A representação não é, de fato, um veículo da democracia, mas sim um obstáculo para sua realização, e devemos considerar como a figura do representado se junta com a figura do endividado, do mediatizado e do securitizado, e, ao mesmo tempo, condensa o resultado final de sua subordinação e corrupção” – Hardt e Negri, Declaração, p. 40

O Rei
O Rei

A figura do Representado é capaz de resumir e colocar explicitamente o problema da crise da subjetividade moderna. Se Hardt e Negri se empenham em desconstruir estas figuras é para criar rotas de fuga, para que estas subjetividades não mais fechem as possibilidades do homem de agir e pensar. O representado, por ironia do destino, é o maior representante do homem constrangido, passivo, paralisado…

A representação é, ao contrário do que muitos pensam, a própria morte da democracia. Os políticos se defendem: “é melhor assim, a democracia representativa é a grande conquista de nossa época“. Mas eles não entendem que votar é abdicar, escolher líderes é abdicar de sua potência política, alienar-se e deixar outros decidirem o seu destino.

Quem são nossos magnânimos representantes? O Endividado coloca no senado, na câmara e na presidência eleitos que fazem parte da classe mais abastada e detentora de riquezas. O Securitizado coloca no poder políticos ditadores que reiteradamente fazem discursos militaristas de medo e repressão. O Mediatizado se coloca constantemente em uma posição passiva frente a uma mídia completamente anti-democrática e parcial. Para finalizar, o representado coloca no poder alguém que não o representa. A contradição é flagrante.

A campanha política se tornou um show, o senado e a câmara um jogo de interesses. A representação nos dá a ilusão de participar da vida política e de fazer a diferença quando na verdade ela homogeiniza um corpo social que permanece apático. A representação define hoje de tal modo a democracia que falar de uma participação popular e governo de todos para todos caiu na ordem do utópico (ou do louco). Somos loucos ou escravos que escolhem seus próprios senhores?

Nossa forma de governo não passa de uma piada! Representação? Onde? As mulheres, os negros, os índios, os migrantes, os pobres, todas as minorias: quem os representa? Todos queixam-se da representatividade por uma motivo muito simples: ela não representa nada! Em quem você votou na última eleição? Ele está te representando bem? O voto inclui ou exclui? No desgoverno do governo, o povo é excluído por medo.

A representação vale para eles como uma espécie de vacina para proteger dos perigos da democracia absoluta: ela fornece ao corpo social uma pequena dose controlada de governo popular, com isto inoculando-o contra os temíveis excessos da multidão” – Hardt e Negri, Multidão, p. 306

A representação liga apartando, associa separando. E alguns teóricos chamam isso de dialética… O Representado é a figura apolítica por excelência, nele só encontramos o desinteresse pela vida comum. O contrato é um sequestro de potência: assiná-lo nos torna menores, coadjuvantes daquilo que nos acontece, segundas opiniões de nossos próprios destinos, reféns de nossa própria liberdade. “A natureza associativa das relações sociais é transformada num isolamento apavorante“.

Quem será o primeiro a gritar “vocês não nos representam“? Quem será o primeiro a dizer: “Meu voto não é de ninguém, meu poder de decisão cabe a mim e somente a mim“? Os regimes de representação estão gastos, ninguém acredita mais em eleições. Nosso modelo político é tão velho quanto as mentiras eleitorais que nos contam. Há a demanda forte e constante de uma nova constituição! Como podemos nos associar para debater e decidir assuntos em comum?

O poder não deve vir de cima, mas sim brotar da multidão, nascer e crescer de baixo para cima, do caldo de subjetividades e singularidades. Um político não deve temer o povo nem um povo de temer seus políticos: a própria política deve ser o povo que se associa não por medo, mas pela vontade de juntar-se e constituir um todo mais forte e competente. A democracia não é a votação onde os mais fracos devem obedecer ao maior número de votos, a democracia é onde o comum age em sua própria singularidade, respeitando suas diferenças. A campanha pelo voto nulo, as manifestações de rua, os conselhos horizontais e populares apenas provam isso com mais e mais força. O parque augusta é um ótimo exemplo.

É preciso constituir-se. Criar uma subjetividade política que não seja regida pela demanda do controle.  Nós desprezamos o botão verde que “confirma” nossa impotência! Estamos vivos, queremos discutir, queremos mecanismos de participação coletiva, queremos devir políticos! Com um sorriso amarelo, nos arrancaram das mãos a “responsabilidade” de fazer política, aprisionando nossas escolhas ao voto com a desculpa de que não sabemos fazer direito. É tempo de reivindicar:  a vida sempre resiste, basta ver como e onde investir.

“Só podemos governar todos quando o fazemos com iguais poderes, livres para agir e escolher como nos agrada” – Hardt e Negri, Multidão, p. 305


Não vota,
Se revolta.

Volta à luta, volta a gritar,
“Povo mudo, não muda”,
Mas a urna não aceita
“Nem Deus, nem Mestre”.

Lá do alto
Ninguém vê:
A justiça é cega.
Ninguém escuta:
O eleito é surdo.
Ninguém fala
Com a boca
Na botija.

O show não pode parar…

No gabinete,
O vereador é vendado,
O deputado é comprado,
O Governador, desgovernado.
Mas na Lei, o poder é do mais fraco.

Nos acostumamos
A viver no escuro,
Sem luz, sem água,
As pernas cansadas,
A boca seca…

Quem vota nulo
Não volta sem nada,
Desvalida o inválido
Circo da esplanada.

Na democracia
Do santo e do diabo
Do sujo e do mal lavado
O voto nulo é válido.

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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