É chegada a hora de pôr um fim à barbárie que consiste em erradicar pura e simplesmente as paixões de onde elas se encontram para esvaziar o homem de sua substância e transformá-lo em cadáver antes do tempo” – Michel Onfray, Escultura de Si, p. 143

Espinosa foi o primeiro a propor uma ciência dos afetos, mas não o último… depois dele vieram um grande número de pensadores que não querem deixar esta ideia genial ser engolida por nossos tempos de entorpecimento e atrofiamento emocional.

Não se pode escapar dos afetos, não sem protelar a própria vida. Se nossas vivências se constituem em um circuito de afetos, como diz Vladimir Safatle, nós complementamos dizendo que é necessário que se criem círculos afetivos para sermos ativos na forma como os afetos circulam dentro de nossa existência. Pois bem, este conceito foi desenvolvido por Michel Onfray.

O filósofo francês propõe a criação de círculos afetivos, onde se pensa mais geograficamente que historicamente. No campo do hedonismo é possível erigir uma ética que tem por fim a multiplicação da alegria e a diminuição das tristezas. Esta nova prática exigirá uma nova sensibilidade, claro, além de depender  de um entendimento (bio)político do afetos.

Toda questão ética passa a ser então a determinação de valores, pesos e medidas. Estamos falando aqui simplesmente de aberturas e compassos. Qualquer discussão ética precisará em um momento ou em outro falar de limites, onde o prazer se torna desprazer? Se pregamos uma ética que consiste em obter e gerar prazer é preciso ficarmos atentos para o caso de cruzarmos estas linhas, algumas têm volta, outras não.

Mas comecemos por uma inocente anedota de Schopenhauer:

Um grupo de porcos espinhos ​​se amontoaram para esquentarem-se em um dia frio no inverno; mas, quando começaram a picar-se com os seus espinhos, eles foram obrigados a se afastar. No entanto, o frio os forçou a reunirem-se novamente, foi quando a mesma coisa aconteceu. Por fim, depois de várias tentativas de se amontoar e dispersar, descobriram que ficariam melhor a pouca distância um do outro. Do mesmo modo, a necessidade da sociedade impulsiona o porco-espinho humano, apenas para se repelir mutuamente pelas muitas qualidades espinhosas e desagradáveis ​​de sua natureza. […] Por este arranjo, a necessidade mútua de calor é apenas muito moderadamente satisfeita; mas então as pessoas não ficam picadas” – Schopenhauer, Parerga e Paralipomena, Volume II, Capítulo XXXI

A moral da história é clara: mantenha a distância correta. Certo, mas ela é aplicada do modo errado, nivelando as diferenças para baixo. Não seria moral, se não o fizesse. Diferente da anedota dos porcos espinhos, Michel Onfray enxerga outras tonalidades para a vida, seu mundo não é pintado em preto e branco, com espinhos e neve nos açoitando. Pobre Schopenhauer, sua síntese ética é um mundo cinza, um medíocre meio termo, onde se tem de um lado um pouco de frio e do outro um pouco de pele perfurada.

Desconsiderar o outro em sua diferença, esse é o pecado de Schopenhauer! O círculos éticos estão muito distante dos pobres porcos espinhos machucando uns aos outros e sentindo frio. Falamos aqui de uma Ética Dispendiosa, solar! O contraponto dos círculos afetivos é a moral da compaixão do pessimista alemão, fundada num igualitarismo, incapaz de se relacionar com as diferenças.

– Jean Tinguely

O hedonismo só é possível às almas já maleáveis, leves e atentas. E, nisso, ele é aristocrático e seletivo” – Michel Onfray, Escultura de Si, p. 145

Há sempre uma ética da doçura como cimento que permite erigir uma construção hedonista. É importante notar como os círculos afetivos são campos de afirmação, não de negação. Partem de um princípio aristocrático e seletivo, não plebeu e apático. O hedonista não compreende o prazer como negativo, ele aprendeu, tal como Nietzsche, a virar o rosto. Se para o cristão o outro é neutro, porque também pecador e sofredor, para Onfray a lógica aristocrática permite:

