Órgão: ór.gão. sm (gr órganon) 1. Parte ou estrutura de um organismo ou corpo vivo, adaptada a uma determinada função. 2. Mec. Cada uma das partes de um mecanismo que exerce uma função especial” – Dicionário Michaelis

O Corpo sem Órgãos (ou apenas CsO) é um conceito desenvolvido por Deleuze e Guattari, utilizado em Anti-Édipo e Mil-Platôs. Este conceito, retirado de Artaud, funciona muito mais como uma prática, ou conjunto de práticas, em vez de uma noção bem definida. Faz parte de um estilo de vida nômade. Não compreendemos o Corpo sem Órgãos, o vivemos.

Vimos a definição do dicionário, o corpo organizado funciona como uma máquina que trabalha para a produção. Quando nosso corpo se torna um organismo, lhe dão uma utilidade, ele se insere em nossa sociedade para realizar determinados fins. Nosso desejo é esmagado, organizado externamente, nossos órgãos são capturados, amarrados dentro de uma lógica capitalista, ordenados. O órgão é sempre instrumento de algo para além dele mesmo, neste caso, o social. E assim nos tornamos presos, fracos, infelizes.

O organismo não é corpo, o CsO, mas um estrato sobre o CsO, quer dizer, um fenômeno de acumulação, de coagulação, de sedimentação que lhe impõe formas, funções, ligações, organizações dominantes e hierarquizadas, transcendências organizadas para extrair trabalho útil” (Deleuze, Mil Platôs, Vol. 3)

É assim que nossos órgãos se tornam nossos inimigos. Foi por isso que Artaud declarou guerra aos próprios órgãos. A vida torna-se fraca, o desejo é canalizado, tudo trabalha pela produção, pela finalidade. Já vimos como o desejo para Deleuze não é falta, é produção (veja aqui), mas o corpo, afastado daquilo que pode, perde sua capacidade revolucionária e se torna doente, perde sua capacidade de criar o real para aceitar a vida medíocre que lhe dão. A alternativa de Deleuze está em criar para si um Corpo sem Órgãos.

O CsO não é inimigo dos órgãos, mas inimigo do organismo. Ou seja, não é inimigo dos instrumentos, mas inimigo da instrumentalização. Pura busca de intensidades, o CsO procura desfazer-se da organização produtiva em que foi inserido para tornar-se produção de realidades diferentes das que lhe deram. Ele odeia o adestramento. O corpo antes estava doente, sua vida estava desintensificada, anestesiada, sua rotina não lhe proporcionava nada de novo. Com a criação de um Corpo sem Órgãos, o corpo se torna improdutivo para se tornar intensivo. Largamos a moral e entramos na ética. As coisas passam novamente a fluir, a afetar; o corpo acorda e percebe que está vivo, não é um instrumento, mas um conjunto de sensações.

Os órgãos estão separando o corpo do que ele pode, porque estão capturados, a potência se perde no organismo investido pelo social. Desta forma, o meu desejo, através do meu corpo, investe em fins, o significado fica no lugar da sensação. É necessário não deixar a forma, o organismo serem dominantes em mim: modificar órgãos, fazer deles matérias para novas esculturas do desejo, rearranjos intensivos. Este é o resultado do CsO, efetuação da potência, assim como do pensamento. Na medida em que a potência se efetua, não há como a própria potência não ser afetada. A intensidade destrói sua própria casa, a do homem é o próprio corpo submetido ao organismo.

Sendo assim, o CsO não está preocupado com horários, dinheiro, mercadorias, rótulos, prazos: sua busca é por outras formas de viver e se expressar, em suma, outras formas de sentir a vida. Aumentar o prazer de viver, de sentir, de experimentar, produzir, afetar e ser afetado.

Exemplo: a mão, usada para apertar o parafuso com a chave de fenda, mover a alavanca na fábrica, escrever o relatório no escritório. Quando esta mão perde a finalidade que lhe deram, se torna CsO. Então aprende a dedilhar um violão, pintar um quadro, acariciar uma pessoa. A boca que era usada para dar ordens, organizar, repreender, dar sentido; passa a cantar, beijar, provar. Os pés que levam ao trabalho podem ser usados para dançar.

