Devemos ter ou ser?“. Quatro palavras, quinze letras, uma interrogação e muito, mas muito trabalho para conseguir respostas. Devemos ter ou ser? Para responder, seria interessante desmembrar a pergunta em partes; mais precisamente, um parágrafo para cada palavra.

Primeiro: devemos? Acho que não, não devemos nada. A pergunta já começa errada, queremos cada vez mais nos distanciar do dever. Se começamos com o dever, terminaremos criando leis e mandando alguns muitos para a forca. O que deve ser, é o que é, caso contrário seria diferente. Se somos ou temos, é porque aconteceu assim. O dever não serve pra muito coisa, a não ser criar a culpa. Então o começo é fácil, não devemos. Mas podemos trocar o dever por alguma outra palavra: convém ser ou ter? Condiz ser ou ter? É melhor ser ou ter? … dever não, esta palavra lembra muito a obrigação, o peso da responsabilidade da qual não se pode fugir. Então está decidido, vamos mudar a pergunta para “convém ser ou ter?”.

Segunda palavra: ter. Ah, alguns odeiam esta palavra. “Consumistas!”, eles gritam. É complicado, afinal, temos o nosso corpo, não temos? Ou será que somos nosso corpo? Temos nosso braço, alguns não tem, temos a capacidade de falar, alguns não tem. Quando perdemos algo que temos, passamos a ser outra coisa? Acho que estou ficando confuso. Convém ter? Talvez a resposta seja: precisamos ter: ter comida, ter calor, mas até onde vai a necessidade de ter? Convém ter na medida em que achamos necessário, mas as medidas andam tão desmedidas hoje em dia. Pra ser sincero, esta é a palavra que eu menos desgosto, “ter” pode ser também “ter felicidade”, “ter um amigo”. Quando temos, podemos guardar, mas podemos dar para alguém, e assim a vida segue.

Terceira palavra: ou. Eu também não vou muito com a cara desta palavra. “Ou isso ou aquilo“. Mas por que não os dois? Troquemos o “ou” pelo “e” e tudo fica mais interessante. Ao invés de escolhermos, multiplicamos as possibilidades! Com esta mudança, considero a questão quase resolvida: “convém ser e ter”. É isso! Acho interessante! Estaria disposto a aceitar esta resposta como uma boa solução para o problema. Mas não seríamos a Razão Inadequada se não fôssemos além disso…. então, vamos continuar!

Muito bem, quarta palavra: ser. Estaríamos inclinados a escolher esta opção no lugar da segunda… não é? Mas esta palavra também me incomoda. Afinal, já escrevemos tantas vezes sobre a Ditadura da Identidade (veja aqui). Ser algo é muito… imóvel. Mas na real, é chato, chato mesmo, simplesmente isso. Sim, é parado demais… o verbo ser é a morte do estar. Começamos com “ele é honesto“, e ao sinal da mínima mudança já o estamos condenando por ter mudado. “Você não era assim“… pois é, não era, mas agora é, e aí? Eu não gosto do verbo ser, ele parece algo esperando acontecer.

E assim, chegamos ao fim da questão: não devemos nem ter nem ser. Sabe o que convém? Devir. Muito melhor que a obrigação de ser algo na vida, ser honesto, respeitado, reconhecido, é devir. Muito melhor que ter dinheiro, fama, carros, é devir. O movimento é o que mais convém, não parar, não desacelerar. Se transformar, se multiplicar, se refazer, tornar-se, vir a ser. Devir e devir…

Devemos ser? Devemos ter? Devemos devir? Convém devir! Pois bem, devimos devir!

- Matheu Ribs
– Matheu Ribs

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

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