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Volta a semelhar-te à árvore que amas, a de amplos galhos: atenta e silenciosa pende ela sobre o mar”

– Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

Já posso ouvir os gritos indignados do fã clube D&G: “Que história é essa de devir-árvore? Vocês estão loucos? blá-blá-blá fluxos…. blá-blá-blá rizomas“. Sim, sim, nós sabemos, fluxos e rizomas. Mas a Razão Inadequada não está preocupada em agradar o coro nômade da cátedra. Falaremos, sim, de devir-árvore! Obviamente que isso não significa um retorno a Descartes ou uma queda pelo sedentarismo. É sempre bom lembrar para que não nos confundam!

Muito bem, dito isso, vale outra observação: Não imitaremos árvores! Ora, quem quer ficar parado, que fique parado se isso lhe agrada; quem quer deixar insetos subirem por seu corpo, isso não nos diz respeito; quem quer abraçar árvores, que eternamente abrace e retorne se isso lhe faz sentido. Para nós, devir-árvore não é produzir clorofila, nem preencher um formulário para ingressar no reino vegetal. Esperávamos que tudo isso já estivesse claro a esta altura…

Sabedoria das plantas: inclusive quando elas são de raízes, há sempre um fora onde elas fazem rizoma com algo — com o vento, com um animal, com o homem”

– Deleuze&Guattari, Mil-Platôs I

Devir-árvore: deixar que as partículas da árvore entrem em ressonância com as nossas. Por quê? Para produzir o que ainda não sabemos! Para quebrar com nossa casca e devir alguma coisa! É mais uma dança que uma imitação, mais improviso que partitura. O que um devir-árvore pode nos ensinar? Onde ele pode nos levar? Ora, a resposta é simples e clara: As árvores sabem mais de imanência que os seres humanos! Vocês duvidam? Pensem, o homem-moderno não tem devir, não é? Ele perdeu-se na transcendência de seus sonhos impotentes e ressentidos, vive com a cabeça nas nuvens e o corpo amarrado na caverna de Platão: quer ser algo, alguém, ter algo ou alguém, almeja ser uma imagem brilhante que possa ser admirada e invejada por outros cabeças ocas, quer fulgurar no céu das ideias, figurar nos livros de história, receber curtidas no Facebook. Como retornar à imanência? Para isso é necessário devir-mulher, criança, animal, mas talvez seja possível ir mais longe: reencontrar a imanência absoluta na força sólida do tronco maciço de uma árvore.

Estamos falando do mais absoluto contrário de nossa civilização decadente. Lento movimento real versus falso movimento. Enquanto nos afundamos em ansiedades e depressões, as árvores continuam a descer suas raízes no solo nutritivo da existência. Enquanto subimos arranha-céus, procurando chegar a Deus, fama, contas bancárias astronômicas, troncos se elevam, estendem suas copas e absorvem todo seu ouro dos fótons que lhes chegam sem juros e sem variação cambial. Enquanto nos vestimos de elogios, perfis, convenções, as árvores permanecem nuas, sentido o vento em seu corpo. Enquanto nós trocamos mensagens de texto inúteis e procuramos as últimas novidades da semana, as árvores fazem passar seiva nutritiva e endurecem seu caule, fazendo de seu corpo uma armadura contra as intempéries e oscilações que a vida traz. Devir-lento… Quem disse que todo devir é explosivo e performático? “Olhem para mim, olhem para mim, estou devindo!“. Lição nietzschiana: a potência não pede reconhecimento, apenas o tolo e o impotente!

A árvore é um portal, uma dobra, um campo onde as forças se contorcem e se multiplicam. A semente torce e retorce a imanência, se apropria dela, faz algo. É um ponto ínfimo por onde forças colossais entram em ressonância, dançando um harmonioso ritmo de ricas substâncias que criam raízes, folhas, frutos! Ah, os frutos, suculência sem órgãos! A vida convida os elementos de fora a tomarem outra direção, se comporem na diferença, lentamente. O tempo lhe dá força, consistência, solidez, densidade!

A natureza não brinca em serviço e não sofre de bipolaridade. Uma semente sabe o que quer, mesmo que lhe falte consciência (tão diferente de nós). Uma semente possui mais memória que todos os bits e bytes de informação que produzimos com nossos celulares engordurados. Uma árvore vive o tempo de outra maneira, nós vivemos o instante morto, ela, a eternidade no presente. Nós possuímos bilhões de neurônios e nos perdemos nos corredores de supermercado sem saber qual a marca de Sucrilhos que queremos! Uma semente segue seu caminho com paciência, absolutamente segura de si, devir-prudente!