Eu crio um corpo que não perde o devir, um corpo em acontecimento, que é condição de si próprio. Os órgãos se tornam meios de mim mesmo. Abrir as portas do corpo para a vida potente e fechar para as armadilhas” – Luiz Fuganti.

O CsO nasce da capacidade de se abrir para novas sensações, novas disposições. Organizações que não nos deram previamente. Cabe a pergunta, o que me convém? Sexo, drogas, rock’n’roll? Talvez. Viajar, experimentar comidas exóticas, meditar? Pode ser também. Pintar, escrever, praticar um instrumento musical? Claro! Nadar, correr, escalar? Sim! Todas as possibilidades são consideradas, tudo que foge à vida anestesiada, tudo que desfaz o entorpecimento da rotina, tudo que produza intensidade, tudo que gere novos agenciamentos, organizações, aumento da potência.

Eu desorganizo meu corpo para torná-lo instrumento de intensidade. Deleuze faz apenas uma recomendação: prudência, cuidado, medida. “A prudência é um instrumento da ousadia” (Luiz Fuganti). Uma experimentação contínua que quer criar a si mesma. Uma vida que quer cada vez mais expandir-se e criar novas realidades. Uma potência em ato que é causa de seu crescimento. O Corpo sem Órgãos é sempre revolucionário porque deseja tomar o que é dele: a potência de existir.

Seria preciso dizer: vamos mais longe, não encontramos ainda nosso CsO, não desfizemos ainda suficientemente nosso eu. Substituir a anamnese pelo esquecimento, a interpretação pela experimentação. Encontre seu corpo sem órgãos, saiba fazê-lo, é uma questão de vida ou de morte, de juventude e de velhice, de tristeza e de alegria. É aí que tudo se decide” (Deleuze, Mil Platôs, Vol 3)

Seja esta, de agora em diante, nossa maneira de se relacionar com o corpo.

Construção mole com feijões cozidos, Salvador Dali 1936
Construção mole com feijões cozidos, Salvador Dali 1936

> Este texto faz parte da série: Esquizoanálise <

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

51 comentários

  1. estou estudando para dar prosseguimento ao meu trabalho em arte contemporanea .Estudando nômadamente pela internet ,e com a falta de costume de quem não é acadêmico percorro e persigo teses , sendo
    muito massa (molecular?) perceber o quanto alguns textos curtos e
    sintéticos ajudam acelerando o percurso ao ligar teoria e vida diária esclarecendo clara e rapidamente por ex: O que pode um corpo

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    1. muito obrigado… este blog também tem esta função… trazer conceitos de base para quem tem a intenção de ler algo mais sobre determinado filósofo. Simplificar o Cso é quase uma blasfêmia, mas nós fazemos o melhor possível para manter o sentido mais original possível.

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  2. Achei super infantil a interpretação. O corpo sem órgãos, pra começar, não foi um conceito desenvolvido por Deleuze, mas por Artaud, que vivia sendo internado como esquizofrênico e experimentou muito sofrimento psíquico e físico na vida. Devias ler mais sobre ele para entender melhor a sua teoria do teatro da crueldade. O corpo sem órgãos não sente fome. Degustar novidades? No teu texto tem algo sobre cuidar para não cair em armadilhas. Pois então fuja delas, das armadilhas do consumo, consumo, consumo… drogas, sexo e rockn’roll. Nada a ver com o corpo sem órgãos. A realização de uma potência é alegria e nunca está vinculada ao consumo, seja de alimentos, seja de lugares, seja de músicas, seja de pessoas.

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    1. Milene, muito pertinente as suas críticas, o conceito foi desenvolvido por Deleuze e Guattari, mas criado por Artaud. Realmente fica ambígua a afirmação, vou mudá-la.

      Com relação ao teatro da crueldade, admito que ainda não o li, está na minha lista de leituras.

      Já a acusação de infantilidade, a tomo como elogio, mas entendo a crítica e pretendo revisar o texto levando em conta suas observações.

