O tema que você toca no começo de uma canção é o território, e aquilo que vem depois, e que pode ter muito pouco a ver com o primeiro, é a verdadeira aventura” – Ornette Coleman

Dicas para a leitura do texto:

  1. Ouça a música e depois leia o texto;
  2. Ouça a música enquanto lê o texto;
  3. Leia o texto no mais absoluto silêncio e depois ouça a música;
  4. Del capo et finit;

* Este texto pode ser lido como se fossem notas em uma partitura, ou uma canção que se escuta de olhos fechados (leia de olhos fechados estas linhas musicais!)

Clarinet, Gil Mayers
Clarinet, Gil Mayers

Deleuze e Guattari assim definem a filosofia: criação de conceitos (veja aqui). Sai de cena o filósofo contemplador, admirador (que, como Tales, cai no buraco por ficar olhando as estrelas). Agora o filósofo é um experimentador, um alquimista, um louco talvez com sua razão inadequada, perambulando e inventando conceitos, fazendo novas conexões, linhas de fuga. O filósofo é agora um músico de jazz improvisando melodias!

Seguiremos com Deleuze e Guattari apenas para abandoná-los, seu tema exige variação, são cadências onde improvisamos a nós mesmos. Mas antes nos deixaremos ser contaminados por sua filosofia, contagiados por sua vibrações; tocaremos sua música, ressoando com outros conceitos, e buscaremos entender o que querem dizer com ritornelo.

Criamos ao menos um conceito muito importante: o de ritornelo” – Deleuze, Abecedário

Seguindo primeiramente a linha da mais absoluta didática, podemos separar o ritornelo em três momentos não consecutivos (ora… ora… ora…):

  • Ora se sai do caos para constituir um território, ou seja, um agenciamento territorial. “Uma criança, no escuro, tomada de medo, tranquiliza-se cantarolando […] Esta é como o esboço de um centro estável e calmo, estabilizador e calmante, no seio do caos” (Deleuze & Guattari, Mil Platôs 4);
  • Ora se organiza um agenciamento, traçando um território em torna de um centro delimitado. “Foi preciso traçar um círculo em torno do centro frágil e incerto, organizar um espaço limitado […] componentes para a organização de um espaço, e não mais para a determinação momentânea de um centro. Eis que as forças do caos são mantidas no exterior tanto quanto possível, e o espaço interior protege as forças germinativa de uma tarefa a ser cumprida, de uma obra a ser feita” (Deleuze & Guattari, Mil Platôs 4);
  • Ora se abandona este centro do agenciamento territorial e se sai em busca de outros agenciamentos. “Agora, enfim, entreabrimos o círculo, nós o abrimos, deixamos alguém entrar, chamamos alguém, ou então nós mesmos vamos para fora, nos lançamos […] Dessa vez é para ir ao encontro de forças do futuro, forças cósmicas. Lançamo-nos, arriscamos uma improvisação. Mas improvisar é ir de encontro ao Mundo, ou confundir-se com ele” (Deleuze & Guattari, Mil Platôs 4);

São nestes três aspectos que o ritornelo se constitui, não são fases são ênfases: territorialização, desterritorialização, reterritorialização. Sempre se habita um destes momentos, mas eles se interpenetram. O ritornelo é um ponto em um buraco negro, é a criação de um centro no caos (ou Caosmos); construção de um território onde se sinta em casa; e enfim é um lançar-se, abandonar-se, improvisar-se. Abre-se uma clareira dentro da floresta, constroi-se uma cabana, mas todos os dias se sai para caçar, ou ir à cachoeira, ou escalar uma montanha.

Aboriginal Jazz, Gil_Mayers, 1997

É o ritmo que marca o território, são os meios de expressão, é a qualidade harmoniosa dos fluxos. Não é uma questão de medidas, mas sim de ritmos; impor ritmos, dar cadências, organizar velocidades. O ritornelo é um agenciamento territorial, é todo um conjunto de expressões e contrapontos que se desenham num ritmo. Mas é também o próprio movimento de passagem, por isso ritmo e não medida, é o próprio sair de seu terreno, criar trilhas. O território não se separa das linhas que o atravessam, por isso ele está sempre aberto para o caos. É como construir sua casa na beira do abismo.

Podemos falar então de uma nova perspectiva ética, que se dá através da experimentação, uma ética nômade, ética dos devires, em movimento, que sai em busca de novos territórios: uma geo-ética, ética da experimentação. O ritornelo aponta sempre para uma possibilidade de fuga de um território, abrindo-se para novos encontros, mas ao mesmo tempo, uma “voltar para casa”, fechar a porta e tirar o pó dos móveis.

O grande ritornelo ergue-se à medida que nos afastamos de casa, mesmo que seja para ali voltar, uma vez que ninguém nos reconhecerá mais quando voltarmos” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?

Mas nunca volta-se para o mesmo território, não se encontra um “eu primitivo”, existe uma tensão permanente que permite a mudança constante. O (eterno) retorno, mesmo que para seu próprio território, é ainda um retorno que se dá na diferença. A geo-ética é um plano de experimentação, é a linha de fuga que o desejo abre. O desejo é um fluxo que faz agenciamentos coletivos, faz variar (já escrevemos sobre o desejo aqui). Tudo, claro, com prudência.

E nesta fusão entre experimentação e prudência encontramos um terceiro termo que nos convém: improvisação. Viver é como uma música de jazz, você sai, mas depois você volta, o tema está lá, subjacente. Mas a volta já não é a mesma, já não estamos no mesmo lugar quando retornamos ao tema, o acorde que inicia não é o mesmo que termina, por mais que seja o mesmo, possui tensões diferentes.

Tangerine_Gil_Mayers_1997
Tangerine, Gil Mayers

O ritornelo é a experiência da improvisação no jazz, é o sair de casa, sair do tema e, a partir disso, experimentar as possíveis linhas de fuga em cima do território criado. É sair pela porta, dizer “já volto“, dar uma volta no quintal, ver o quarteirão ao lado, continuar andando e voltar a si somente a quilômetros de casa. É criar frases que vão cada vez mais longe, não como o filho pródigo, mas como os animais que migram mas retornam exatamente ao mesmo local.

E não se trata absolutamente de ressonâncias? Não se trata de encontrar a nota certa para o acorde? Enfim, não se trata de improvisar em cima de um território? Somos músicos de jazz, não sejamos monótonos, há uma infinidade de acordes, escalas, arpejos para experimentar! O jazz é o movimento nômade em um território musical, a ética é o movimento nômade pelos territórios de afetos. Deleuze criou toda uma possibilidade geográfica para a música, arte e filosofia, cabe a nós explorá-las.

As notas musicais são como a água – elas tomam a forma de quem as está usando. O seu Dó pode fazer alguém chorar, mas o Dó de outra pessoa pode fazer alguém rir. Esta é a beleza da criação: não temos que seguir a mesma linha para conseguir o mesmo resultado” – Ornette Coleman

> Este texto faz parte da série Esquizoanálise <

> Veja também: “O amor em ritornelo” e “Filosofia em Tom Maior” <

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

7 comentários

  1. Belíssimo texto,instigante tbm,apesar de acreditar q o jazz improvisa sobre algo dado anteriormente,talvez o improviso seja mais aparente,ou um belo esboço,podemos saber onde começa e termina o jazz…mas se pensarmos a música atonal,serialismo,dodecafonismo e tal,ai a coisa fica mais interessante…

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