Acredito no Deus de Espinosa, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens. Todos podem atingir a religião em um último grau, raramente acessível em sua pureza total. Dou a isto o nome de religiosidade cósmica e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico” – Albert Einstein

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Sabemos que Einstein foi religioso a seu modo, à maneira de Espinosa, mas muitas vezes perdemos a dimensão do que isto quer dizer. Assim como também já ouvimos a frase “Somos poeira das estrelas” de Carl Sagan, mas perdemos a profundidade e o peso destas palavras. Os físicos e filósofos podem ser pessoas extremamente apaixonadas pela existência e suas mais diferentes manifestações. Mas eles rezam? Podemos até mesmo dizer que sim, mas de um jeito diferente do que estamos acostumados.

A realidade é mágica, como diz Richard Dawkins, mas não no sentido do sobrenatural. Dizemos que a realidade tem sua magia porque ela é extraordinária, inacreditável, poderosa, majestosa, impressionante. E quanto mais aprendemos das coisas mais confirmamos esta afirmação. A realidade tem um toque de divino, e dizemos isso sem vontade alguma de cair em uma servidão, numa dependência para com estes Deuses criados à nossa imagem e semelhança.

Ora, os gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram por esta religiosidade ante o cosmos. Ela não tem dogmas nem Deus concebido à imagem do homem, portanto nenhuma Igreja ensina a religião cósmica. Temos também a impressão de que hereges de todos os tempos da história humana se nutriam com esta forma superior de religião. Contudo, seus contemporâneos muitas vezes os tinham por suspeitos de ateísmo, e às vezes, também, de santidade. Considerados deste ponto de vista, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Espinosa se assemelham profundamente” – Albert Einstein

Falamos aqui do Deus de Espinosa, partimos dele para chegar em nós. Não falamos de uma entidade separada do mundo, muito menos de um ser com características parecidas com as nossas (capaz de odiar, se vingar e julgar). O Deus de Espinosa é a realidade, é a potência de criação constantemente renovada (veja aqui). Deus é o mundo; Deus e a natureza, as duas são palavras para uma única e mesma coisa. E como Deus é infinito, nada pode existir fora dele. Tudo que existe está em Deus, as estrelas, os planetas, nós, os mares, as montanhas, cada molécula, cada átomo que existe faz parte da criação divina que cria a si mesma.

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Ou seja, os filósofos, os físicos, os químicos e os astrofísicos são profundamente religiosos, eles abrem o livro do mundo para entender a criação e o criador ao mesmo tempo. Porque Deus não se afasta de sua criação, ele é sua criação, criador e criatura são a mesma coisa, eis a imanência pura.

A bíblia ensina como ir para o céu, mas como é o céu” – Galileu

Ao olharmos por um telescópio, estamos olhando o passado de Deus; ao olhar uma estrela em seu equilíbrio delicado, transformando hidrogênio em hélio, estamos entendendo como a natureza divina se comunica com suas partes, e mesmo ao focarmos um microscópio para melhor observar as menores porções de realidade, ainda estamos olhando para Deus. Procuramos as medidas, as maneiras pelas quais Deus é, os modos pelos quais a criação de afirma.

Nós, seres limitados por natureza, exprimimos parte da potência infinita de Deus (veja aqui). Sim, somos parte desta potência que se manifesta de maneira limitada no tempo e no espaço, mas nossa essência eterna está em Deus. Vemos o mundo como contingente e imprevisível porque somos pequenos demais, mas nós sabemos e nos sentimos parte da eternidade. Isto porque nós e o universo estamos intimamente conectados, sim, nós somos feitos de Universo, ele está literalmente em nós!