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      1. Que bom Rafael que podes pensar sobre o assunto. Na verdade, há inúmeras interpretações aos escritos do Deleuze. Algumas estão sendo uma bela desculpa para a sociedade manter-se na teia da indústria cultural (cultura de massa) e libertinagem física e psíquica – alienação (o que deve fazê-lo revirar-se no túmulo). Na história, algumas interpretações manipuladoras geraram justificativas para o situacionismo, ou pior, para atrocidades. Se o CsO e a realização de uma potência tivesse relação com sexo, drogas e rockn’roll, ou algo que o valha, haveria justificativa mesmo para o exercício de impulsos perturbadas, como as de um pedófilo. Acho que uma boa maneira de iniciar uma idéia sobre o CsO é saber o que ele não é, dentro do que conhecemos como corpo, no cotidiano.
        O Nazismo justificou-se em teorias sobre o Estado, moral e Direito, interpretadas de forma superficial, parcial, fragmentada (como na teoria pura do direito de Hans Kelsen), as quais, hoje, após terem sido dissecadas de forma mais profunda, denotam a estupidez de seu uso manipulador. Portanto, como, querendo ou não, és um formador de opiniões, é essencial que atentes ao que estás escrevendo, bem como ao que os escritos podem dar margem, no âmbito das ilações.

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        1. Milene,

          Talvez sexo, drogas e rock ‘n’ roll não tenha sido o exemplo mais feliz, concordo. Mas por que eles não haveriam de ser escolhas de um corpo intensivo?

          Acho que, na interpretação do autor, ele tomou este exemplo como uma escolha de um sujeito que experimenta legitimamente o seu corpo e não como aquele que se deixa manipular pelos dispositivos da indústria cultural, como você disse.

          Como eu disse, entendo e concordo com sua crítica: imagino exemplos melhores. Por outro lado, me preocupo com qualquer tipo de preconceito com as escolhas, algo que sem dúvida leva a um prejuízo nas possibilidades.

          Fiquei curioso também pelo que você disse no primeiro comentário: “O corpo sem órgãos nunca está vinculado ao consumo”. Se subtrairmos do termo “consumo” o seu caráter exclusivamente capitalista, eu acho que sua tese perde a força. Aliás, a meu ver o autor não trabalhou com a noção de consumo, mas com a noção de encontros, experiências, experimentações, agenciamentos, arranjos.

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          1. Em primeiro lugar, onde escrevi, no último post, “situacionismo”, leia “conservadorismo”, pq viajei. Em segundo lugar, a meu ver, Deleuze fala de desejo como exato antônimo da falta, e do conceito de desejo católico, platônico, etc. Então, todas as coisas que não satisfazem, que podem ser consideradas viciantes, não podem ser atreladas ao desejo, este, segundo Deleuze. Também, na mesma esteira de raciocínio, a experimentação do CsO não é uma busca. A felicidade não é uma busca. Isso segundo o que entendo do Deleuze. Então, como posso entender que a experimentação de coisas consumíveis, algumas até viciantes, e materiais, que afetam os órgãos e suas funções, possa ser considerada a experimentação do CsO? Não consigo ver dessa forma, por mais esforço que eu faça. Também não vejo que poderia ser um preconceito, mas sim, um aprofundamento do significado do CsO, que não corresponde ao transcendental, tampouco ao corpo funcional, estando no plano de imanência. É difícil, mas é experimentável. Acho mais compreensível com o lado direito do cérebro até.

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            1. Com todo o respeito, discordo em partes mais uma vez, Milene.

              Sobre o assunto do desejo não ser falta, há ótimos textos aqui mesmo neste blog. Dê uma olhada na parte de Deleuze .. vide “Não há padre que não seja Onanista”, “Deleuze e o Desejo” entre outros ..

              Lembro-me imediatamente da frase do Luiz Fuganti (um intérprete de Deleuze que gosto bastante): “A prudência é um instrumento da ousadia”. Frase que muito bem poderia ser substituída por alguma muito próxima do próprio Deleuze…

              O problema não é o encontro com essas substâncias que você chamou de viciantes, mas sim os determinados efeitos em determinados corpos. Não podemos generalizar jamais os efeitos para todos os corpos. Aliás, generalizar é esquecer das boas e más relações que um corpo pode ter com qualquer substância …

              Em certo sentido, entendo o CsO como busca, sim. Não porque precisamos nos preencher de desejo, não. Não estamos vazios! Precisamos é intensificá-los: eis a busca. Buscar um corpo potente. E como buscar senão nas coisas materiais e consumíveis? Você mesma indicou, um corpo do plano da imanência, não da transcendência. Um corpo que se consume, que é o contrário da vontade de preservação, que se quer experimentar, potencializar.

