Vocês não sabem que a amizade com o mundo é a inimizade com Deus? Quem quer ser amigo do mundo faz-se inimigo de Deus” [ Tg 4:4]
Em tempos de visita do Papa ao nosso país, julgamos essencial esclarecer qual é a nosso entendimento de cristianismo. Dentre tantos autores possíveis, usaremos como base o filósofo Michel Onfray, mais precisamente seu livro Tratado de Ateologia.
Deus está realmente morto? Esta pergunta não deve ser feita no nível metafísico, mas ético. Enquanto houver pessoas que não suportam a existência, o devir e negam a vida (único bem de que dispomos), existirão muletas e subterfúgios para não precisarmos encarar o mundo de frente. O pensamento mágico que permite esta evasiva se chama Deus, e mitos não morrem tão facilmente. Um único livro no lugar de todos os outros, fé no lugar da razão. A religião coloca no lugar deste mundo o paraíso e no lugar dos homens, os anjos. E tais escolhas têm nos custado muito caro.
A mentalidade da carne é inimiga de Deus porque não se submete à Lei de Deus, nem pode fazê-lo. Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus” [Rm 8:7]
O cristianismo pode ser definido simplesmente como “negar este mundo em nome do próximo, negar esta vida em nome de outra”. A saber, a matéria de que somos feitos, nosso cérebro, nosso corpo, tudo isso não tem um fim em si, é apenas um instrumento para conquistar o reino divino, uma provação pela qual temos que passar em nome de algo maior. Transformar a vida em um meio é tirar o sentido dela, dizer que o paraíso (ou o inferno) é o destino dos homens é colocar como centro de nossas vidas o nada.
Em nome do nada (chame como quiser: céu, paraíso, mundo superior) todos os tipos de atrocidades e absurdos são cometidos aqui. Se Deus existe, tudo é justificado em nome dele. Obediência cega a um único livro, bíblia, é desde já crucial para o bom andamento da religião. Mesmo que isso signifique sacrificar seu único filho [Gn, 22:2]. Se Deus é maior que a vida, que me importa este mundo? Torpe, sujo, asqueroso, devemos fugir dele olhando para o firmamento.
A mulher talvez seja uma das que mais tenha sofrido ao longo desses milhares de anos de cristianismo. Alvo de um medo primitivo e ao mesmo tempo de um desejo incontrolável. Talvez por encarnar tudo que o homem anseia na terra e é preciso abominar em nome dos céus: desejo, corpo, luxúria, tentação, sedução, vida. Existe uma suspeita primordial da mulher na bíblia: ela corrompe, ela é impura. Nascida de uma costela, responsável pelo pecado original, ela nunca foi redimida daquilo que nem me parece ser pecado: provar do fruto do conhecimento [Gn 3]. Obrigada a submeter-se, sujeitar-se, vista como ornamento, posse, propriedade, a mulher sofre todos os tipos de restrições; ela foi considerada sempre a segunda na ordem natural. Sua salvação viria apenas contrair matrimônio e ter filhos [1Tm 2:15]. Deus não gosta do feminismo. Por isso também o absurdo da proibição do aborto. Permitir que se negue a família? Por nada neste mundo! E o uso da camisinha? Também não é permitido, Onã foi morto por derramar suas sementes no chão [Gn 38:10]. Deus também não gosta de planejamento familiar.
Na longa luta do cristianismo contra o livre uso do corpo e dos prazeres, evidentemente a homossexualidade não poderia sair impune. O sexo, sempre monogâmico, serve apenas à procriação, como então aceitar dois homens ou duas mulheres como um casal? Pecado passível de morte [Lv 20:13], eles não herdarão reino dos céus [1Cor 6:9]. Tudo sempre em vista de negar o uso do corpo, o uso próprio, seguindo suas próprias inclinações, sua própria busca por prazer e satisfação. Pede-se o absurdo, que se negue o instinto que o próprio Deus haveria criado.
Por isso digo: vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne” [Gl 5:16]
O longo capítulo da submissão e da escravidão. A bíblia diz que toda autoridade é divina, portanto devemos sujeitar-nos [Rm 13]. Isso nos leva diretamente aos anos de escravidão com aval da igreja [1Pe 2:18, 1Tm 6:1, Cl 3:22, este último trecho, aliás, bem próximo da recomendação às mulheres de servirem seus maridos]. Me parece uma ode à servidão, muito conveniente para aqueles que estavam no poder. Os próprios mosteiros ainda tinham escravos até meados do séc. XIII, e até pouco tempo atrás ainda se perguntavam se negros e mulheres tinham alma. A religião e política por séculos se misturam (ainda hoje) propagando miséria e servidão.
Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” [1Jo 2:15]
Todas estas infinitas exigências, todos os mandamentos, regulamentos, orientações, prescrições nos levam inevitavelmente à falha. É impossível viver e cumprir com as determinações bíblicas, conclamar o homem a negar a si mesmo é condená-lo à humilhação de pedir perdão constantemente. Mas isso é bom do ponto de vista cristão, doutrina do sacrifício: somos pecadores, culpados pela morte de Deus, seres sujos, eternos miseráveis esperando o dia do julgamento. Esta mola psicológica é o que sustenta o cristianismo e muitas outras religiões: a eterna culpa, a impossibilidade de perdão pelo fato de sermos imperfeitos e pecadores (aos olhos de Deus). Fracos, abatidos, debilitados nos prostramos como ovelhas aos pés de nossos pastores. Ajoelhados, humilhados, pedimos: “Perdoa pai, não sabemos os que fazemos”.
O mundo todo está sob o poder do maligno” [1Jo 5:19]
Como é possível não odiar a vida depois de desprezar tudo que há nela? Como é possível afirmar que o cristianismo é bom? Muito provavelmente os cristãos são bons apesar do cristianismo. O problema, novamente lembrando as bases deste blog, não é se Deus existe ou não, mas os males que a religião pode causar. E se ela não é a grande responsável é ao menos cúmplice. Os gregos tinham Deuses, mas para expressar a gratidão e a benção que sentiam de estar vivos. Neste caso a religião é um excesso de vida. Com o cristianismo se passa o contrário, pena da vida, horror ao mundo, ódio ao corpo.
Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte” [2Co 12:10].
Basta lembrar que o símbolo cristão é um instrumento de tortura. Bem aventurados os pobres de espírito, os que choram, os humildes, os injustiçados, perseguidos e insultados [Mt 5]. Uma religião que sempre olha para a doença, não para curá-la, mas para maldizer a Terra, procurar culpados, amaldiçoar a vida. O cristianismo fere ainda mais fundo e infecciona as chagas. Nós não queremos esmolas. Que resta a nós, ateus, senão negar a negação?
Daí uma empreitada nova e superior para o ateísmo: Meslier negou qualquer divindade, Holbach desmontou o cristianismo, Feuerbach desconstruiu Deus, Nietzsche revela a transvaloração: o ateísmo não deve funcionar somente como um fim. Suprimir Deus, certamente, mas para fazer o quê? Uma outra moral, uma nova ética, valores inéditos, impensados pois impensáveis, eis o que permitem a realização e a ultrapassagem do ateísmo. Tarefa temível e que virá. “
– Onfray, Tratado de Ateologia, p.23-24


