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Camus

Vida

Albert Camus nasceu dia 7 de novembro de 1913 na Argélia, à época da ocupação francesa, mais de um século atrás portanto. A morte de seu pai combatendo na primeira guerra e a condição pobre de sua família tornavam difícil o estudo. Camus, entretanto, mostrava grande talento com as palavras e paixão para com a filosofia. Sua família não tolerava bem o fato dele seguir na escola secundária, pois o seu destino era trabalhar com seu tio fabricando tonéis e barris. O apoio de um professor, Louis Germain, fez a diferença. Quando ganhou o prêmio Nobel em 1957, Camus enviou-lhe uma carta agradecendo a mão afetuosa que ele havia estendido ao garoto pobre que era.

Camus formou-se em filosofia, sua tese de mestrado foi sobre Plotino e sua tese de doutorado, assim como a de Hannah Arendt, foi sobre Santo Agostinho. Foi impedido de se tornar professor pela tuberculose, doença que o acompanhou pelo resto de sua vida. Entrou para o partido comunista francês em 1934 e participou ativamente como escritor em jornais revolucionários como o Alger Republicain. Casou e mudou-se para a França em 1938, engajando-se particularmente na luta contra a segunda guerra mundial. Por causa de sua saúde, foi rejeitado pelo exército francês em 1940.

O Absurdo e a Revolta

Datam de 1942 os dois livros mais conhecidos do autor: “O estrangeiro” e “O mito de Sísifo“. É desta época também sua polêmica e breve amizade com Jean-Paul Sartre, que havia gostado e elogiado bastante os seus romances. Em meio à guerra, Camus engajou-se na resistência e tornou-se editor do jornal clandestino Combat, que fazia frente aos absurdos da ocupação nazista da França. Em 1945, ao final da guerra, Camus escreve “A peste”, que é uma alegoria para a ocupação nazista e para “a condição da vida regulada pela morte”, que retorna tantas vezes na história da humanidade.

Mais tarde, em 1951, Camus lançou “O homem revoltado“, livro em que se posiciona contra o assassinato e contesta uma série de lugares-comuns do comunismo e do marxismo. Assim termina sua amizade com Sarte. Os dois não só deixaram de se falar, como travaram uma pequena batalha, onde Sartre promoveu ao lado de alguns intelectuais franceses uma espécie de linchamento ao pensamento de Camus. Assim, por várias décadas, as teses de Camus foram taxadas de simplistas e conservadoras. Sartre, com toda sua influência no meio intelectual francês, não conseguiu submeter o pensamento de Camus; sorte a nossa, pois as duras críticas feitas à esquerda revelaram-se mais tarde como uma grande via para repensar a luta pelos direitos.

O renome de Camus não se restringe ao campo da filosofia e da literatura. Ele dirigiu várias peças de teatro, montou inclusive “Os Demônios” de Dostoiévski e alguns de seus textos. Suas releituras teatrais inauguravam uma corrente mais tarde denominada estética do absurdo, à qual aderiram ninguém menos do que Samuel Beckett e Eugène Ionesco. Colocar o absurdo em foco significava mostrar ao público a condição humana frente às guerras, à mortalidade, nossa pequenez diante do mundo. Conceito muito desenvolvido no livro “O Mito de Sísifo”, no qual o autor interpreta o famoso mito do semideus condenado a eternamente rolar a pedra para cima do monte e vê-la cair.

Vida e Morte

Camus era um apaixonado pelo futebol, dizendo inclusive que devia ao esporte grande parte do que entendia sobre a relação entre os homens. Ele era vaidoso, vestia-se muito bem e tinha apreço pelas mulheres. De sua infância, guardou não só as lembranças da pobreza, como também a relação de comunidade de Mondovi, a pequena vila em que nasceu, e do sol que banhava a costa africana. A morte e o sol são elementos antagônicos presentes em praticamente todos os seus livros, dizia “Para corrigir uma indiferença natural, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol.”

Albert Camus morreu cedo, aos 46 anos, num acidente de carro e continua até hoje sendo um autor subestimado. Considerado um existencialista, apesar de não gostar desse rótulo, ele foi ofuscado pela figura de Sartre e relegado à posição de autor menor. A paixão pelas artes, a aproximação dos pensamentos de Nietzsche, a afirmação plena da vida, a revolta valorosa, os escritos prodigiosos, a negação do assassínio, a busca pelo além do niilismo, são motivos de sobra para o resgatarmos.

Cada geração se sente, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto, a minha sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrupta onde se mesclam revoluções decaídas, tecnologias enlouquecidas, deuses mortos e ideologias esgotadas, onde poderes medíocres podem hoje a tudo destruir, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se rebaixou para servir ao ódio e à opressão, esta geração tem o débito, com ela mesma e com as gerações próximas, de restabelecer, a partir de suas próprias negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer.”

– Discurso do Nobel, em 1957