              Abraço e obrigado pela conversa.

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              1. Olha, desculpe por responder, mas abaixo, trago um trecho da entrevista com o próprio Deleuze, conhecida como seu abecedário, na qual ele se expressa exatamente a respeito do entendimento de desejo e no qual baseio meu discurso, e não vou mais incomodar: “CP: Sobre esse agenciamento coletivo do desejo, penso em certos contra-sensos. Lembro-me que em Vincennes, em 72, na faculdade, havia pessoas que punham em prática esse desejo e isso acabava em amores coletivos, não tinham compreendido bem. Houve muitos loucos em Vincennes, como vocês partiam de uma esquizo-análise para combater a psicanálise, todo mundo achava que era legal ser louco, ser esquizo. Víamos cenas inverossímeis entre os estudantes. Queria que contasse casos engraçados ou não desses contra-sensos sobre o desejo.
                GD: Eu poderia falar dos contra-sensos abstratamente. Consistiam em duas coisas, havia dois casos, que dá no mesmo. Havia os que pensavam que o desejo era o espontaneísmo, e havia todo tipo de movimentos espontâneos, o espontaneísmo.
                CP: Os célebres maos-spontex…
                GD: E os outros que pensavam que o desejo era a festa. Para nós, não era nem um nem outro, mas não tinha importância, pois, de qualquer modo, havia agenciamentos que aconteciam, havia coisas que mesmo os loucos… havia tantos, de todos os tipos. Fazia parte do que acontecia naquele momento, em Vincennes. Mas os loucos tinham sua disciplina, tinham sua maneira de… faziam seus discursos, suas intervenções, entravam em um agenciamento, tinham seu agenciamento, mas entravam em agenciamentos. Tinham uma espécie de astúcia, de compreensão, de grande benevolência, os loucos. Se quiser, na prática, eram séries de agenciamentos que se faziam e desfaziam. Na teoria, o contra-senso era dizer: o desejo é a espontaneidade. De modo que éramos chamados de espontaneístas, ou então era a festa, mas não era isso. Era… a filosofia dita do desejo consistia, unicamente, em dizer para as pessoas: não vão ser psicanalizados, nunca interpretem, experimentem agenciamentos, procurem agenciamentos que lhes convenham. O que era um agenciamento? Um agenciamento, para mim, e Félix, não que ele pensasse diferentemente, pois era, talvez… não sei. Para mim, eu manteria que havia quatro componentes de agenciamento. Por alto, quatro, não prefiro quatro a seis… Um agenciamento remetia a estados de coisas, que cada um encontre estados de coisas que lhe convenha. Há pouco, para beber… gosto de um bar, não gosto de outro, alguns preferem certo bar, etc… Isso é um estado de coisas. Nas dimensões do agenciamento, enunciados, tipos de enunciados, e cada um tem seu estilo, há um certo modo de falar, andam juntos, no bar, por exemplo, há amigos, e há uma certa maneira de falar com os amigos, cada bar tem seu estilo. Digo bar, mas vale para qualquer coisa. Um agenciamento comporta estados de coisas e enunciados, estilos de enunciação. É interessante, a História é feita disto, quando aparece um novo tipo de enunciado? Por exemplo, na revolução russa, os enunciados do tipo leninista, quando eles aparecem, como, em que forma? Em 68, quando apareceram os primeiros enunciados ditos de 68? É bem complexo. Todo agenciamento implica estilos de enunciação. Implica territórios, cada um com seu território, há territórios. Mesmo numa sala, escolhemos um território. Entro numa sala que não conheço, procuro o território, lugar onde me sentirei melhor. E há processos que devemos chamar de desterritorialização, o modo como saímos do território. Um agenciamento tem quatro dimensões: estados de coisas, enunciações, territórios, movimentos de desterritorialização. E é aí que o desejo corre…
                CP: Você não se sente responsável pelas pessoas que tomaram drogas? Ou, lendo muito ao pé da letra O anti-Édipo, não é como Catão, que incita os jovens a fazer bobagens?
                GD: Sentimo-nos responsáveis por tudo, se algo dá errado.”

