A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor” – Tom&Vinícius

Se o devir-nuvem falava da capacidade de se desterritorializar, de deixar territórios, de buscar por novos encontros, então precisamos pensar: aonde tudo isso vai dar? Afinal de contas: onde nos reterritorializamos? São dois lados da mesma moeda – uma vida – que busca efetuar encontros e para isso precisa ir e vir, chegar e partir, pousar e voar. Porque não se vive apenas das alturas.

O conceito devir nuvem foi criado para responder uma pergunta: o que é o amor? Como escapar dos amores pesados? É preciso tornar-se leve, mas não leviano. Haveria outra resposta senão evaporar? Pois bem… nasce um conceito. Mas um conceito sempre se conecta com outro. Nos tornamos nuvens, afastamos nossas moléculas para deixar o fora entrar, adquirimos altura, ganhamos intensidade, experimentamos e vivenciamos novas maneiras de existir. Tudo com o intuito de escapar do peso e da gravidade dos amores condensados, pesados, compactados.

Mas até onde podemos ir na desterritorialização? Quando é hora de dizer chega? Falamos muito do devir nuvem, claro, porque realmente é importante suavizar o amor, desterritorializá-lo e desplatonizá-lo das amarras sociais. Mas uma pergunta fica, ironicamente, no ar… aonde e quando nos reterritorializamos?

O devir orvalho é um conceito! É chegada a hora de descer… depois de muito planar, vemos a terra como um grande mapa de afetos possíveis! Os ventos nos levaram por caminhos novos, mas quem disse que o solo também não está cheio de promessas? Prezamos por um amor possível! Depois do devir nuvem, queremos devir orvalho… aprender com o silêncio da noite, onde a gota d’água adormece na superfície da planta.

Apertem os cintos, faremos contato com o solo! Não sabemos exatamente onde, mas queremos criar um novo território, traçar planos. O céu é demasiadamente disperso, queremos um pouco de consistência também! O azul turquesa pede para encontrar-se com o marrom telúrico. Nas alturas, tudo se torna excessivamente confuso, desalinhado, impreciso. Até mesmo os hiperbóreos precisam de um pouco de coerência e constância.

O orvalho é a necessidade de colocar os pés no chão, sentir a terra vibrando. Mesmo a fuga pede descanso, mesmo o vento senta numa esquina para tomar fôlego. A nuvem quer reterritorializar-se, aterrar-se para não confundir-se com o caos! Ela quer fazer parte do processo ativo de crescimento da vida. A nuvem quer devir-orvalho, no sentido de encontrar-se com a planta e experimentar sua superfície.

Após todas as vivências, é necessário cultivar-se, dirá Nietzsche, para saber o que é seu e o que não é. É preciso um pouco de cais no caos. Um porto que ofereça conforto. Nem só de desmedidas vive o criador, nem só de excessos vive o afirmador, nem só de esquizos vive o imanente, nem só de fluxos vive o rizoma.

O devir orvalho fala do encontro entre supostos opostos. Como todo devir é um encontro, nele cada um vivencia a experiência de uma maneira absolutamente singular e por isso transforma-se. O orvalho pernoita na pétala, para recarregar as energias ou simplesmente porque adora o encontro com aquilo que tanto difere dele. Amor pela diferença. A folha sustenta a gota d’água, porque ama seu frescor, porque admira sua mobilidade, ou simplesmente porque quer mergulhar na diferença de reinos. O orvalho desce do céu, a planta, sobe da terra. Tudo se faz no meio do caminho, no entre, mas o meio é entretantos… difícil saber onde vai dar. Ainda assim, cada um pede apenas que seja eterno enquanto dure, porque sabemos que não podemos impedir o tempo de fluir.

O esquecimento que vive
Entre o orvalho da tarde.
E o orvalho da manhã”
– Fernando Pessoa

Há prazer em partir, já sabemos, mas há também prazer na chegada. “Como estão as coisas por aqui?“, “O que mudou, o que há de novo?“, “Seu cabelo cresceu…“; o amigo é diferente depois de anos no exterior, a casa na praia está mudada, o antigo relacionamento é outro quando o encontramos em uma festa ou para tomar um café. Às vezes se pousa em outro lugar, e é ótimo, porque novos territórios oferecem novas perspectivas, horizontes mais abertos; “O que isso aqui faz?“, “Pra que serve aquilo?“. A casa dos pais é diferente da república, que é diferente da cidade nova para a qual nos mudamos.

O orvalho se reterritorializa para ver o sol nascer junto com a folha, eles querem passar este momento juntos, aquele se alimenta das complexas correntes de ar, este, da solo fértil aos seus pés. O devir orvalho é mútua admiração, mútuo respeito e cada um o vive de maneira diferente, tanto de um lado quanto do outro. A gota d’água anseia pela luminosidade para partir em novas aventuras; mas quando faz noite, quando faz frio, a nuvenzinha pede por uma cama verde e viva para descansar um pouco.

Por isso nossa vontade de, quando a claridade chega, sairmos correndo e abrirmos as cortinas: queremos ver o orvalho que se depositou durante a noite, enquanto dormíamos. Somos amantes dos encontros. O orvalho ama a vida, por isso acorda na borda de uma verde folha. “Mas o frio da noite mata o verde da planta“, dizem os pessimistas à espreita, limitadores de devires. E nós respondemos: “Não, a planta pede pelo orvalho, porque é viva e forte o bastante para acolhê-la e sustentá-la consigo”. Não há hierarquias, um não é melhor que o outro, há apenas conexões de desejo.

A grande pergunta é aonde chegaremos com isso tudo? Estamos fugindo do que? Ou será que aprendemos a criar finalmente linhas ativas de fuga, onde o ponto de chegada multiplica os horizontes da existência? Queremos tornar o amor possível. Aprender a reterritorializar o desejo em um solo fértil para produzir mais desejo. Será que conseguiremos? Não sabemos responder a esta pergunta, é tudo uma questão de onde vamos pousar! O grande problema de afirmar o resultado, sem ressentir-se, deixando-se levar por novos ventos ou permitindo que os ventos nos levem de volta.

Um pouso forçado ou planejado não impede de levantarmos voos cada vez mais audaciosos! O devir orvalho é um trampolim, ele abriga sem prender, acolhe para levar adiante, é uma catapulta de afetos que multiplica as possibilidades de vida. Ao pousar, trazemos um presente de vidas anteriores; ao partir, levamos conosco os afetos, o toque. A doçura do encontro recarrega nossas energias e traz o doce frescor da eternidade.

Auras que já se foram
grato pela graça
a graça que eu acho
em tudo que fica
por tudo que passa”
– Paulo Leminski

> Texto da série: Am@r <
> Texto da série: Ética dos Devires <

 

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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