A natureza é nossa casa e na natureza estamos em casa. Este mundo estranho, diversificado e assombroso que exploramos, onde o espaço se debulha, o tempo não existe e as coisas podem não estar em lugar algum, não é algo que nos afasta de nós: é somente aquilo que nossa natural curiosidade nos mostra da nossa casa. Da trama da qual somos feitos nós mesmos. Somos feitos da mesma poeira de estrelas de que são feitas as coisas, e quer quando estamos imersos na dor, quer quando rimos e a alegria resplandece, não fazemos mais do que ser aquilo que não podemos deixar de ser: uma parte do nosso mundo” – Carlo Rovelli, Sete Breves Lições de Física

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Em nossa árvore genealógica está a explosão de uma estrela. Os elementos em nosso corpo são estrelas mortas; isso não é uma metáfora, é literal! Sim, todos os elementos que temos na Terra foram feitos no núcleo das estrelas e espalhados pelo universo através de explosões magníficas chamadas de supernovas.

O ciclo de vida do Cosmos acontece passando por explosões de estrelas que espalham elementos mais pesados no universo. As sementes semeadas no espaço são a fonte de nossa vida. Primeiro porque nós precisamos de seus elementos para existir; e segundo porque o hidrogênio restante forma novas estrelas que nos alimentam com sua energia.

Que grande beleza é descobrir que esta magnífica realidade não está apenas lá longe, no céu, nas galáxias, mas também à nossa volta, nós também somos parte dele. Somos feitos dos mesmos materiais que constituem o universo! Se Deus é isso, somos partes de Deus! Tudo isso, vale a pena repetir, não é metaforicamente falando, é literal! Não precisamos de Bíblias, nem Torás, nem Alcorões com histórias, lendas e alegorias. Podemos olhar para o livro do mundo. Nós somos feitos de matéria estelar, somos poeira das estrelas se alimentando de luz das estrelas. Estamos mergulhados e implicados inextrincalvelmente na existência.

Por isso Espinosa dizia que o conhecimento é o mais potente dos afetos. Saber é algo que nos trás muitas vantagens, muita potência, muita alegria! E mais, o saber que nos liga a este mundo e a esta vida nos torna profundamente religiosos, ao modo de Einstein, Sagan, Espinosa e outros. O fato mais impressionante é o conhecimento que nos liga à existência.

Estrelas entraram em colapso e explodiram, nós não passamos de estrelas mortas olhando de volta para o céu; isso significa que uma supernova continua existindo através de nós, “é preciso dar lugar a uma estrela brilhante” (Nietzsche, Assim falou Zaratustra), e quando olhamos para o céu à noite nos sentimos profundamente conectados com o todo.

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Se um Deus Criador existe, Ele ou Ela, qualquer que seja o pronome adequado, vai preferir um bronco que adore sem nada entender? Ou vai preferir que Seus devotos admirem o universo verdadeiro em toda a sua complexidade? Sugiro que a ciência é, pelo menos em parte, adoração informada. Minha crença profunda é que, se existe um deus do tipo tradicional, nossa curiosidade e nossa inteligência nos são dadas por esse mesmo deus. Não estaríamos fazendo jus a esses dons se suprimíssemos nossa paixão por explorar o universo e nós mesmos” – Carl Sagan, Variedades da Experiência Científica

Estamos no universo, somos parte do universo, mas o mais impressionante é que o universo está em nós. Este sentimento pode nos tornar profundamente religiosos. Isso nos mergulha de tal forma na existência que nos sentimos eternos! (veja aqui) Sim, somos poeira das estrelas, olhando e nos alimentando de sua energia, a eternidade do universo se afirma em nós. Os átomos que hoje constituem nosso corpo já pertenceram a outros seres vivos, e nos alimentamos deles, de sua energia acumulada. Cientistas como Einstein e Sagan fazem esta ligação entre nós e o Universo: religião, religare, “unir, atar firmemente“, “Laço entre o humano e o divino“. E faz de nossa vida, como disse Alberto Caeiro, uma oração.

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Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

13 comentários

  1. Sou Espírita e os espíritas não acreditam nesse deus criado pelas igrejas com forma de ser humano, mas num DEUS UNIVERSAL que envolve todo o UNIVERSO e se manifesta em todas as partes …….(DEUS é a causa primária de todas as coisas e a inteligencia SUPREMA DO UNIVERSO).