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                1. Desculpe por responder? Não entendi. Eu esperava pela resposta, haha. Não há incômodo, não …

                  Já li e assisti boas partes do abecedário, inclusive esta. Não acho que eles esteja falando “Olhem, crianças, amor live e drogas são ruins, viu?”. Pelo contrário, ele põe uma condicional no fim: “Se algo dá errado”. É um grande clamor pela prudência.

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                  1. Sim. Concordo. Porém, na sequencia, ele explica que não existe coerência em achar que ele está fazendo um incentivo ao prazer absoluto utilizando o corpo físico, uma vez que sua luta é, justamente, a de evitar que as pessoas virem trapos. Trapos como os pacientes de hospício. Trapos como os “drogados” de manicômios ou em tratamento… Trapo como os adictos a coisas que fazem com que virem trapos… Ele diz reiteradamente, na sequencia do abecedário, que ele quer evitar e que é horrível ver jovens virando trapos. Por outro lado, voltando na história do CsO e nas sua relação com o jogo teatral, vejo que é um corpo que paira dentro ou junto a um corpo físico. Pois eu entendo isso na própria pele, quando trabalho in situ com alguma obra, e sinto meu corpo presente e ao mesmo tempo desvinculado de sua funcionalidade. Por outro lado, sinto-me fazer parte do lugar a ponto de estender-me até onde meus olhos puderem enxergar. Isso não tem nada a ver com as experimentações químicas ou físicas já feitas.

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                    1. Claro que não faz sentido a busca irrestrita por um prazer absoluto. Recomento, também deste blog e, neste caso, textos meus sobre o hedonismo e a apropriação que nós temos de prazer.

                      Com relação aos trapos, são problemas de dosagem. Aliás, a prudência é arte das doses e overdose nada mais é do que aquela que não te dá a possibilidade de retorno.

                      Bom, não vejo muita diferença entre o que eu estou chamando de experimentação e a o que você chamou de “entender na própria pele”. Enfim, acho que deixar-se invadir pela arte é também uma maneira de experimentar o corpo.

                      Acho que estamos de acordo, mas usando palavras diferentes.

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            2. Milene você ia bem na crítica deste texto até aqui, mas….. O “vício” é uma “satisfação” e está atrelado ao “desejo” por isso a “prudência” na hora de criar para si um CsO. Entendam que o CsO é uma tomada de consciência dos “órgãos do corpo” com a “mente universal” onde “espiritualidade” e “matéria” se encontram abrindo um campo de “imanência” que remete a experiência do infinito cósmico, portanto o CsO é “transcendental” e se “busca” por isso: “Encontre seu corpo sem órgãos, saiba fazê-lo, é uma questão de vida ou de morte, de juventude e de velhice, de tristeza e de alegria. É aí que tudo se decide”, porque é uma experiência de “morte” e “renascimento” onde muitos fracassam e poucos tem sucesso. Isso porque depois de encontrado o CsO você não se enquadra em mais nenhum “significante social” e terá que se “re-significar” a cada instante pro resto da vida – vide a “enfermidade esquizofrênica” que eles fazem questão de distinguir do “esquizofrênico saudável”. D&G nos colocam em um jogo de conceitos a espera que juntemos as peças e possamos criar nossos “mapas” para que a gente não se perca e tenha uma visão panorâmica da vida “esquizofrênica” que o capitalismo “copia” e “captura” o CsO. Um bom exemplo disso tudo está no filme MATRIX e especificamente “O Recorde Mundial” em ANIMATRIX. Um forte abraço para todos!

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      2. Bacana Rafael, realmente simplificar uma obra tão complexa, no entanto tão simples é complicado. Mas achei otimo a iniciativa, as pessoas tem muita dificuldade em entrar em Deleuze e seus textos ajudam sim a pelo menos ter um ponto de entrada, algo para começar a produzir um incosnciente apto a lidar com esse universo. Ja a Srta que faz a critica, deveria de saber que Deleuze vai se revirar sim, mas quando souber que tem “intelectuais” tentando interpretar seu trabalho. Heheheh abraços e parabens!

