Toda força se expressa em um plano ao qual é indissociável. Como o som precisa de um meio para se propagar, uma força de precisa de uma relação por onde se estender. Da mesma forma que não há som no vácuo, não há força sem relação. Um acontecimento, isto é, uma transformação no tecido de forças de um mesmo plano depende de um deslocamento. O lugar de um acontecimento é tão importante quanto o próprio acontecimento. Ou melhor, não há acontecimento à parte de um lugar que o acompanhe e que o dê forma.

Um bom som, com altura definida, timbre singular é uma verdadeira força ativa. Fruto da mais alta atividade criativa, uma força dominante. Já a Acústica é uma questão reativa. Ela reage ao som que recebe. A história da humanidade é também uma história do mal cultivo das forças reativas. A música aprendeu que não há bom som sem um espaço adequado, ou seja, não há corpos sadios sem um bom cultivo das forças reativas. Nem só de forças ativas sobrevive um corpo. É preciso que as forças de conservação estejam em seus devidos lugares. É necessária uma ciência para as elas, precisamos bem dispô-las para que elas não acabem contra nós.

Sem um bom ambiente, não há possibilidade de consistência. Um som não se mantém em propagação sozinho: há uma física dos reflexos, da absorção e da difusão. Uma combinação dessas técnicas produz o lugar adequado das forças. Produz mesmo uma nova força, uma força ambiente, uma tendência de organização. O caos caotiza, ele desfaz toda consistência, lembram-nos Deleuze e Guattari. A arte (bem como a ciência e a filosofia) enfrenta o caos sem deixar de ser sua filha. Ela invoca o caos por meio de objetos finitos para afirmar dele o infinito, eis sua grandeza.

A Acústica é o princípio de organização sem o qual nós não conseguimos enfrentar o caos. É o bom trato das forças reativas. É a resistência à tendência destruidora das forças caotizantes. É o cuidado de si no seu sentido reacionário. Digamos mais uma vez, um corpo não vive apenas com forças ativas. É necessário aprender a lidar com a reatividade. A Acústica é uma arte das defesas. A atenção de um corpo com o vital, o necessário, o inevitável; só assim é possível criar, produzir o inédito, o acontecimento.

Jackson Pollock, 1941
Jackson Pollock, 1941

São três técnicas que fazem da Acústica uma soberana da reatividade:

  1. Reflexão é o endurecimento. É uma imposição de limites. O que não devemos deixar passar? Quando devemos abrir os poros e quando os devemos fechar? O esquecimento é uma técnica reflexiva. Esta técnica é capaz de propagar as forças com a mesma intensidade, mas em outra direção.
  2. Absorção é o oposto. É uma suspensão de limites. Mas é também uma técnica dos excessos. Àquilo que passa, perguntamos: o que excede? O que pode-se capturar do que nos atravessa? É a honestidade que se impõe ao dadivoso. Tomamos de empréstimo o plus de força para que nos tornemos também potentes.
  3. Difusão é o disfarce. Não se pode devir-imperceptível sem difusão. A difusão se complementa à reflexão, mas de modo disforme. Ela é metamórfica. Capacidade de transformação das forças que recebe. O camaleão é um difusor. Não dominaremos as forças reativas se não soubermos passar ao largo de alguma delas.

As três técnicas estão numa relação de resistência à negação, que é o verdadeiro perigo das forças reativas. A negação somada à reatividade produz a vida niilista, fraca, impotente. Ressentimento, Má Consciência e Ideais Ascéticos são forças reativas que produzem verdadeiras armadilhas. É sempre triste quando essas forças estão no comando.

As técnicas da Acústica se opõe justamente às três forças da negação:

  1. Absorção e Ressentimento são forças reativas em sentidos opostos. O espaço do ressentimento é o da memória, o da preservação. Onde o tempo se suspende em assuntos de peso infinito. Uma inflamação no centro da alma. A incapacidade de absorver, de esquecer, de deixar passar gera o ódio ao ativo. O som quer atravessar, saber ser afetado de alegria é para poucos. O esquecimento é também uma capacidade de absorção.
  2. Reflexão e Má Consciência são forças reativas em sentidos opostos. A culpa só atinge àquele que não sabe se blindar. Tornar-se uma superfície dura é importante. Não absorver, não se deixar afetar por forças dominadoras e negativas. Ser um espelho para as representações que nos impõe de fora. Há forças reativas que devem ser repelidas. Saber rebater, se defender usando a força contra ela mesma.
  3. Difusão e Ideais Ascéticos são forças reativas de sentidos opostos. Esfacelar os ídolos, quebrantar os padres é a força da difusão. Multiplicar as verdades, devir-mutagênico. A difusão é a verdadeira técnica de apoio da transvaloração. Transformar um em múltiplo. Criar um sem número de novos harmônicos para cada um recebido. Espalhar-se como rizoma para cobrir melhor todo o ambiente faz com que os ideais não tenham porta de entrada.

Quem é o mestre da Acústica? Aquele que cultiva o melhor ambiente. Onde o som pode tomar-se em livre curso. Atravessando, rebatendo, difundindo as forças reativas. Produzir o melhor timbre depende disso tanto quanto do instrumento que o produz. Um corpo só alcança a vida ativa tendo sobre rédeas curtas as forças reativas, tendo o ambiente em suas mãos, ouvindo os predadores, observando os movimentos, sentindo as variações na pele.

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

2 comentários

  1. Deriva molecular, o n-1 sentido, como andando entre bordas, por conjuntos em contágio, devir matilha, grunhido, vários “mitos” (representações do imaginário sobre a vida) apontam o som como princípio de algo… A voz, arrastada no ritornelo ressoa ecoando dentro de vãos do próprio peito e quando passa espremida ou solta pela garganta encontra na língua e nos lábios a forma que emoldura o timbre, o vibrar das variações… Se a teologia é limitada por não haverem lobisomens, não se poder devir animal, é também simplista ao relegar o anjo do canto às profundezas do abismo enterrado para expor em cátedras ecoantes as notas de precisão superficial, vazias de vida selvagem, humana demais pra devir natureza (onde está a natureza? quem aponta? vemos partes ou o todo? que todo existe além da palavra “todo”? um não todo, n-1, como nuvem… “natureza” é também uma palavra, e “palavra” é aquilo que se explica com o conjunto que nomeia…

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