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Existem certas ideias ou noções comuns a todos os homens”

– Espinosa, Ética II, prop 38, corol

Ao contrário do que acontecia na imaginação, no segundo gênero do conhecimento, a mente passa a determinar-se interiormente, ou seja, ela passa a organizar as suas afecções de acordo com o que compõe ou decompõe o seu corpo. Atingimos o que Espinosa chama de pensamento racional. Aqui saímos do campo da superstição, ou das noções gerais, para o campo das noções comuns: “é o conhecimento das relações que me compõem e das relações que compõem outras coisas” (Deleuze, Curso sobre Spinoza, p. 245).

As noções comuns são essenciais para a Ética, sem elas o espinosismo não seria possível. Neste gênero do conhecimento, o sujeito passa a entender de que forma as coisas o afetam. A noção comum é o entendimento do que há em comum entre os modos existentes, de que forma eles convêm. Razão é potência de compreender na alma e de agir no corpo, pois são uma só e mesma coisa, ora vista pelo atributo pensamento, ora vista pelo atributo extensão. Corpos compostos entram em relação uns com os outros, têm determinadas relações de movimento e repouso, a razão é capaz de conhecer estas relações.

Exemplo: dizem que uma coisa é boa, mas começamos a perceber que não é sempre que esta relação é boa, às vezes pode ser ruim, depende do modo como nos relacionamos com ela. Entre o primeiro e segundo gênero há um hiato, algo acontece, há um salto. Esse é o salto da razão! Passamos a compreender! “Eureka!, então é assim, funciona deste jeito, entendi as partículas deste corpo!”.

Como conseguiremos formar ideias adequadas, se nos são necessariamente dadas tantas ideias inadequadas, que distraem nossa potência e nos separam daquilo que podemos?”

– Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 102

Conhecer adequadamente é saber como produzir (da mesma forma que Deus conhece e produz tudo que existe). Conhecer que efeitos decorrem de causas é pouco, é necessário que o conhecimento envolva a causa e seu efeito. Conhecimento que se baseia na relação clara entre as coisas, como elas interferem umas nas outras, de acordo com o que há em comum entre elas. A noção comum é necessariamente causa de uma ideia adequada de afecção, é a ideia que exprime a causa. É necessário utilizar o que temos para formar noções comuns, ou seja, o pouco que há de positivo na ideia parcial que é a imaginação. O conhecimento racional repousa inteiramente nas noções comuns.

A razão, no princípio da sua gênese, ou sob seu primeiro aspecto, é o esforço para organizar os encontros de tal maneira que sejamos afetados por um máximo de paixões alegres”

– Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 189

Devemos, então, entender a diferença entre bons e maus encontros (veja aqui). Quando somos afetados por algo de fora, isso gera um afeto. O afeto é a passagem do meu ser para um estado de maior ou menor perfeição. Se nossa perfeição aumenta, então nos alegramos, e Espinosa chama isso de bom-encontro; se nossa perfeição diminui, nos entristecemos, e Espinosa chama isso de mau-encontro. Os bons encontros aumentam nossa potência e portanto nos tornamos mais ativos e mais capazes de agir, já os maus encontros diminuem nossa potência e nos tornam menos capazes de agir.

Quanto maior o número de bons encontros, mais alegres e potentes nos tornamos e também mais capazes de gerir nossos encontros. A composição com outros corpos nos fortalece, o que gera em nós a sensação de felicidade. Esta felicidade é este aumento de potência decorrente da composição com outros corpos; já a tristeza acontece quando parte de nós se decompõe ao ser afetado por outro corpo.

Na medida em que as alegrias passivas aumentam nossa potência de agir, elas convêm com a razão”

– Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 190

Espinosa chama isso de pensamento sem imagem, não está mais no signo (primeiro gênero), mas na relação. É como aprender a dançar ou nadar, é a arte dos encontros! Empregamos nosso corpo de tal forma que entramos em composição com o que está se relacionando conosco.

