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O que é propriamente um regime ditatorial de valores? Se no sentido político tradicional, o ditador é aquele bigodudo que possui o total controle dos poderes do estado, na esfera dos valores o ditador é aquele que legitima de forma absoluta os valores de uma sociedade. Dizem por aí que a ditadura acabou, está nos livros de história… nós não temos tanta certeza. De fato, sobram mecanismos autoritários de valorização e desvalorização na esfera dos valores culturais. Sob este prisma, pouco importa sermos uma democracia formal, é pouco. Pensávamos ter nos livrado da ditadura, quando na verdade só mudaram nossos ditadores e assim permaneceremos enquanto não nos emanciparmos de quem dita nossos costumes.

– Amjad Rasmi

E assim, mais uma vez nos encontramos em face desta discussão: o caráter inquestionável da beleza. O fato de termos de nos esforçar para mostrar que o ideal de corpo feminino/masculino é apenas uma questão de gosto já nos mostra como o regime que vivemos é eficaz em empurrar determinados desejos goela abaixo. Vivemos em um sistema de gradação, uma hierarquia, onde todos procuram se aproximar o máximo possível de uma imagem, uma representação.

Não é difícil perceber que a beleza, assim como qualquer valor, não é um valor imutável, mas determinada por processos de valorização e desvalorização histórico-sociais. O exemplo corriqueiro é o Renascimento, quando as “gordinhas” eram o padrão. Para fugir do exemplo óbvio, basta voltar um pouco na história de nosso país. Na época da escravidão, jamais se consideraria a pele bronzeada como algo belo, pois este traço trazia consigo a informação de que a pessoa trabalhava fora da casa, exposta ao sol e se assemelhava, portanto, ao escravo. Um pouco distante da nossa atual preferência pelas “marquinhas de biquíni”, não? O mesmo vale para cabelo liso/encaracolado, barba feita/por-fazer.

Evocar o exemplo da escravidão nos remete a outra questão: quem estabelece o que é bonito? Numa sociedade com estratos tão definidos quanto as anteriores, parece óbvio que a elite, que possui todo o poder, determine o bonito e o feio. E na nossa sociedade atual, será que o padrão de beleza continua associado a quem tem o poder? Se entendermos esse poder como poder econômico, parece que sim. O mais triste é o fato de que este padrão ditado não é aceito apenas por quem dita, mas por todos, inclusive pelos que têm “cabelo ruim”, são “gordinhos”, “mal vestidos”…

Muitos argumentariam que hoje encontramos inúmeros padrões, de corpos, de se vestir, de cabelo, de possibilidades. Nós respondemos: é uma ilusão! Acreditar que multiplicar o padrão e libertar-se não passa de mais uma ilusão de mercado, mais uma engodo de produtos comerciais. Todo cuidado é pouco! Nós estamos criticando a constituição de qualquer modelo! Somos iconoclastas, queremos o crepúsculo dos ídolos, não queremos pensar por imagens! Ou seja, seja um ou vários modelos de beleza, a crítica ainda é válida.

É uma imposição vertical que atinge a horizontalidade de baixo. Os efeitos desse poder econômico, muito menos personificado, se torna efetivamente poder nas relações, mas não se restringe somente a um poder social, é também biopoder, isto é, uma relação de dominância instituída sobre os corpos. Por mais abstrato que pareça, esta relação de dominância percebe-se por marcas corporais. Observe, por exemplo, os traços físicos do que serve e do que é servido. Há qualquer coisa de distinto em seus corpos, em suas constituições, algo que denuncia o pertencimento a uma determinada classe.

Perceba que não estamos apenas criticando o padrão atual, estamos questionando a necessidade da existência de um padrão, ainda mais um que seja definido por processos tão oligárquicos como os da nossa mídia. A questão não é defender quem é gordinho, mas defender a possibilidade de uma escolha que parte de um desejo legítimo e não de uma aceitação submissa. Este é o perigo aqui, estamos capturados por uma maneira de pensar e de viver que nos impede de encontrar nossos próprios caminhos. Desde o começo nos dizem como devemos ser e como devemos agir.

O problema fundamental aqui é o fato de que nosso desejo não é propriamente nosso. Ele é fabricado no seio de um sistema de produções doente, que para seu próprio sustento precisa ver a beleza associada ao dinheiro, aos produtos e à fama. No interior da máquina social, nosso desejo é uma pequena engrenagem que acredita querer, quando na verdade apenas aceita o que lhe é sugerido, ou melhor, obedece às ordens da gerência. Dentro deste sujeito, não há desejo, há uma espécie de eco, uma repetição do que o mercado define como necessidade e coloca na capa de suas revistas. Somos coagidos, restringidos, escravizados pelo mercado. Conclusão, não somos nós mesmos.