…na relação com o outro, distinguir por escolha voluntária, eleição singular, aquele que se instala o mais próximo de si, e aquele que se remete aos últimos círculos […] O mundo é assim hierarquizado dentro de posturas móveis, porque nunca nada é adquirido, nem na proximidade, nem na distância. As afinidades superiores são a amizade e o amor, primeiro círculo” – Michel Onfray, Escultura de Si, p. 166

Pois bem, vamos aos círculos:

  1. Primeiro Círculo: aqui se encontram as pessoas cuja proximidade nos é mais cara, mais prazerosa, mais estimada. Amores e amizades, aqueles que nos geram quantidades enormes de regozijo! E aquelas às quais queremos dar o máximo de prazeres possíveis também. Há um princípio de reciprocidade não necessário, mas recompensador. Aqui a ternura é um imã que nos magnetiza e atrai, como a gravidade atrai o Sol e a Terra. Aqui os dois lados ganham.
  2. Segundo círculo: relações de camaradagem, fraternidade, simpatia. Existem pessoas que, mesmo não tão próximas, queremos bem, que estamos dispostos a ajudar e a manter por perto. Pessoas que não necessariamente fazem parte do nosso cotidiano, mas a quem encontrar gera instantes de satisfação. Estamos próximos destas pessoas por questões de afinidades.
  3. Terceiro círculo: relações de vizinhança, relações obrigadas por quaisquer motivos, seja de trabalho, habitação, parentesco, tanto faz. Não podemos fugir de certas relações, temos nossas limitações e impedimentos. Ora, neste círculo encontram-se todas aquelas pessoas com que temos de conviver, mas que, ainda assim, convém certa distância.
  4. Quarto círculo: nele se encontram todos aqueles que são neutros para nós. Neutros no sentido de indiferentes, banais. Simplesmente não cheiram nem fedem. Pessoas anônimas que não queremos nem bem nem mal. A elas damos a nossa educação, mas também a nossa distância.
  5. Quinto círculo: o campo do negativo, o campo do Não, onde os limites foram ultrapassados. Até o segundo círculo falávamos de pessoas enquadradas em um positividade, no terceiro e quarto encontrávamos em um campo neutro, num limiar. A partir do quinto círculo mergulhamos no campo do negativo: inimigos, pessoas que merecem o nosso desprezo, pessoas que tememos, perigos que nos ameaçam…  

Aos amigos, cabe o investimento, a proximidade, intimidade, a busca por momentos de multiplicação da alegria, aos indiferentes o máximo de podemos dar é a educação, a polidez. Já aos inimigos cabe o desprezo, a distância, o virar o rosto.

As afinidades eletivas têm por único objetivo a realização de uma aritimética dos prazeres no sentido de um aumento das ocasiões para jubilar, conjuntamente a uma drástica diminuição dos motivos para sofrer. À proximidade de si se acharão aqueles que nos darão o máximo de prazer e a quem em retorno, trata-se de devolver o mesmo, ao mais longe, àqueles que nos fornecem razões para desconforto e dores” – Michel Onfray, Escultura de Si, p. 169

Com todos cabe uma relação de polidez, mas cada relação terá seu tempero. Dá-se um grande passo quando percebemos que não nascemos para viver só nem em gregarismo, mas que, ao mesmo tempo, não somos como porcos espinhos em uma noite de inverno. Schopenhauer esqueceu que nem todas as relações são negativas. O prazer e o sofrimento como negativo é o embuste de uma vida que falhou, que não encontrou seu lugar ao sol, que está afundada na impotência. Quem mais poderia definir a alegria como a falta de tristeza senão alguém que nunca conheceu uma verdadeira alegria? Lembremos Zaratustra: “Por acaso conheces um instante imenso?”

Para isso Onfray forja uma neologismo: eumetria. A boa distância que permite alegria, a medida certa do envolvimento, e hedonismo de Michel Onfray proposto pelos círculos éticos é a procura da justa medida para a vida. Para isso é necessário ser ao menos um pouco matemático e calcular: quanto obtenho de prazer e dor nesta relação? O lado bom é maior que o lado ruim?