Não, alguma coisa está muito estranha aqui, a errância nômade não deveria confundir-se com a efemeridade do capital, a busca pela diferença não deveria ser sinônimo de evanescência ingênua e festiva. Nossa espontaneidade transformou-se em uma armadilha. Querendo devir fomos capturados! Devir não é moleza e languidez, não é abandonar-se, não é descuidado de si. Não se pisca os olhos e se devém! Sigamos por este caminho e, em breve, estaremos onde já não há volta!

Uma árvore sabe o que quer, ela se conhece profundamente, poucas coisas são capazes de retirá-la de seu triplo objetivo: alargar sua copa para absorver os raios do sol, prolongar suas raízes para abraçar apaixonadamente a terra, resistir à vontade de vestir-se contra o devir. Cosmos e imanência em estreita ligação! Como queria Espinosa, fazendo do conatus o esforço contínuo para aproximar-se de Deus. Como queria Bergson, que na duração intensa encontrava a eternidade criadora do Elã Vital.

No coração de uma árvore, no oco de uma raiz ou na axila de um galho, um novo rizoma pode se formar”

– Deleuze&Guattari, Mil-Platôs I

Falamos de um devir-árvore como máquina de guerra contra nossos tempos líquidos! Falamos de um devir-árvore como processo firme e perseverante em tempos de déficit de atenção e hiperatividade. Falamos de árvores que, estas sim, criam rizomas, lentamente, orgulhosamente, imperceptivelmente, enquanto rizomildos e rizomosas são engolidos por um mundo que pouco liga se eles carregam petulantemente um livro do Anti-Édipo embaixo do braço! Um minuto de silêncio àqueles que, diagnóstico nietzschiano, invertem valores, tornando rizomas sinônimo de vulnerabilidade e debilidade.

Resta um pouco de paciência vegetal em nós? Pode ser. Um pouco de suspensão sensório-motora? Quem sabe. Resta um pouco de força imanente que cresce sem necessitar de testemunhas oculares e filtros do Instagram? É possível. Resta um pouco de raiz, para nos alimentarmos de nossa própria estabilidade e regularidade? Talvez sim… esta persistência seria capaz de nutrir velhas certezas, conquistar novas alturas, produzir novos frutos; mas talvez não, talvez estejamos nos tornando lentamente flores ornamentais de plástico, decorando escritórios higienizados de luzes brancas e ar-condicionado sempre ligado, sem perfume, sem vida, sem devir (mas sempre com um dos Mil-Platôs na mochila).

Devemos devir-árvore? Sim! Mas o façamos lentamente… com cuidado, regando diariamente. Devemos conquistar o tempo com nossa espessura, resistência, solidez? Claro, sem nunca endurecer demais a casca! Devemos fazer de uma pequena semente a contração entre a terra e o céu, mente e corpo, filosofia e vida? Não poderíamos desejar outra forma de devir! Queremos devires-árvore para enfrentar nossos tempos de bonsais! Afinal, também nos apraz fazer filhos pelas costas.

Conquistar o infinito, sem perder a consistência”

– Deleuze&Guattari, O que é a Filosofia?

Árvore

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,
envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros
E tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com muitas borboletas.

Manuel de Barros
Texto da série:

Ética dos Devires

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Bóris
Bóris
2 anos atrás

Excelente explanação. Participo de um grupo de pesquisa chamado Philos Sophias e estamos explanando sobre Deleuze. Já venho me interessando sobre Michal Foucault desde minha especialização, pois minha orientanda é estudiosa das teorias pós estruturalistas e cada vez me encanto mais com estas teorias. Parabéns pelo fantástico texto.

Carine
Carine
2 anos atrás

Que coisa mais incrível

João Victor da Silva Fernandes
João Victor da Silva Fernandes
2 anos atrás

Obrigado pelo texto,muito elucidador e pedagógico, maravilhoso!!

Mariane
Mariane
2 anos atrás

Que delícia de texto! <3

Juliana Arakawa
juliana
2 anos atrás

Belo texto: poético e cheio de humor

Kerley Almeida
Kerley Almeida
1 ano atrás

Maravilhoso!

TATIANE DOS PASSOS DE OLIVEIRA
TATIANE DOS PASSOS DE OLIVEIRA
7 meses atrás

Texto lindo, me fez refletir sobre várias coisas. Mas, quero contestar o inicio e alertar para um detalhe: árvore não é parada. Ela está em um constante movimento de existir e se recriar. Nós que não percebemos seu tempo!

Nicolau
Nicolau
1 mês atrás

Adoro os textos daqui. Conheci a página por esses dias. Achei o texto poético e forte, porém não podemos esquecer que as árvores não vivem no sistema capitalista (mesmo sofrendo direta ou indiretamente com o mesmo), não pagam contas, não criam nada de bom ou de ruim na história, além de si mesmas. Devir árvore nessa conjuntura parece mais metáfora do que devir mesmo