– Amjad Rasmi

Por que chamar de regime ditatorial? Simplesmente porque há, de fato, mecanismos que ditam valores e este mecanismo, no que concerne boa parte dos indivíduos de nossa sociedade, não parte do sujeito. Há, como diria Deleuze, uma fábrica de buracos (Ler Deleuze e o desejo). Escavadeiras dispostas em fila, prontas para nos atacar, invadir nossas casas, nosso transporte, nossos corpos, nossos afetos; e cavar sem parar, criar uma série de buracos, de “faltas”. Não há ingenuidade por parte de quem manipula essas máquinas, é muito bem sabido que só o ideal preenche o desejo quando este é interpretado como falta. Mas como alcançar este ideal? Existe corpo tal qual o da capa de revista? Que escavadeiras são essas? O que é que nos faz tomar o desejo por falta? Inúmeras respostas são possíveis, eis algumas: a publicidade, este mecanismo de persuasão apodrecido; a ditadura da identidade, esta normatividade imposta pelo ser; a Moral, estes valores condensados em deveres; o prazer conservador, esta fuga incessante do prazer intensivo…

Nossos poros estão entupidos. Estamos impedidos de experimentar nossos próprios corpos. Com a desculpa do belo, cria-se a norma e, quando há tentativa de subvertê-la, surgem pequenas sentenças de morte: constrangimento, coação, coibição, intimidação, restrição… O sujeito pouco a pouco se convence de que tem que ser como é e vai deixando de lado sua criatividade e sua disposição para a experimentação. Aceitamos, enfim, que devemos ter um gênero X, casar com alguém do gênero Y, não qualquer um, mas alguém perfeito. Esquecemos completamente que nosso corpo é uma festa e que nesta festa não há mestre de cerimônias.

Para finalizar, gostaríamos de destacar ainda duas destas questões. Primeiro, idealizar o corpo gera desprezo pelos corpos. Parece paradoxal, mas é muito simples. Estabelecer uma ideia perfeita de corpo implica em desprezar, mesmo que parcialmente, a materialidade de todos os corpos, pois jamais o objeto se eleva à perfeição eterna da ideia dele. Segundo, buscar o corpo ideal, implica necessariamente um procedimento ascético (no sentido etimológico: que necessita esforço, exercício), ou seja, precisaria de regras rigorosas para sua obtenção (pense nas dietas mirabolantes, nos regimes e práticas físicas sacrificantes). Neste sentido, não difere em nada de uma religião, com suas práticas para obtenção de paz de espírito e vida eterna.

É isso que queremos? A salvação? A perfeição? Não existem outros caminhos, mais terrenos, reais? Se não queremos encontrar o corpo ideal, então precisamos aprender a caminhar por entre corpos reais, com suas diferentes qualidades e possibilidades. Ora, que seja um caminho escolhido e aberto por cada um de nós! A pergunta que cabe ser feita é: “Será que sou eu que desejo ser loira e esbelta?”

Texto da série:

Regime Ditatorial de Valores

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Música e Filosofia são as linhas que tecem a minha vida...

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11 Comentários
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Milena Klinke
Milena Klinke
9 anos atrás

Belo! 😉

Camila Costa
Camila Costa
9 anos atrás

Adorei o texto!! Percebe-se que o autor realmente é uma pessoa que tem uma visão muito ampliada sobre a realidade e não fica apenas fazendo críticas sem sentido a partir de uma visão fechada. Parabéns.

Diego Angeli
8 anos atrás

Ótimo texto Lauro! Só fiquei com uma questão. Quando você diz: “Perceba que não estamos criticando o padrão atual, estamos questionando a necessidade da existência de um padrão, ainda mais um que seja definido por processos tão oligárquicos como os da nossa mídia. A questão não é defender quem é gordinho, mas defender a possibilidade de uma escolha que parte de um desejo legítimo e não de uma aceitação submissa.” A beleza não é por si só um julgamento? Uma comparação? Algo só é belo se é mais belo do que outra coisa, mesmo que a comparação não pareça evidente… Ler mais >

mariana
mariana
7 anos atrás

Maravilhoso, pude entender o assunto por inteiro,descreveu tudo que eu realmente precisava para a apresentaçao que eu tenho amanha pra filosofia enfim MUITO OBGG

Junio
Junio
5 anos atrás

Interessante, mas vejo que é um ponto de vista de esquerda. A defesa dos marginalizados. Acho até que há um padrão que exclui uma grande maioria, um exemplo disto é o mercado de trabalho. Mas acho que o que interessa é o indivíduo em si. O que eu aceito como verdade ou valor pra mim. As pessoas podem cruzar os braços e se sentirem vítimas deste regime opressor, ou simplesmente reagir a tudo e viverem no máximo de sua própria potencialidade. Gosto dos textos acerca no niilismo e acho que se enquadra perfeitamente aqui.

Cléberton Barboza
Cléberton Barboza
5 anos atrás

Ótimo texto!! Vinha pensando nesse tema esses dias e cheguei ao pensamento (mas nunca à conclusão) de que deve haver não uma essência como queriam os modernos, mas uma disposição que toma o belo como algo simétrico, no sentido da simetria dos traços mesmo. Digo isso pensando na “opção” granítica do homem pela racionalidade, discutida em Nietzsche, Heidegger e Adorno, por exemplo. É como se a ratio humana pusesse no cálculo seu destino, e as formas geométricas e a polidez da forma, desde as esculturas gregas aos desfiles de moda contemporâneos. Há uma forma posta sob o signo da simetria,… Ler mais >

Jonathas
Jonathas
3 anos atrás

Excelente texto !! Este fanatismo pelo corpo perfeito me incomodou por também está incluso na manipulação ditatorial da beleza… Gratidão pela reflexão.