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  2. Um dos textos mais belos que já li. Você conseguiu conciliar muito bem os conceitos e perspectivas da filosofia de Espinosa, com a visão de Einstein e Sagan ressignificando, pelo menos para mim, o conceito de religioso – do que é relativo a veneração ou ação religiosa de uma entidade eterna e além das condições humanas e materiais, para um significado que permita pensar a religião como uma ação própria de conhecimento e conexão entre o homem e o cosmos. A ideia de uma união (religare) ou conexão da base da natureza a qual somos parte com cosmos, constitui uma postura digna de admiração. Diria até que a oração, nesse caso, torna-se mais um estado de veneração pela conexão estabelecida entre uma consciência que dispõe-se a conhecer sua natureza e reconhecer-se como parte de todo universo que também é. Grato pelo texto e pelas reflexões suscitadas!

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  3. Muito bom.
    O conceito de Nzambi Mpungu mantido no Brasil nos candombles de origem bantu é semelhante ao de Spinoza. Está em tudo é muito além. Pode ser inclusive o Deus tradicional criado pela necessidade de reconhecer – Se em algo superior e pela ignorância de que fazemos parte deste todo e somos ao mesmo tempo adoradores e adorado

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  4. Se há indícios da existência de Deus, dessa inteligência criadora, outros não são que fujam a concepção de Einstein/Spinoza. Quem realmente quer ir além dessas crenças infantis de deuses e santos, não tem outro caminho que não seja a de se ver como parte do universo e desta inteligência difusa e imanente. Um Deus pessoal. que cuida de rebanhos só mesmo através de crenças fundadas na insegurança das pessoas.

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  5. Por gentileza, Rafael Trindade, tenho uma perguntas:
    Se esse Deus se manifesta na aparente harmonia que existe no universo, qual e o propósito de tal harmonia? Visando o beneficio de quem? Se existe harmonia, existe o caos, então pode existir mais um Deus antagônico ao que se manifesta na harmonia?

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    1. bom, Daniel, acho que posso responder com Espinosa e Einstein…. eles acreditavam que só existe a harmonia, o caos é na verdade a nossa ignorância de como esta harmonia se dá =D

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      1. Aconselho ler os livros de Marcelo Gleiser. As definições atuais sobre Astrofísica e Cosmologia são bem mais aquém do proposto por Einstein para explicar diversos fenômenos após sua Teoria da Relatividade. O problema da singularidade é basicamente uma simulação caótica do funcionamento do Universo. As hipóteses de unificação quântica e relativística se mostram ainda mais distantes quanto mais se experimenta e quanto mais se experimenta mais hipóteses surgem para suprir lacunas gerando outras lacunas. Mais dúvidas geram mais dúvidas que respostas. Einstein estava certo quanto sua equação de onda e funcionamento do Universo, mas basicamente, ele só iniciou o jogo de dominó. Sua concepção ondulatória do Universo apenas mostrou como poderíamos simulá-lo relativamente à terra. Tudo o que temos basicamente não condiz com a realidade e quanto mais nos aproximamos da realidade, mas percebe-se o quão distante e complexa ela é. Basicamente, tratar de harmonia serve apenas para criar um texto artístico e filosoficamente bonito, quando o Universo é literalmente um Caos.

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  6. Acho que é mesmo preciso pensar filosoficamente para compreender a antinomia ordem e caos. A física, sendo uma ciência, lida apenas com uma parte da realidade. Está condicionada à sua forma de abordar determinada parte do real. Em todas as suas áreas, a ciência procura o que é mensurável, quantificável, um objeto, uma coisa, uma relação de causa e efeito. Só a abstração intelectual desinteressada, própria do pensar filosófico, permite compreender intuitivamente como toda a ordem é aparente e o caos condicionado.

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