Vinícius e Toquinho
Vinícius e Toquinho

A vida é a arte dos encontros, embora haja tantos desencontros pela vida”

Vinicius de Moraes nasceu no dia 19 de outubro de 1913 no Rio e morreu em 8 de julho de 1980, com 66 anos. Foi compositor, cantor, poeta, amante, crítico de cinema, cronista, boêmio e, nas horas vagas, diplomata. Drummond disse que Vinicius “foi o único de nós que teve a vida de poeta. Talvez por isso seja tão valioso ouvir o que ele tem a dizer sobre a “arte dos encontros“.

O início da vida de Vinícius foi marcada por uma grande quantidade de mudanças, sempre pelo bairro do Botafogo, cada hora ele estava em uma casa nova. Cresce no Rio de Janeiro, estuda direito e lá publica seus primeiros livros de poesia. Vinícius ingressa no meio artístico como crítico de cinema. Com 31 anos, torna-se diplomata. Teve ao todo nove casamentos, viajou por várias cidades do mundo como diplomata (até ser aposentado compulsoriamente pelo regime militar) e teve uma enorme quantidade de parceiros na música: Carlos Lyra, Francis Hime, Edu Lobo, Chico Buarque, Pixinguinha, Ary Barroso, Adoniran Barbosa, Baden Powell, Toquinho e por aí vai. Conclui-se daí que Vinicius de Moraes realmente entende da “arte dos encontros” e desenvolveu como poucos o que chamamos de medida do envolvimento.

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Pixinguinha, Caymmi, Vinicius e Baden

Vinicius de Moraes tinha sede de viver. “Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu…”. Talvez por isso o poetinha sabia tanto da vida.  Ele soube escolher, aprendeu a encontrar a medida certa de si mesmo para com os outros; sempre estava na hora e no lugar certo. Sua vida é uma eterna busca por bons encontros, mesmo em face da enorme dificuldade de encontrá-los e mantê-los. Nunca estava parado esperando a vida acontecer, pelo contrário, fazia sua hora, pulava de cabeça.

Por que casar-se tantas vezes? Ora, porque é possível amar inúmeras vezes. “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure…“, e Vinicius sempre amava verdadeiramente e sofria verdadeiramente ao término de cada relação. Por que tantos “parceirinhos”? (ele costumava chamar a todos que gostava pelo diminutivo) Porque Tom Jobim é Tom Jobim e Toquinho é Toquinho, cada parceiro tem seu tempero, sua cabeça, seu instrumento, cada um deles tem algo diferente para ensinar, mostrar, buscar. Por que viajar tanto? Porque em cada país, em cada cidade, encontra-se uma rima nova, um amor novo, uma paisagem diferente.

Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia”

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Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Como fazer da vida uma aventura errante sem aprimorar-se na arte dos encontros? Deleuze chamaria de agenciamentos: o lugar certo, a pessoa certa, a bebida certa, o violão certo e pronto. Maximizar um encontro, aprimorá-lo, transformar a amizade, a música, a culinária, o amor, na arte dos encontros. Criar um conjunto, tecer o instante. Vinicius soube eternizar seus momentos, por isso pode dizer com enorme propriedade: “Meu tempo é quando”.

Ele sabe da dor, e, tal como Epicuro, ele resiste à dor, o poetinha sabe que a dor é o tempero da vida (veja aqui). “Às vezes, pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva. Mas que eu devo resistir, que é preciso…“. Ó Vinicius, grande deve ter sido a sua dor ao fim de cada casamento, cada parceria, cada estadia em uma cidade. Mas você, mesmo sem entender completamente, sempre soube que a vida é maior.

Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão…”

Vinicius sabe que a vida é dura, ele viu a dor nos olhos de seus camaradas, ele escreveu e denunciou a vida difícil de seus compatriotas, ele sentiu a dor que as mulheres sentem, os trabalhadores sentem, os solitários sentem, um coração partido sente. Sim, “são demais os perigos desta vida“, mas ele não se deixou contaminar. Para qualquer ressentido que o procurasse para maldizer a existência, ele diria: “É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe“. Nós sabemos, poetinha, mas é sempre bom ouvir este conselho, principalmente vindo de você. Vinicius de Moraes não brincou com o amor, nem com a vida, nem com a dor; mas, principalmente, procurou sempre cuidar, e muito, dos encontros que fazia.

Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida”

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Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

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