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Minha vontade não resulta necessariamente na minha potência. Daí se originam boa parte das minhas tristezas. É a mera possibilidade, entretanto, que nutre o conatus, o esforço que se dá em mim na direção da realização. Eis porque o triste, apesar de nada me ensinar, não me afasta da vontade de viver. A tristeza quando se dissolve e me proporciona pelo contraste uma dimensão da alegria de que sou capaz, me impulsionando assim a buscar os bons encontros.

Não há obstáculo maior do que aquele posto entre o ser e sua potência. Tão edificante é o que se coloca pela natureza e tão revoltante é o imposto pelo homem e sua organização. A moral que o transcende termina sempre por subjugar este homem que se deixa impedir, ou melhor, que se quer impedido, inválido e doente. Suas criações tornam-se seus grilhões, seu pensamento, suas amarras.

É como o enorme abismo que separa o pássaro que não voa porque não aprendeu daquele que não voa porque cortaram-lhe as asas. Estes pássaros não se encontrarão tão cedo pairando juntos acima da bela infinitude, que é o abismo visto de cima. Enquanto o primeiro certamente voará no momento oportuno, o último sequer sabe se sobreviverá, pois foi mutilado, incapacitado, suprimido e separado daquilo que podia.

No entanto, este delicado pássaro, forçosamente prostrado, busca outros caminhos. Imponente em condição, mas não em natureza, ele dispõe de sua vida, como de um enorme mar de forças revoltas, para tentar subverter o que se lhe impõe e nisto consiste sua riqueza. Este pássaro tentará voar. Sua natureza o conduz à beira do precipício. Do ponto mais alto ele salta, desafia o limite imposto pelo seu próprio peso e, no preciso momento de sua queda, ele tem a certeza de que voa.
Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Música e Filosofia são as linhas que tecem a minha vida...

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Liah
Liah
2 anos atrás

Amei o texto! Muito breve mas bastante impactante para reflexão cotidiana.