Eu não tenho paredes, apenas horizontes” – Mario Quintana

Uma frase poética é um ótimo jeito de começar um texto. Quem disse que um verso não pode ser filosófico? Uma estrofe que oponha parede com horizonte. O conceito deste texto quer seguir exatamente neste sentido. Queremos abrir caminhos novos para serem explorados. Derrubar muros e construir pontes é um bom começo, mas abrir e criar horizontes é melhor ainda.

Quanto mais alto nos elevamos, mais nosso horizonte aumenta, certo? Errado! Estamos acostumados a pensar que o horizonte é uma questão de distância, mas trata-se muito mais de uma questão de perspectivas e rizomas. O horizonte existencial, aquele do qual tratamos, é diferente do horizonte visual; um exige altura, o outro, afetos. Este é platônico demais, aquele assemelha-se a uma zona de intensidades que é recortada do caos.

Queremos um horizonte pelo qual possamos navegar, queremos um mapa de afetos e um pouco de vento para seguir viagem. Dizemos isso porque nosso horizonte é reduzido demais, restrito demais. Mas ele existe, mesmo que limitadamente, então é dele que devemos nos apropriar! Um horizonte que se amplie cada vez mais, que nos leve às Índias e adiante, que nos leve para a borda do espaço e para além do bojador. Faz sentido?

Construir casas no penhasco, perto do que chamam de perigo. Mas será realmente um perigo cruzar e ampliar limites? Afinal, não estamos falando de mergulhar de cabeça no desconhecido, nosso discurso jamais fez apologia ao hedonismo chulo, sem critérios, de uma experimentação imprudente. O que habita o desconhecido, o inefável, é material de construção, não de desconfiança ou medo. O mistério nos seduz, é fonte de riquezas.

Por que falamos de horizonte? Porque paredes são claustrofóbicas (não queremos fazer as coisas entre quatro paredes), porque pontes nos oferecem conexões estreitas, e queremos pensar a vida sempre tendendo ao seu limite. Qual o horizonte da vida, o que faremos para ir além? O estriamento que nos canaliza é rígido demais para as linhas que brotam de nossos encontros. Sendo assim, quais elos nos faltam para que horizontes sejam ampliados ou aprofundados?

Recortamos a realidade, nosso horizonte é nossa perspectiva, se ele diminui, sentimos nosso conatus enfraquecido, nossa zona existencial se reduz. Passamos a ter menos realidade. Um horizonte depende de um diâmetro de experimentação, se ele se reduz, nos afastamos de nós mesmos e do mundo. Tudo se passa no meio, na relação (não no meio-termo).

Por outro lado, se nosso horizonte cresce, aprendemos algo novo, uma música nova, um caminho novo, uma melodia inédita, um truque de mágica extraordinário. A alegria é sempre um horizonte descoberto, é sempre um “Terra a vista!”. Um lugar onde podemos atracar nosso barco e traçar um plano novo, um mapa de afetos. Um horizonte se amplia não por nos afastarmos do chão, mas sim porque nos distribuímos ainda melhor em nosso plano!

Pois bem! Precisamos aprender a navegar! E nada melhor que usar as estrelas para isso! Quem diria que afetos tão singelos nos mostrariam caminhos novos? Não falamos mais de história, não carregamos mais nosso passado como uma bola de ferro à qual fomos condenados. De agora em diante nossa vida será como uma superfície lisa por onde deslizaremos. A terra não é mais plana, é uma esfera afetiva. Quanto ao atrito, nos basta aquele necessário para possibilitar o movimento, toleramos o peso apenas na medida certa.

Seguindo nessa direção nós aprendemos que o importante não é criar teorias para encontrar o que existe por trás da realidade. Também passamos a entender melhor que a vida é uma questão do quanto temos campo para o novo, para o desconhecido, e do quanto temos recursos para suportá-lo, compreendê-lo, vivenciá-lo. A noite é menos assustadora com recursos para enfrentá-la, mesmo que seja uma melodia cantada timidamente (veja aqui). Um horizonte ampliado permite sempre um pouco de luz.

Seja esta a nossa marca de uma grande saúde! Uma aptidão para afetar e ser afetado! Um horizonte ampliado permite que muito mais aconteça! A vida manifesta-se na forma de uma linha cujo diâmetro se amplia ou diminui. Nosso intuito é focar nesse traço que junta o dentro e o fora, traçar planos, operar recortes, cartografar. Um mapa que se desdobra num campo de afetos.

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

8 comentários

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s