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Amar é uma aposta. Coletivamente, erguemos uma imagem do que significa vencê-la. O prêmio não é nada tímido: Reciprocidade plena. Satisfação de se transformar pelo lado de dentro de alguém – e a sorte de testemunhar o amado também se modificando pelo seu contato. Alegria-mútua. Nesse estado, fica até difícil diferenciar onde termina e começa a vontade de cada um. Em algum momento, porém, algo parece mudar. Encarando o desejo do outro, você vê não mais um espelho do seu, mas um deslocamento estranho. Algo (ou alguém!) estoura a bolha que envolve o par em unidade. As paixões da pessoa amada estão sendo movidas – e não é sobre você. 

Espinosa nos ensina que a alegria e a tristeza alheia são contagiantes. O traço comum de humanidade costuma ser suficiente para que o sofrimento de alguém nos doa e sua satisfação nos alegre. É tão simples quanto sentir alívio ao ver um sedento beber água. Essa transferência afetiva é fortalecida se o observado for alguém amado. Quase automaticamente, aquilo que imaginamos fazer bem a quem amamos se torna também para nós objeto de amor. A esse movimento, Espinosa dá um nome bonito:  Apreço. Por outro lado, o Ciúmes é um notável desvio da tendência de emular alegrias. O que explica essa exceção?  Como entender que, quando enciumados, engajamos no odioso esforço de entristecer a pessoa amada ao imaginá-la alegre?

Odeio a alegria alheia quando me parece que ela irá coibir a minha própria. No caso do amor, isso ocorre quando penso que determinada alegria será a causa da minha exclusão. Sinto ciúmes se imagino que a mistura do sujeito amado com um terceiro significa que ele não vai mais se misturar comigo – e ser excluído do desejo de quem amo dói de tal forma que posso passar a odiá-lo. De muitas maneiras, tentamos nos preservar dessa ameaça de alienação.

Talvez a solução mais popular seja buscar garantias de que a exclusão não acontecerá. Nela, os amantes se comprometem a fazer a manutenção das condições que evitem perturbações na díade desejante. Prometemos: meu desejo é seu, pra sempre. Alegrias fora da relação são aceitas na medida que não representem uma ameaça de exclusão relevante – e os critérios para essa relevância variam: “Você pode viajar sem mim; mas não morar longe.”; “Você pode sair com seus amigos, mas não mais do que comigo”; “Você pode  beijar outras pessoas, mas não se apaixonar”. 

Essa estratégia carrega uma contradição: sua rigidez pode produzir justamente as exclusões que busca evitar. Quando algumas alegrias significam o rompimento de um pacto, vivê-las torna-se praticamente sinônimo de excluir. Se, por exemplo, você promete que, enquanto amar a pessoa escolhida, não amará outra; o surgimento de um novo amor implica necessariamente em um rompimento. O exemplo clássico é o apaixonamento erótico, mas isso pode se aplicar a qualquer ameaça ao espaço estabelecido de um parceiro.

A isso, adiciona-se o complicador de que ser afetado de alegria não é algo exatamente controlável. Um tanto mais possível é podar situações que possam levar à determinadas paixões. Não dê abertura, dizem. Esse trabalho preventivo pode ser bastante restritivo – ou seja, entristecedor por definição, já que tristeza é a diminuição da capacidade de afetar e ser afetado. E, ainda que cuidadosamente contidos, sempre somos passíveis à surpresa de alegrias desorganizadoras – que podem representar uma quebra nos pactos de fusão. Ao proibir a flutuação do desejo,  relações acabam quando poderiam, ao invés disso, mudar. 

Uma alternativa é questionar algumas premissas do ciúmes. Rejeitar a ideia de que a mistura com uma nova paixão implica em exclusão. Apostar nas possibilidades de alegrias simultâneas, acreditar que a coexistência é possível. Esse caminho, inclusive, funda um tipo de alegria que é impossível nos modelos de exclusividade: as alegrias da intersecção. Tolerando alguma desordem, podemos nos misturar com diversos amores e também possibilitar que eles se misturem entre si. Assim, diferentes conexões se cruzam em inventivos desenhos: são as triangulações alegres, que acontecem quando apostamos mais na transferência de carinho que na rivalidade – mais no Apreço que no Ciúmes.

