Espinosa define três gêneros do conhecimento, sendo o primeiro o mais ineficaz para atingir a liberdade e o contentamento. Todos eles são verdadeiros, mas existe uma hierarquia, uma ampliação. No primeiro gênero de conhecimento, ainda somos passivos, vivemos ao acaso dos encontros, é o que Espinosa chama de opinião, conhecimento por experiência vaga, por sinais ou simplesmente imaginativo.

É o tipo de conhecimento responsável pelas noções universais, pelas leis morais. Sim, isto porque no conhecimento imaginativo os traços se misturam, gerando uma confusão do que é dentro/fora, meu/seu, forte/fraco, bom/ruim. A imaginação é efeito de uma experiência sofrida, um acúmulo de sensações e sentimentos embaralhados, nela, só temos conhecimento do que nos afeta.

Cada um, de acordo com a disposição de seu corpo, formará imagens universais das outras coisas. Não é de surpreender que, dentre os filósofos que pretenderam explicar as coisas naturais exclusivamente pelas imagens das coisas, tenham surgido tantas controvérsias” – Espinosa, Ética II, prop. 40

No primeiro gênero do conhecimento ainda estamos no reino da tolice e da superstição, ainda não temos potência o bastante para pensar naquilo que nos acontece, apenas juntamos e separamos as coisas pelos efeitos que nos causam. O corpo é afetado, mas desconhece as causas que o levaram a ser afetado de determinada maneira.

Ao comer uma maçã, sinto seu gosto, associo ao seu nome, e comparo com outras frutas que como. Através da memória (pela imaginação), passo a juntar todas as maçãs que comi e chamá-las pelo menos nome. Mas a memória é falha, isso porque todos os objetos possuem diferenças entre si, por mais parecidos que sejam, mas não temos capacidade para guardar todas as diferenças, começamos então a confundi-las e julgamos que existem coisas iguais, desta forma, criamos noções universais.

Esses termos surgem porque o corpo humano, por ser limitado, é capaz de formar, em si próprio, distinta e simultaneamente, apenas um número preciso de imagens” – Espinosa, Ética II, prop. 40

Espinosa chama este primeiro gênero de conhecimento de ideias inadequadas (no sentido ruim da palavra, não no que empregamos neste blog). São imagens que formamos através de nossa percepção sensorial, elas são confusas e obscuras. São inadequadas porque não conhecem as relações, mas apenas os efeitos, é o conhecimento dos efeitos. (O cachorro de Pavlov não entende de reflexos condicionados, por isso acredita que a sineta tem efeitos salivantes.)

Criamos ideias juntando o que nos acontece, sem sermos ativos neste processo. Mas a imaginação é incapaz de entender as causas, é mais fácil ficar apenas com os efeitos porque são imediatos. A grande maioria das pessoas nunca sai do conhecimento de primeiro gênero. Chega a ser irônico Espinosa defini-lo como o primeiro e mais simples dos três quando muitos filósofos e cientistas se apoiam inteiramente nele.

O primeiro gênero de conhecimento é então o conhecimento de efeitos do encontro, ou dos efeito de ação e de interação das partes extrínsecas umas sobre as outras. Oh, não se pode definir melhor. É muito claro […] os efeitos causados pelo choque ou pelo encontro de partes exteriores umas com as outras define todo o primeiro gênero de conhecimento” – Deleuze, Curso sobre Spinoza

Ainda presa às noções gerais cujo resultado é a imaginação, o homem reduzido a este tipo de conhecimento ainda opera pela distinção bem e mal. Ele moraliza porque só consegue se localizar no mundo através de noções universais como bem e mal. Não há exceções e ele teme tudo que não consegue categorizar e dispor em uma ordem. Desta forma, o homem tem medo de tudo que foge às leis que criou através de sua imaginação confusa. 

A religião, por exemplo, é uma ideia inadequada formada pela imaginação, trata-se de uma universalização, uma antropomorfização da natureza como se houvesse uma causa universal por trás das coisas. Os profetas adoram imaginar, e quase toda religião se sustenta com base no conhecimento imaginativo. A superstição é consequência de ficar preso a este gênero de conhecimento, sem nunca superá-lo, nunca ir além do que nos acontece. Eu fico no primeiro gênero quando digo “Pedro me fez mal”, e o julgo, “Pedro é mau”; mas para Espinosa isto é como dizer “o fogo me fez mal”, “a pedra que caiu em minha cabeça me fez mal”, e passar a julgar o fogo e a pedra. Ficamos apenas no signo: “o que isso quer dizer? O que significa?”, como se ele indicasse algum dever, algum caminho que deveríamos seguir para sermos felizes.

Espinosa, e posteriormente Deleuze, nos trazem o exemplo do Sol: ele parece muito perto de nós, mas na realidade está a milhares e milhares de quilômetros de distância. A imagem que se forma dele em nossa retina é real, mas sua ideia (de que está perto) é falsa. Se eu entro em relação com o sol apenas com o primeiro gênero do conhecimento eu digo: “o sol é quente”, isso significa que as partículas do sol (os fótons) entram em relação com as partículas da minha pele. Então eu fico sempre na exterioridade: “O sol está perto”, “o sol é quente”, “o sol queima”, “o sol é uma estrela”, “eu amo o sol”. O erro é uma ideia incompleta, a imaginação é uma impotência de pensamento frente ao real, é uma visão parcial e restrita.

Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor”

– Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos, V

Os processos imaginativos impedem que a filosofia avance. Nós apenas o ultrapassamos quando, através dos encontros que fazemos, a potência aumenta; então ganhamos a capacidade ativa de nos relacionar com os objetos exteriores em vez de ficarmos ao acaso dos encontros. A pergunta agora passa a ser: como podemos formar ideias adequadas? Isso se dá através do conhecimento racional (veja aqui).

Os gêneros de conhecimento são também maneiras de viver, modos de existência. O primeiro gênero (imaginação) é constituído por todas as ideias inadequadas, pelas afecções passivas e seu encadeamento. Esse primeiro gênero corresponde, antes de mais nada, ao estado de natureza: percebo os objetos ao sabor dos encontros, segundo o efeito que eles têm sobre mim. Esse efeito é apenas um ‘signo’, uma ‘indicação’ variável. Esse é um conhecimento por experiência vaga” – Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 201

Texto da série: Gêneros do Conhecimento

Van Gogh
Van Gogh, Wheat Fields with Reaper at Sunrise

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

8 comentários

  1. Estou achando muito interessante o texto. Porém tive um problema na página: “isto se dá através do segundo gênero do conhecimento (veja aqui).” Acho que deu um problema no link. Não é possível clicar no (veja aqui) e ir para a próxima página, aonde será exposto o segundo gênero do conhecimento. Aguardo um retorno.

    Estou achando ótimas leituras introdutórias! Parabéns pelos textos!

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    1. Fala Diego!

      Tudo bem?

      Que bom que você gostou! Os textos sobre o segundo e o terceiro gêneros do conhecimento em Espinosa ainda serão postados. Provavelmente nas duas próximas quartas-feiras …

      Abraços!

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