Quando encontramos um corpo que convém com o nosso, quando sentimos uma afecção passiva alegre, somos induzidos a formar a ideia daquilo que é comum a esse corpo e ao nosso”

– Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 196

O homem racional não diz mais “a água me mata por afogamento: ela é ruim”, mas passa a dispor seu corpo, movimentá-lo de forma, que seu encontro com a água o potencialize: ele aprende a nadar. Isso envolve aprender a entrar no ritmo, encontrar modos de dispor o corpo para que isso gere potência. É um domínio muito mais profundo do conhecimento porque procura encontrar quais as relações de composição que eu posso estabelecer com as coisas. Não a busca pela verdade como um ideal, mas sim a verdade de um encontro do corpo com a própria natureza se expressando.

As leis da natureza não mais aparecem como mandamentos e proibições, mas como aquilo que são, verdades eternas, normas de composição, regras de efetuação dos poderes”

– Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 203

Com o segundo gênero do conhecimento, passamos a entender de que forma as coisas se compõem ou não com a gente. Precisamos aprender a realizar apenas os encontros que nos convêm. Podemos, então, descrever resumidamente o percurso da razão, sua gênese:

Buscamos ativamente aquilo que convém com nossa natureza, procuramos experimentar o máximo de paixões alegres possíveis e evitar as paixões tristes. As alegrias passivas aumentam nossa potência de agir, nascem desejos e paixões, os quais ainda são ideias inadequadas. Enquanto estamos apenas nas paixões, não somos causa direta de nossa potência, mas ainda assim, é das paixões que aumentam nosso conatus que conquistamos essa potência. Isso porque as paixões alegres, quando constantes, aumentam nosso conatus e, logo, nossa capacidade de pensar, nos permitindo formar então nossas primeiras noções comuns. As alegrias passivas, pouco a pouco, nos tornam capazes de alegrias ativas, as ideias adequadas nascem das paixões alegres. Quanto mais aumentamos nossa potência de pensar e agir, com as noções comuns menos universais, que dizem respeitos aos corpos particulares com os nossos, mais podemos formar noções comuns universais. A alegria ativa passa a explicar-se por si mesma, através de nossa natureza e potência de agir. À alegria passiva, somam-se então as alegrias ativas, fruto do pensamento racional que compreende o que há de comum entre nosso corpo e os outros e a melhor maneira de se relacionar, os desejos inadequados (dos quais não somos causa) é substituído por desejos adequados.

É pela razão que somos capazes de ações alegres, nunca pela tristeza! E quanto mais ela compreende, mais ela se alegra de contemplar sua própria potência de pensar e de agir adequadamente. Pouco a pouco, a natureza substitui os signos, a razão substitui a religião, o amor substitui a obediência. O pensamento racional é como a liberdade, leva tempo e precisa de cuidado, porque demora para ficar maduro.

Para fins ilustrativos, utilizaremos o mesmo exemplo do último texto: com o segundo gênero do conhecimento, passamos a entender como nos relacionar com o Sol: passando protetor, frequentando a praia das sete às dez da manhã, embaixo do guarda-sol, não olhando diretamente para ele. O sol não é bom nem ruim em si mesmo, depende de como nós nos relacionamos com ele, depende de como as partículas do nosso corpo entram em relação com as partículas solares. Ele pode ser ótimo, nos bronzeando, iluminando e ajudando o cálcio a se fixar; ou horrível, nos queimando e ocasionando câncer de pele. Adquirimos, assim, uma compreensão prática do sol.

Deleuze define Espinosa como um filósofo prático, talvez pelo segundo gênero de conhecimento, onde a razão nos ensina como agir no mundo. Mas ainda falta o terceiro e último gênero : o intuitivo (veja aqui).

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Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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AntimidiaBlog
7 anos atrás

Republicou isso em reblogador.

jorio eduardo maia
7 anos atrás

Realmente, a mente e o corpo representam um esforço pra se sentir bem . Portanto a vida do sábio spinozista é saber, dentro dos seus limites produzir bons encontros para mente e para o corpo. A liberdade está vinculada portanto ao conhecimento. Quanto mais conhecermos sobre nós mesmos e nossa relação com a natureza mais podemos determinar nosso comportamento.
Grande Spinoza!

gersonferreira
gersonferreira
3 anos atrás

Assim,Percebo, sinto e entendo o sol afetar minha mente com uma clareza spinozista. Valeu Rafael !