Não podemos fazer um voto de pobreza sem antes limpar o terreno ao redor do conceito. Precisamos de um novo conceito de pobreza, um que nos leve necessariamente a uma transvaloração da riqueza e à descoberta de uma nova subjetividade chamada Pobre. Precisamos afastar desse conceito algumas ideias sempre ligadas a ele e ligar outras coisas, permitir outros fluxos por entre suas articulações.

Comecemos por afastar do nosso voto a negação cristã. Não, não somos negadores –  temos na vida a única opção de afirmá-la. Deixemos de lado o engrandecimento da alma pela recusa da materialidade. Recusemos só quando for para afirmar mais. Ética do trabalho? De maneira nenhuma. Ética, simplesmente. Nada de engradecimento pelo trabalho, enobrecimento pelo sacrifício, purificação pela recusa… Essas são justamente as ideias que favorecem a massificação do Pobre.

John Holcroft
John Holcroft

Além disso, é preciso afastar da ideia de Pobreza a ideia de Miséria. Como? Descobrindo a verdadeira falta. Precisamos mapear as faltas e os excessos, encontrar onde a falta foi produzida em nós, cobrir os buracos do nosso desejo. Precisamos restringir a falta ao campo da necessidade, acabar com a miséria. Precisamos garantir que nosso corpo esteja bem nutrido para que tenhamos saúde para criar. Mas, será que realmente sabemos quais são essas necessidades? Quanto estamos dispostos a sacrificar para descobrir?

Um voto de Pobreza não é um elogio da miséria, é uma recusa da miséria. Principalmente porque começa por recusar as porcarias que nos oferecem! Se nos querem miseráveis, é porque estão explorando nossa miséria. Nosso corpo doente é a fonte de poder de uma série de dispositivos.

Proponho um principio de explosão do conceito atual de pobreza. Que é isto? Um princípio de explosão é uma ideia que dada sua potência, torna inadequado o conceito à qual se liga. É uma ideia que pede por uma reinvenção do conceito, uma explosão, que pede pelo avesso. Como ser ativo na produção de riqueza sem explorar ninguém? A única resposta plausível parece ser:  vivendo do próprio trabalho; ou, o que é quase a mesma resposta,  associando-se numa relação de mutualismo.

Assim, uma definição de Pobre pode ser: aquele que vive do próprio trabalho, quando assumimos que o trabalho é a produção de riqueza, claro. Parece simples, mas não é. Para que tenhamos um uso efetivo desse conceito precisamos de práticas, estratégias para que possamos pôr em marcha uma nova subjetividade.

John Holcroft
John Holcroft

Iniciemos pela recusa mais óbvia. Se somos Pobres, não vivemos do trabalho de ninguém. Podem usar a palavra exploração ou parasitismo, como quiserem. O que aprendemos de mais valioso com essa obviedade é que por trás da recusa há uma afirmação. Percebam como o caminho para a negação da exploração passou antes pela afirmação. Sigamos desta maneira… Um não, por um sim.

Celulares, televisões, carros, eletrodomésticos, crediários em eterna renovação? Não, afirmemos o Reduzir, Reutilizar e Reciclar. Precisamos prestar atenção à palavra “Novidade”, ou “Lançamento”, há nelas uma grande chance de captura. Vendem-nos comidas velhas em novas embalagens. E como pagamos por isso? Com o nosso tempo! Precisamos combater o ritmo acelerado da obsolescência, estamos ligando nosso ritmo ao das máquinas da fábrica, precisamos buscar outro tempo.

Precisamos desviar dos pedágios. Assim funciona o Estado, ele coloca postos de captura entre a vida e a sua efetuação. Ele interrompe o fluxo das coisas para dele tirar proveito. Busquemos alternativas não estatais e estaremos desviando de impostos, taxas, encargos … Claro que não é simples. Estamos envolvidos pelo Estado, eles nos tomou tanto que agora somos um pouco dependentes. Ainda bem que ainda não nos tomaram por inteiro, podemos resistir. Não podemos nos entregar rendidos à máquina estatal – ou capitalista.

Não podemos ceder à vontade de ser ricos. A riqueza atual é apenas um jeito pouco seletivo de existir, ela cria uma subjetividade pouco produtiva. Cometendo o pecado da generalização, pensamos que a riqueza cria seres entregues ao mimo, à vida fraca. Empoderados pelo dinheiro, os ricos só reproduzem valores monetários e relações monetizadas. São câmaras de eco da lógica do mercado. Precisamos ir além.

Desse ponto de vista, o que é ser Pobre? O que é a Pobreza? Que subjetividade pode emergir desse conceito? Primeiro, um autônomo. Alguém que preza pelo trabalho “informal” (eis o nome que usam para os trabalhos que fogem à forma), alguém que recusa os “privilégios” de ser empregado. Não precisaremos de 13º, nem de férias, nem de participação nos lucros se tirarmos os intermediários do nosso caminho. O que nos servem como privilégios trabalhistas são na verdade armadilhas, são cordas com as quais nos amarram ao trabalho.  Um autônomo não faz concessão, nem se sacrifica ao trabalhar, pois sabe que depende só de si mesmo (ou na versão coletiva, da própria comunidade).

Segundo, um criador de valor. Alguém que ultrapassa os valores meramente monetários. Alguém que aprende a produzir as próprias intensidades, que busca outras relações, que se associa, que coopera, que troca. É alguém que redescobriu a moeda. O ouro é só uma pedra rara e brilhante, as notas são pedaços de papel, as contas bancárias só tem números. A riqueza é algo mais, é um processo de criação de valor.

Alguém que não deve nem empresta, mas dá ou toma. Pois nunca se dá o que falta, muito menos se toma o que tem de sobra, aí reside a potência da Pobreza. A figura do Pobre é aquela que tem verdadeiras possibilidades de encontrar a própria força de produção. O que, por sua vez, é muito melhor do que tomar os meios de produção, pois não queremos mais produzir as mesmas coisas. Queremos inventar outras riquezas. Recusar a riqueza, por afirmar a pobreza. Agora sim, esclarecidos, podemos dizer com todas as palavras, sem medo.

Em todos e em cada um dos períodos históricos, um sujeito social que está sempre presente em toda parte é identificado, em geral negativamente mas apesar disso urgentemente, em torno de uma forma de vida comum. Esta forma não é a dos poderosos e dos ricos: eles são apenas figuras parciais e localizadas, quantitae signatae. O único “nome comum” não localizável de pura diferença em todas as áreas é o dos pobres. O pobre é indigente, excluído, reprimido, explorado – e ainda assim está vivo! É o denominador comum da vida, o fundamento da multidão.  (Negri&Hardt, Império, p.174)

Steve Cutts
Steve Cutts

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

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