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  3. Bela discussão, apenas queria apontar dois pontos – na entrevista que a Milena Tafra retirou uma parte e ele está falando sobre os loucos e seus agenciamentos está frase é explícita: ” Era… a filosofia dita do desejo consistia, unicamente, em dizer para as pessoas: não vão ser psicanalizados, nunca interpretem, experimentem agenciamentos, procurem agenciamentos que lhes convenham.” Repetindo, procurar agenciamentos que lhes convenham, o que isso significa? Ora, não existem agenciamento superiores, existem agenciamentos apenas, o problema está quando este agenciamento é pré-fabricado, quando este agenciamento lhe é imposto e mais ainda, quando ele lhe é imposto como a uma finalidade, dentro de uma linha de produção social. Como ocorre frequentemente nos tempos em que vivemos, temos hobbys, temos lazer, temos tempo de descanso, temos férias, o que significam estas coisas? são termos baseados na ideia central de que temos uma funcionalidade e se cumprimos esta funcionalidade podemos ser inúteis numa certa medida de tempo. Consequentemente qualquer agenciamento faz parte deste período de inutilidade que vivemos, encontros, a arte, uma música, um espetáculo, etc. Enche-me de horror ver um artista encher o peito para dizer sobre seu “trabalho”, como se fosse grande coisa fazer parte desse circo. Voltando ao ponto da questão, agenciamentos que lhe convêm, meditação? vá em frente, não lhe convêm? talvez LSD, talvez viajar para Machu Pichu, são tantas variações possíveis.

    O outro ponto é uma entrevista de Deleuze em que ele compara os psicanalistas aos padres, estabelecendo um paralelo sobre castração do desejo, qual a finalidade? a que serve esta castração? por que a sua visão sobre determinado desejo tem de ser a mesma que a minha? Se não aumenta minha potência eu me afasto, se a aumenta eu procuro por mais. Porém, com prudência. E o que significa a prudência? Na entrevista de Deleuze sobre o álcool (ele foi um alcoólatra e depois deixou de ser) ele fala que o alcoólatra está sempre em busca do penúltimo copo, porque o último seria aquele que iria lhe matar, conhecer seus limites, porque o último copo seria o fim da potência, mas o penúltimo a sua forma mais pungente, enfim, a vida como uma obra de arte.

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    1. Milene com “e”. Meu nome está explícito. Difícil de errar. Sobre os agenciamentos impostos, já foram objeto de discussão e, no meu ponto de vista, neles estão a cultura da drogadicao, incluindo o álcool. Há um apelo ridículo ao consumo de álcool em todos os meios de comunicação. O álcool aparece como protagonista no cenário dramático, erótico, feliz… tal qual acender um cigarro após escalar a montanha o era. Além disso, o Deleuze não tem muita isenção pra falar do assunto. Ele era um ser humano adicto. Por último, o artista romântico q não trabalha ou não imerge no seu trabalho é um mito. A minha experiência artística, a meu ver, é o q nos faz viver o CsO. Não é preciso q o artista esteja num circo mercadologico para ser artista. Aliás, ao criar ou desenvolver o CsO, todos somos artistas, da forma q eu entendo. O ato de fazer arte com o corpo, o processo criativo confunde-se com o CsO. E a mim parece q artistas todos são, embora muitos de nós não experimentem ser. É deixar-se levar pela inquietação, é dançar no silêncio a música interna, é teatralizar e viver um personagem, ou contemplar a vida até sentir-se ela. Mas estufar o peito eu já não sei quem faz… nem sabia q artista não pode trabalhar q deve evitar essa palavra porque pode parecer arrogante. 🙂

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  4. Desculpe o erro do e e por não compreender “o artista e o seu trabalho”. Concordo plenamente que a experiência artística pode nos fazer viver o Cso, o que eu disse foi apenas que é ilógico ele se orgulhar de sua arte como se fosse um trabalho, utilizar-se desta palavra para valorizá-la, ou melhor, precisar enquadrar sua arte neste termos para que ela possa ter (supostamente) um valor social. A imersão do artista não é em sua obra, a imersão do artista é na vida e se reflete em sua obra ou flui por sua obra. A questão do trabalho é só uma – rejeitar os enquadramentos, rejeitar uma função específica, rejeitar o organismo, rejeitar papéis pré-estabelecidos. O artista, o banqueiro, o advogado, o mendigo, o estudantes, todos papéis para fazer funcionar o capital.

