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Já vimos acontecer muitas vezes na história da filosofia e parece que o fenômeno ainda hoje se acentua: os leitores mais diversos têm declarado seu amor por Espinosa. Começando pelos amigos de seu círculo de estudos, passando pelos primeiros editores de sua obra, depois por pensadores como Leibniz, Goethe, Nietzsche, Hegel, Einstein, Deleuze, Borges, Machado de Assis, Nise da Silveira, chegando até nós, hoje, quase 400 anos depois, ainda vivamente inspirados pela novidade de seus pensamentos. O que será que tem movido tantas pessoas a tomá-lo tão intensamente em amizade?

Espinosa não é o único, claro, muitas pessoas deixaram legados que são meticulosamente estudados há centenas, senão milhares de anos. No entanto, parece haver, entre os leitores e Espinosa, um envolvimento digno de nota, pois a relação se dá muito frequentemente de maneira amorosa. Talvez sejamos suspeitos para tratar do assunto. Aliás, pode ser que isso ocorra mais frequentemente entre leitores do que assumimos aqui, mas, de qualquer maneira, entender o motivo dessa hipotética singularidade, pode nos levar a interessantes pensamentos sobre o amor. Para tanto, precisamos ir à definição trazida pelo próprio filósofo:

“O Amor é a Alegria conjuntamente à ideia de causa externa”

– Espinosa, Ética, III, Definições dos Afetos, 6

Para compreender melhor, precisamos decompor o conceito em três elementos mais simples: alegria, ideia e causa externa. A alegria é um afeto, isto é, uma variação na capacidade de pensar e agir de um corpo, que se dá a partir do encontro desse corpo com outros corpos. Enquanto a tristeza é compreendida como diminuição dessa capacidade, a alegria é pensada como ampliação dela. Passando para o segundo elemento, Espinosa define como ideia uma ação que se dá na mente quando ela toma um objeto, seja ele qual for. Assim, dada uma interação qualquer, a mente forma dela uma ideia. Por último, causa externa é o termo que refere uma relação de determinação que se dá a partir de fora de um corpo. A partir destes ingredientes, podemos dizer que o conceito de amor espinosista é, inicialmente, definido como uma ampliação da capacidade de pensar e agir simultaneamente à formação da ideia dessa variação por meio de sua vinculação a um móvel exterior.

Parece complicado, mas é apenas o modo geométrico de dizer: “algo nele me faz sentir bem”, “me sinto melhor perto dela”, entre inúmeras variações possíveis. No entanto, quando descrevemos o amor à maneira de Espinosa, estamos mais do que relatando os efeitos, começamos a compreender o que se passa. Aqui, já podemos esboçar uma explicação para a relação singular entre os leitores e Espinosa: é difícil ler a Ética toda sem perceber a própria relação afetiva com o texto. Conforme aprendemos a dizer melhor aquilo que se passa conosco na relação com as coisas, percebemos pouco a pouco que aquele texto mesmo foi a causa. Somos levados, como que pela mão, a declarar nosso amor por ele e, claro, por seu autor.

Lucrécio dizia que sua escrita era como o mel que os médicos passavam na borda da taça antes de ministrar o remédio amargo às crianças. Assim, ele transformava em poesia os ensinamentos de Epicuro para facilitar a ingestão de tão valiosas ideias. Espinosa é também um sedutor, mas em um sentido bastante diferente. Por mais estranho que isso pareça, ele nos conquista falando de Deus por meio axiomas, proposições, escólios e corolários; sua tática não consiste em uma tradução poética, mas uma tradução geométrica. Ou seja, a Ética fornece uma nova gramática para pensar o mundo. O que Espinosa fez tão bem foi oferecer uma linguagem cuidadosamente polida, livre das manchas que embaçavam nosso modo habitual de pensar.

Vamos retornar ao amor para compreender. Espinosa traz duas maneiras de pensar os afetos. Quando somos apenas uma causa parcial da efetuação de um afeto, ele o chama de paixão. Ao contrário, quando participamos ativamente de sua efetuação, então o chama de ação. Eis a pergunta que não quer calar: se o amor tem entre seus elementos fundamentais a causa exterior, então existe amor que não seja paixão? Dizendo de maneira militante, será que existe uma maneira de transformar o afeto amoroso em ação se ele é sempre movido em nós a partir do exterior?

Esta é uma daquelas perguntas que gostaríamos de fazer ao próprio autor. Na falta dele, consultamos os escritos. Neles, não há clareza sobre a caracterização do amor como ação. No entanto, a alegria é o afeto que, por excelência, dá origem às ações. Para Espinosa, ninguém age por causa da tristeza, pois este afeto leva necessariamente ao padecimento. Será que podemos supor que, quanto mais as alegrias forem ativas, mais será também o amor, visto que tem nelas um de seus elementos fundamentais? Estaríamos ignorando o fato de que, nestes termos, o amor é algo movido desde fora?

Desse problema surge uma questão extremamente interessante. É possível concluir com Espinosa que a maior expressão das paixões no pensamento é a imaginação, definida como faculdade das imagens tomadas como universais. Assim, a título de provocação, podemos pensar no amor romântico como a sobreposição de imagens universais sobre relações sempre locais. Em outras palavras, a relação amorosa entre pessoas está sob o jugo de imagens produzidas pela paixão de todos os tempos, o que significa simplesmente que a compressão confusa de todos aqueles apaixonados se soma às nossas relações como um borrão em nossas lentes afetivas. Nesse caso, questionar esse imaginário não faria mais ativo o amor? Atentar, tanto quanto possível, à própria relação e não às suas imagens – que é o que chamamos em outro lugar de Anarquia Relacional – seria, assim, uma tentativa de tornar mais ativo o amor.

Para concluir, a filosofia de Espinosa parece nos oferecer um bom exemplo daquilo com que tantas pessoas concordaram ao longo da história do pensamento: o amor move contradições. Ele é agridoce, para usar o termo que Anne Carson toma dos antigos gregos. Seja um doce amargo ou uma loucura sã, Espinosa parece ter deixado espaço, ali no meio de sua estrutura geométrica, para a enormidade deste delicado afeto. Talvez seja por isso que temos concordado, nós todos, tão diferentes leitores de Espinosa, em amá-lo.

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Um dos criadores do site Razão Inadequada e do podcast Imposturas Filosóficas, onde se produz conteúdo gratuito e independente sobre filosofia desde 2012. É natural de São Paulo e mora na capital. Estudou música na Faculdade Santa Marcelina e filosofia na Universidade de São Paulo. Atualmente, dedica-se à escrita de textos e aulas didáticas sobre filósofos diversos - como Espinosa, Nietzsche, Foucault, Epicuro, Hume, Montaigne, entre outros - e também à escrita de seu primeiro livro autoral sobre a Anarquia Relacional, uma perspectiva filosófica sobre os amores múltiplos e coexistentes.

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Ramos Sobrinho
Ramos Sobrinho
11 meses atrás

Acridoce… prefiro esta grafia

Joao
Joao
11 meses atrás

Ótimo texto.