De fato, o hedonismo é um utilitarismo, no sentido algo-saxão do termo, um cálculo de interesse que permite lucros para ambas as partes: suplemento de alma, aumento de volúpias, entesouramentos de prazeres, capital jubiloso e dividendo em matéria de ser. Ele é moral que necessita de um cálculo permanente visando determinar, incessantemente, as condições de possibilidade do máximo prazer para si e para o outro” – Michel Onfray, Escultura de Si, 145

– Jean Tinguely

Gozar e fazer gozar, procurar por alegrias que propiciem outras alegrias, amores que multipliquem amores. Qualquer prazer desconectado do outro corre o risco de tornar-se um prazer contra o outro, às custas do outro, por isso o cuidado em não tomar as vias de um prazer vulgar. Quando caímos nessas ações, nossa conduta deixa o campo do Hedonismo. O prazer está na relação, na troca. Os dutos se conectam para que tudo flua melhor! Livre circulação de fluxos de desejo, de tesão, de escrita, de amor, de beleza, de criação… 

Sabemos que isso não é fácil, talvez só seja possível com uma Ética Dispendiosa, capaz de multiplicar afetos ativos e dividir paixões tristes (veja aqui). Não queremos nos construir às custas dos outros, desta forma só faremos inimigos e concorrentes. Ora, nossa via ética nos leva por veredas que constantemente procura fazer aliados, parceiros, amigos, sempre com o intuito de construir um horizonte de ação, sem hierarquias e sem subordinação. Cooperação em vez de competição, interação em vez de individualismo.

Neste campo de positividades encontramos a amizade como símbolo máximo:

A amizade verdadeira está acima das leis, do direito, das instâncias sociais quer elas tenham por nome Família ou Pátria, Estado ou Nação. Somos amigos antes de sermos cidadãos e, por vezes, apesar e contra o status de cidadão” – Michel Onfray, Escultura de Si, p. 175

A amizade será de agora em diante nossa principal ferramenta. A amizade é a verdadeira máquina de guerra! Amigos amigos, negócios à parte? Às favas com esta forma espúria de se relacionar!  Nossos supostos amigos do livre mercado propõe que tudo seja impessoal: façamos o oposto. É na amizade que nos construímos, queremos nossos amigos perto de nós. Esta é a mais sublime das relações éticas, o encontro de amigos que se valorizam e se respeitam. Aqui encontramos o laboratório de grandes singularidades, onde um alimenta o outro naquilo que ele possui de diferente.

A amizade daqueles mais próximos de nós nos círculos éticos está acima de leis, do direito, das tradições, da constrição social. Não há Estado, família ou divindade que se sobreponha a uma grande amizade. A amizade é o ponto máximo dos círculos éticos, fruto de mútuo consentimento e suportado por ambos os lado, como uma corda de instrumento musical, com suas oitavas e harmônicos singulares.

Medir prazeres, seja esta nossa única necessidade de valoração! Nem deus nem mestre, amigos! Nesta empreitada o prazer é sempre uma bússola, em suas mais variadas matizes. Existe uma sede de experimentação, descobrir novos amigos, novos amores não é coisa fácil. O mesmo vale para aqueles que queremos manter o máximo de distância possível. Círculos Éticos valorizam o campo da diferença, o prazer sexual pode ser mais valorizado em um determinado momento, em outros será o gastronômico, por vezes o prazer auditivo, cada coisa em seu lugar, disposta pelo sujeito ativo e capaz de medir seu Sim e seu Não…

Há graus dentro da intersubjetividade, o aristocrata é aquele que assume essa diferença, coloca-se na frente e vive conforme sua ordem” – Michel Onfray, Escultura de Si, p. 164

Onfray funda com suas proposições uma verdadeira geografia ética, que abre um campo onde as relações e os encontros se tornam possíveis! Os círculos éticos se constituem de camadas atômicas, onde o elétron mais distante é aquele que será arrancado, e os mais próximos é o que mantém a nossa estabilidade.  Enfim, não poderíamos pensar em nada mais a nosso contento.

Veja: Dicionário de Conceitos

– Jean Tinguely

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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