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    1. Acho que a questão da arte está intimamente ligada ao CsO, tanto que este nasceu de Artaud. Descordo quando dizes que o artista não imerge na sua obra. Muito pelo contrário. Muitas vezes a pessoa está tão imersa que parece mesmo em transe. Gosto da frase que diz que a diferença entre o louco/psicótico e um artista é que o segundo entra no mundo na loucura e tem a passagem de volta, ao contrário do primeiro. Assim, descordo concordando. Porque também é verdade que a imersão na vida confunde-se com a imersão no próprio processo criativo. Uma coisa não exclui a outra.

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  5. Prezada Milene, gostei muito de suas sublimações, espero um dia atender pacientes com um nível de sublimação tão alto assim como o seu, recanalizando uma energia sexual assim tão esplendida e livre de barreiras e preconceitos para o campo da intelectualidade, para algo aceito socialmente, mas que no inconsciente clamam para serem descarregadas de outra maneira.

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    1. Inoportuno, dispensável e deslocado esse comentário. Não acresceu nada ao debate. Espero q tenha te “sublime” e canalize tua energia sexual apenas em comentários inúteis como esse. Espero nunca fazer terapia com alguém tão anonimamente pirado. Fui ler pq tenho interesse no assunto e considero dd difícil compreensão. Qdo vi o q escreveste: afe.

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  6. Sou professora universitária, não sou da filosofia e nem tão pouco da psicologia, sou da administração, e li o texto e todos os comentários como uma aluna que assiste a um belo debate. E como leiga percebi no discursos de alguns muito ego, e portanto achei que as interpretações iam muito bem até o ponto que se encaminham para justificar suas posturas pessoais. Posso estar falando uma grande besteira mas acredito que o texto que mais reavaliou as posturas foi o do Ciclotron, percebi uma busca pelo encontro do que chamo sujeito, o intuitivo, a representação desmascarada do capitalismo, a potencia da representação e vontade do seu sujeito. Muito difícil de conseguir neste mundo padronizado, principalmente para leigos como eu: portanto a expansão através das drogas é sempre um grande atrativo, e a prudência é o respeito interno do sujeito por ele mesmo. E ai quanto não entendi…?????? Ajudem uma pobre mortal a encontrar CsO, Claro que comecei a ler Mil Platôs Vol 1.

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  7. Deleuze passa bem…. e sem nós… apenas com sua filosofia e sua maneira fluídica de experimentar as coisas em nós. Sejamos menos górdios e mais água, Nonada , eis tudo.

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  8. Milene Tafra é uma freirinha escolástica de que convento medieval mesmo? fiquei curioso. como essa menina foi apresentada a D&G? que leitura moralista anacrônica ela faz do CsO, heim? parou na fase do ritornelo territorializante e ficou mumificada nele… que desserviço ela faz… além do autoritarismo pedagógico que ficaríamos muito bem em nem ter contato. 🙂