Existe um risco, porém, de ingenuamente depositar na coexistência uma nova expectativa de garantia contra a exclusão. Investir na intersecção dessa maneira pode ser tão sufocante quanto alguns pactos de exclusividade: “Você pode amar outras pessoas, mas isso não pode significar uma ausência na relação comigo”. A realidade, no entanto, é que a nossa própria condição de finitude implica em exclusão. A intersecção e coexistência ampliam nossa capacidade de pensar e agir; mas não nos tornam Deus. Somos seres limitados em tempo e espaço e, assim sendo, enquanto temos um pensamento, não temos muitos outros; e quando estamos aqui, não estamos lá. 

Não tem jeito. Seremos excluídos, e é preciso aprender a lidar com algumas ausências. A boa notícia é que já fizemos isso antes.  Muito cedo (e a contragosto), nos damos conta de que mamãe, às vezes, vai embora. Aguardamos angustiados enquanto ela dá um pulinho ali para desejar algo que não é sobre nós. Conseguimos suportar essa privação a partir da crença de que ela é temporária: mamãe foi, mas volta! 

A ausência, então, torna-se tolerável a partir da construção da segurança do retorno. A realidade, no entanto, carrega algo ainda mais difícil: mamãe um dia vai morrer, e você também. A garantia da volta, no limite, é uma ficção pragmática. Por muitos motivos além da certeza da morte, um encontro com alguém amado sempre pode ser o último. Até porque, ao retornar de novas afetações, já não somos mais os mesmos. A vontade de que o amor continue igual é em parte o que nos assusta de permitir que o outro seja afetado de forma incontrolável.

Queremos repetir o que nos alegrou  de forma idêntica (exclamamos: de novo! de novo!). Mas Alegria é, necessariamente, variação (aumento na capacidade de afetar e ser afetado). Coibir a mudança é entristecer.  A alternância, em que os focos de amor variam, se apresenta como a aposta mais alegre, ainda que não a mais fácil. Conscientes disso, podemos escolher sustentar ausências: permitir que o outro se afete por multiplicidades que não são sobre nós – enquanto também nos alegramos de forma múltipla,  entre os não garantidos reencontros.

O enunciado “vou voltar”, no entanto, não se torna obsoleto quando reconhecemos sua imprecisão. Você pode dizer que voltará expressando intenção e carinho, não certeza absoluta. A cada despedida, não fingir prever o futuro, mas afirmar a importância atual daquela relação. Nos interlúdios, você participa timidamente da alegria que te excluí na medida em que não a censura – e é partilhado o anseio de em algum momento voltar à proximidade. Então, com alguma sorte e muito respeito pela alegria onde quer que ela se manifeste, eventualmente o amor recairá sobre você.

Gabriela Jacques


Referências 

ESPINOSA, Baruch. Ética. Tradução Grupo de Estudos Espinosanos; coordenação Marilena Chaui – 1ª ed., 3ª reimpr. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2024, c. 1677.
CHAUI, Marilena. A nervura do real II: Imanência e liberdade em Espinosa – 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
FREUD, Sigmund. (2010a). Além do princípio do prazer. In S. Freud, Obras completas (P. C. Souza, Trad., Vol. 14, pp. 161-239). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1920)
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm (1873) Sobre a verdade e a mentira no sentido extramoral. In: Antologia de textos filosóficos. Org., Jairo Marçal. Trad., Rubens Torres Filho. Curitiba, PR: Secretaria de Estado da Educação do Paraná, 2009.
BJÖRK. It’s Not Up To You

 

Sobre a autora

Apaixonada por palavras e pessoas; cursei graduação e mestrado em psicologia na Universidade de São Paulo e hoje estudo filosofia também por lá. Minha pesquisa foi sobre a Teoria das Molduras Relacionais; uma perspectiva analista-comportamental da linguagem. Hoje, atuo como psicóloga clínica; e na filosofia sigo me interessando pelo que há de especial e ordinário nessa experiência de ser um bicho que fala.

 

Como citar

JACQUES, Gabriela. Não é sobre você. Razão Inadequada, 2026. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2026/01/27/nao-e-sobre-voce/>. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
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