A guerra prolongava-se, já havia nove anos que a cidade estava cercada. Foi então os gregos tiveram uma ideia: a única maneira de atravessar as fortificações troianas seria se eles próprios abrissem as portas para os gregos entrarem. A inteligência se sobrepondo à força, ou melhor, o entendimento da força que tem um pensamento. Um grande cavalo de madeira foi construído, empurrado até as portas da cidade e deixado como presente de guerra… simulando uma retirada.

Homero conta que os gregos era protegidos por Atenas, deusa da sabedoria. Talvez tenha sido ela quem primeiro pensou no conceito de máquina de guerra, nunca saberemos. Mas com certeza foi sua voz que soprou nos ouvidos gregos a ideia do Cavalo de Troia. Não existem muros fortes o bastante para se considerarem impenetráveis, sempre há um mínimo de trocas, de fluxos, todo muro é uma membrana plasmática, mesmo os feitos de pedras e concreto.

Existem pensamentos que são colocados em nossas cabeças sem que o saibamos! Eles passam por nossas barreiras mentais, nossas resistências, nossas barragens cheias de impedimentos e suspeitas, para deitarem pé e fundarem um reino. Quando menos esperamos, é aberta a caixa de Pandora… os troianos aprenderam do pior jeito.

O Cavalo de Troia é genial porque dobra-se e desdobra-se, em vez de percorrer uma linha reta. É todo um novo nível de complexidade que se apresenta aqui, não uma tecnologia primitiva como uma flecha ou uma bomba atômica; o Cavalo de Troia dobra o orgulho, a soberba, a fleuma do oponente, utilizando-a contra ele mesmo. Ciência dos afetos… conceito psicológico-político. Nem toda força segue uma linha reta.

Nós queremos fazer como os gregos fizeram com os troianos! Sim, porque nós sabemos que certas atitudes e certos pensamentos só podem chegar se forem envelopados por uma capa de bom mocismo e palavras doces, ou pelo menos uma aparência de inofensivo. A genialidade do Cavalo de Troia está no modo como ele destrói os alicerces de tudo que está constituído e vai arrastando as coisas em seu caminho, mas chega, lembrando Nietzsche, com pés de pomba. No começo, tudo parece lindo, claro, mas a grande surpresa é o segundo ato, quando baixamos a guarda e percebemos que fomos enganados.

O conceito do Cavalo de Troia é simples e complexo ao mesmo tempo! Ele dá provas de que muitas vezes o ser humano é dobrado mais facilmente por seus afetos que pela força física. Ele se mostra uma boa tática para momentos de fascismo generalizado (veja aqui). Uma máscara que nos protege e nos permite ir além, um segredo alegre. Ele é o pensamento que fica ecoando na cabeça de nossos inimigos, e também um lembrete útil para nossos aliados!

Como qualquer arte marcial, que usa a força do oponente contra ele mesmo; como o judoca, por exemplo, que deixa o oponente tentar derrubá-lo para levá-lo ao chão com ainda mais precisão, queremos nos aperfeiçoar nesta habilidade de andar disfarçados para chegarmos até onde não poderíamos ir normalmente. Carregar o kimono na mochila, mas a prática nos movimentos. Queremos levar o desafio um nível além, andar sobre ovos, dançar sobre ovos! Queremos um devir imperceptível para levar a palavra, a audácia, a subversão onde ela jamais teria acesso direto.

Sim, o Cavalo de Troia é a frase que fazemos nosso tio fascista dizer, que ele mesmo só vai lembrar quando estiver escovando os dentes à noite. “Eu disse mesmo isso?”. Sim, o Cavalo de Troia é o anarquista na escola pública, que planta uma semente de liberdade num espaço de vigilância e punição, quando seus alunos percebem sorrateiramente uma arte de não ser tão controlados assim. O Cavalo de Troia é o manifestante que pede mais do que direitos, porque está cansado da velha relação senhor-escravo. Claro que podemos usar os direitos a nosso favor, mas para termos mais que isso!

O Cavalo de Troia seduz, mas também conduz! Porque sabe que o que as pessoas mais se importam é com as aparências! Ah, nós também estamos preocupados com a aparência, mas para fazer chegar o conteúdo! Para deixar mais claro ainda, eles estão preocupados com a Moral, nós, com a Ética. Eles querem presentes, nós, devires-revolucionários.

Nos coloquem então dentro do governo! No Planalto Central! Nos coloquem dentro dos partidos! Dentro do gabinete do prefeito, se possível! Não estamos procurando por uma pureza essencial! Não precisamos procurar um campo neutro. A vida se faz no meio do jogo! No próprio campo de batalha, no tabuleiro onde constantemente as peças se movem. Podemos lutar onde quer que estejamos, não importa, somos nômades, fazemos fugir em vez de fugir. Se pudermos fazer um pensamento chegar, um pensamento que mova, que transforme, que crie, então os fins justificarão os meios!

Lembrando uma anedota cínica, um raio de sol não se torna impuro por penetrar as latrinas. Do mesmo modo, queremos ser levados para dentro da casa do inimigo, seja pela timeline das redes sociais, por livros com capas chamativas ou até mesmo pelas antenas e satélites das grandes redes de televisão.

Uma questão importante de se lembrar é que não há mais fora, estamos sempre dentro, no campo do desejo, das forças, de poderes e potências. Sim, e neste campo, qual a nossa estratégia? O combate franco nos parece tolice, precipitado, ingênuo. Os ouvidos já foram roubados, colonizados! Mas nos coloquem dentro da escola, prisão, exército, manicômio, convento, e verão o que podemos fazer. Nos coloquem dentro de um grande conglomerado empresarial e o estrago será ainda pior!

Mas cuidado! O mesmo podemos esperar deles, quem quer que “eles” sejam. Não pedimos para o fascismo estar conosco, mas ele está no meio de nós! E por “meio” queremos dizer simplesmente em nossas micro-relações. Precisamos ter cuidado, porque a qualquer momentos podemos baixar a guarda e deixar que pequenos presentes gregos nos infectem! Ah, não nos enganemos, o poder também tem seus micro-meios de contágio.

Enfim, o Cavalo de Troia é um conceito para ser usado por uma força que se torna flexível, que enverga, mas não quebra. Esta elasticidade faz parte de uma leveza que muitas vezes precisa se disfarçar para preservar-se e continuar movendo-se sem gastos desnecessários de energia. É esta a máscara que Nietzsche diz que os filósofos colocaram na Grécia antiga, escondendo-se atrás dos ideias ascético para intensificarem seu pensamento. A aparência de fragilidade, de um pensador inofensivo que na verdade age por contágio, por viralização, molecularmente.

Ninguém espera, ninguém dá nada, mas quando soa a meia noite… BUM! De dentro da barriga do cavalo saem cem soldados, que driblam a guarda como sombras e abrem os portões para os nômades entrarem! Eles buscam a aurora andando livremente em campo inimigo, transformando e transvalorando as relações antigas e retrógradas! O Cavalo de Troia sabe filosofar à sombra do niilismo! Nossa intenção? Ora, não poderíamos ser mais claros: encontrar uma lógica viral indetectável, mas indefectível, que se propague pelo campo, se ampliando, se dividindo e contagiando.

O vírus é um Cavalo de Troia, ele entra na célula e usa suas próprias ferramentas contra ela. O poder é impotência e sempre quebra em seu elo mais fraco: acreditar que esta fraqueza é força. Cheio de soberba e vaidade, ele abre suas portas acreditando ser idolatrado, mas não sabe que está prestes a ser destruído.

Veja nosso “Dicionário de Conceitos

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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