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    1. Caro Jorge A. Santana. Com certeza, tenho muito o que aprender e estou buscando este conhecimento, por meio de livros, de discussões e de experimentações. Esta busca deveria ser algo vista de forma benéfica, a priori, pelos que entendem que a ignorância é prejudicial. Mas infelizmente, há pessoas que se afetam, inexplicavelmente, de forma inadequada em uma discussão. Como tudo tem um lado positivo, por um lado isto é bom, pois fica claro que se “afetam”, ainda que seja de forma reativa. Minha ideia aqui é debater para aprender. Opor ou concordar para extrair algo de um discurso de D&G que, a meu ver, no qual todos gatinham. Quando falo q acho infantil certa visão, é meu ponto de vista. Também é meu ponto de vista que chamar uma “mulher de freirinha escolástica de convento medieval” é apenas uma atitude misógina, não incomum no meio acadêmico (do qual não pertenço). Vejo em seu comentário nada sobre o texto, mas apenas autoritarismo pedagógico. Evidente sua projeção no que digo. Aliás, é básico isso na psicologia – que o que identificamos nos outros é aquilo que somos, pois é o que conhecemos melhor. Incriminar meu ponto de vista me chamando de “freirinha” não consiste em uma crítica construtiva – não colabora com a construção de conhecimento que cá buscamos. O que fizeste foi apenas queimar-me na fogueira e desviar a discussão para minha sexualidade – atitude contraditória em uma discussão sobre um filósofo da diversidade. Isso quer dizer que deves ser um homem inapto a discutir com uma mulher, pois deixa-se escorrer para discursos preconceituosos contra o interlocutor que não tem a ver com o tema da discussão. Não falo isso para ofender, mas apenas porque estou aqui tentando entender o CsO e confrontá-lo com outros conceitos, bem como buscar suas origens, principalmente no teatro e performance. Também não estou ofendida pois a misoginia não é incomum, e não me atinge. Mas aproveito a oportunidade para desmascará-la. Sempre vale a pena. Veja acima um pretenso psiquiatra falando freudianamente que tenho sublimações interessantíssima, tratando-as como exclusivamente vinculadas aos instintos sexuais, sem me conhecer, esquecendo-se que podem estar se prestando a cercear agressividades, por exemplo. Nem Freud vinculava tudo ao sexo. Mas para ele, com certeza, a felicidade é a realização de todos os instintos e o cerceio destes nos faz infelizes. Assim, não posso aceitar q Deleuze diga o mesmo.

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  9. Sempre que tento pensar o CsO me vem a imagem de um amigo com um copo de cachaça numa mão e na outra um vidro de maionese com seu apêndice no formol, com aquele olhar vislumbrado,por vezes o imaginei bebendo aquela coisa, me revirava o estomago, em sinto um Édipo na idade oral,talvez jamais irei entender esse conceito

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  10. Falou relacionar o CsO com o capital. Em O Anti-Édipo, Deleuze e Guattari dizem que o capital é um corpo sem órgãos. Porém, não o pintam com todas essas características postivas que teria o corpo sem órgãos do esquizo. Interessa que o capital, como corpo sem órgãos, interpõe novos códigos às contínuas descodificações, o que garante a manutenção de sua hegemonia como sistema capitalista. Seria bom deixar isso mais claro.

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    1. ah sim o dinheiro é intensidade sem orgão…mas o homem éo condicional que faz uso dele em forma de agenciamento de poder e estrutura , pra colocar de forma diferente :” a fé poderos e invisivel no dinheiro do Tio Patinhas – ignora a teodiceia secularizada Irracional.”

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  11. Olá, nunca li Deleuze, sempre achei muito difícil, muito enrolado, nas vezes que tentei, mas hoje eu passei o dia inteiro (das 13h às 21:30) lendo os textos aqui do blog sobre ele e Guattari e agora estou com uma vontade louca de lê-los. Vim procurar ‘resumos’ porque preciso ler com certa urgência (prazos acadêmicos) uma obra que tem muito de influência de mil platôs e anti-edipo, mas não teria tempo hábil para ler ambos. No fim, pelo menos anti-edipo vou encontrar tempo para ler. Obrigado, vocês se tornaram um dos meus blogs favoritos. Abraços.

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  12. Eu sou graduando do curso de História na Universidade Federal do Piauí e estou já há alguns meses escarafunchando esse blog lindo e desterritorializante. Minha leitura de Deleuze e Guattari ainda está em estágio inicial – comecei há pouco mais de um ano pelo micropolítica. Eu vi essa discussão nos comentários sobre a consistência dos conceitos e confesso que não estou , e não sei se um dia estarei nesse estágio. Eu penso os conceitos deleuzeanos sob um prisma de não se curvar aos conceitos, fazendo inclusive uma “leitura safada” deles. Acredito que, como um filósofo sem teleologia como Deleuze, não desejaria fiéis seguidores. Esse é um dos motivos pelos quais sou fã das leituras do Rafael Trindade e os demais autores desse blog: eles pensam o conceito numa perspectiva tal qual Foucault sugeriu, “enquanto uma caixa de ferramentas”, fazendo-os “gemer e protestar”. Parabéns pelo blog! ❤

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