Sou doida, sou maluca, sou avogada, sou essas 4 coisas… mas porém, consciente, lúcido e ciente… e sentimentalmente.  Só comecei a revelar em ’86, a revelar de verdade mesmo, porque era muito abuso. Por isso é que eu estou aqui revelando que o cometa tá na minha cabeça.  Sabe o que significa a palavra “cometa”?  Comandante!… comandante natural. Comandante.

A força da criação se espalha por todos os lugares; a vida, ela mesma, resiste e se reinventa, e cria o tempo todo. Preenche de existência e potência os corpos mais marginais e os lugares mais inóspitos. Aliás, é nesses corpos e nesses lugares que parece haver uma abertura maior para que as forças se atualizem: de frente pro abismo já não corremos tanto o risco de sermos capturados. Estamira diz: “determinados astros perversos, astros negativos, tá com raiva do cometa porque o cometa achava que ele não deveria procurar uma carcaça como a minha”. Os tais astros nada sabem de força, de comando, de direito. Eles pensam em representação, pensam por figuras, esperam por autorização. Para além disso tudo, Estamira comanda – ela pode. Como uma máquina de guerra, uma máquina de combate perpétuo ela diz: “Eu sou Estamira!”.

13Quem vê sua figura, acha que ela representa um tipo, logo se ofende. Sente-se agredido por ela. Não consegue enxergar a força reinventada nela. Mulher, negra, louca, catadora, mãe, avó. Ela está bem além de seus títulos, ela não permite que projetem nela qualquer besteira. Quem toma Estamira por esquizofrênica, só o faz pelo lado triste, ignora a potência que vem dessa ruptura dela consigo. Uma potência de inflamar-se, de “capturar a verdade e tacar na cara!”. Uma revolta que permitiu a ela recusar ser a filha abusada; a esposa traída e conformada; a pobre explorada; que permitiu a ela recusar “Deus e seus deboches”; para só então afirmar Esta-mira.

“A minha missão é revelar a verdade, doa a quem doer”. Por isso ela pode falar sem medo. Exemplo do Parresía, exemplo de quem não pede licença para se quem é! Estamira fala em nome próprio, não precisa do aval de Deus, do analista, da Lei ou do psiquiatra. É impossível desqualificá-la a partir da perspectiva dos afetos

A psiquiatra e o filho de Estamira não entendem. Precipitam-se num julgamento: “ela é possuída pelo demônio”. Perdem tempo tentando aconselhar, no sentido mais pérfido possível: o daquele que aconselha por caridade, o daquele que negocia ajuda sob a condição do rebaixamento do outro. Mas Estamira não é boba. Ela sabe que “o homem é o único condicional”. Não há lei que ultrapasse o corpo, não há limite que não seja imposto pela vida, ela mesma. Não tem igreja nem remédio que potencializam mais o corpo dessa mulher do que a vida no aterro.

Lá ela “faz o dinheiro”, lá ela “está em todo lugar”, seu território, sua população, seu povoamento, o auge de sua vida. É no “Sr. Gramacho”, o lixão, que Estamira vive conforme sua verdade. “Eu não tive sorte, nenhuma, a minha sorte foi morar no lixão“. Do lixo ela cria o dinheiro. “Dinheiro? eu faço! Olha aqui eu fazendo dinheiro“. Nela a potência se cria e se faz presente, exemplo de auto-poiésis.

Eu transbordei de raiva. Eu transbordei de ficar invisível com tanta hipocrisia, com tanta mentira, com tanta perversidade, com tanto Trocadilo, eu, Estamira. As doutrina errada, trocada, ridicularizou os homens, ridicularizou mesmo, é isso mesmo, e vai me pagar! Entendeu? Fez o homem expor ao ridículo pra eles. Fez do homem pior do que um quadrupolos. Então que deixasse os homens como fosse antes de ser revelado o único condicional”

No lixão não existe moral. “Bonito, é o que fez e o que faz.  Feio é o que fez e o que faz“. Feio é o “esperto ao contrário“, o que “joga a pedra e esconde a mão“, o negador por excelência, o “trocadilo”, ele é o incivilizado. Estamira tem muitos inimigos, mas nenhum à sua altura, eis a sua tristeza. À sua volta, apenas “robôs sanguíneos”, homens repletos de humanidades: homens trabalhadores, homens escolados, homens de ciência, homens de poder. Estamira é mais uma voz a acusar a inversão de valores nas nossas vidas modernas. “Que Deus é esse? Que Jesus é esse? Não é ele o próprio trocadil12o? Quem fez o que ele manda, largou de morrer? largou de miséria? largou de passar fome?

No lixão, há “restos e descuidos”. É isso um lixão, um “depósito de restos”. Parece que Estamira encontrou os restos de nossos valores, de nossa vida decadente, de nossa potência em frangalhos. Estamira taca o lixo de volta, na cara, acerta em cheio. Ela diz “Não adianta. Ninguém vai mudar o meu ser”. Lição de resistência.

Estamira escapou dos maridos, escapou de Jesus, escapou dos filhos, escapou das internações, escapou dos medicamentos e há quem, para completar a frase, diga ‘terminou marginalizada’. Pois nós dizemos, ‘colocou-se à margem’, traçou uma linha de fuga, outro corpo, outra razão. A dor, a loucura, o sofrimento psíquico são intensos, mas fazem surgir uma bela chama. Bem diferente da vida pouco intensa, mediana e anestesiada dos ‘sãos’.

Ai, manter controle, manter controle. O cometa é grande, é por isso que eu passo mal, a carcaça, a carne. Porque ele é muito grande. Ele não é do tamanho que vocês vê. Ele não é lá em cima não, ele é aqui embaixo. Lá, o que vocês vê é o reflexo. A lua é lá no morro acolá, ó. Não é lá, não, assim, não, é o reflexo, é o contorno. Ai, manter controle, manter controle. Ai, Ai.

Estamira tem o ímpeto das queimadas e a força dos temporais. É destruição criativa. É a transvaloração em ato. Estamira transformou o ressentimento em combustível e inflamou-se na dureza de uma vida sem sorte: “eu sou o fogo e sinto ele me queimar”. Ela não é uma coitadinha, não choraminga, não implora, não bajula e não pede reconhecimento, é a voz do lixão. Estamira, a beira do mundo. Estamira, a visão de cada um. Estamira, cor e formosura. Estamira, ruindade sem crueldade. Estamira, formato homem par. “Eu, Estamira, tenho muitos sobrenomes…

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Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

7 comentários

    1. Cada um fala o que pensa e acredita. Seja por fuga, fé, remorço, condicionamento ou atenção.
      Mas a verdade, só quem vive, convive, conviveu e viveu.

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