agenciamentos apenas, o problema está quando este agenciamento é pré-fabricado, quando este agenciamento lhe é imposto e mais ainda, quando ele lhe é imposto como a… Ler mais >

O Liquidificador Argonauta
6 anos atrás

Desculpe o erro do e e por não compreender “o artista e o seu trabalho”. Concordo plenamente que a experiência artística pode nos fazer viver o Cso, o que eu disse foi apenas que é ilógico ele se orgulhar de sua arte como se fosse um trabalho, utilizar-se desta palavra para valorizá-la, ou melhor, precisar enquadrar sua arte neste termos para que ela possa ter (supostamente) um valor social. A imersão do artista não é em sua obra, a imersão do artista é na vida e se reflete em sua obra ou flui por sua obra. A questão do trabalho… Ler mais >

Kleber
Kleber
6 anos atrás

Prezada Milene, gostei muito de suas sublimações, espero um dia atender pacientes com um nível de sublimação tão alto assim como o seu, recanalizando uma energia sexual assim tão esplendida e livre de barreiras e preconceitos para o campo da intelectualidade, para algo aceito socialmente, mas que no inconsciente clamam para serem descarregadas de outra maneira.

Cleomar Viera
Cleomar Viera
6 anos atrás

Quero só saber o nome do livro que tu pegou como base.
por favor. Obrigado
rs 🙂

Cristina
Cristina
6 anos atrás

Sou professora universitária, não sou da filosofia e nem tão pouco da psicologia, sou da administração, e li o texto e todos os comentários como uma aluna que assiste a um belo debate. E como leiga percebi no discursos de alguns muito ego, e portanto achei que as interpretações iam muito bem até o ponto que se encaminham para justificar suas posturas pessoais. Posso estar falando uma grande besteira mas acredito que o texto que mais reavaliou as posturas foi o do Ciclotron, percebi uma busca pelo encontro do que chamo sujeito, o intuitivo, a representação desmascarada do capitalismo, a… Ler mais >