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Desperta da noite da sem-consciência para a vida, a Vontade encontra-se como indivíduo num mundo sem fim, sem fronteiras, entre inumeráveis indivíduos, todos esforçando-se, sofrendo, vagueando, e, como que possuída por um sonho agitado, precipita-se de novo na velha sem-consciência”

– Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação II, cap46

Conhecer a essência e o fenômeno da Vontade deve nos levar a uma simples questão: afirmá-la ou negá-la? Esta é, para Schopenhauer, a parte mais importante da exposição de sua obra. Devemos nos associar a esta monstruosidade ou devemos fugir dela? É aqui que encontraremos uma filosofia prática. Queremos permanecer na imanência, mas após as constatações filosóficas sobre a Vontade a pergunta é: como? A afirmação da Vontade é o constante querer, carência eterna, desejo infatigável, tensão angustiante, encontrado em todo e qualquer homem. A afirmação do corpo é o conhecimento da Razão como mero instrumento da Vontade, de sua plena afirmação, desejo atrás de desejo imorredouro, apetite sem fim, ânsia que nos consome.

Afirmar a Vontade é constatar também que ela quer afirmar-se para além do corpo, quer afirmar-se para além de nós! A Vontade é portadora de inúmeros sofrimentos pois rasga nossa carne, leva para caminhos que não estamos dispostos a seguir, nos fazendo de gato e sapato, seus pobres marionetes. Ela coloca todo seu ímpeto em cada indivíduo, e atropela, destrói aquilo quem lhe opõe resistência. Sua essência é, portanto, seguir uma direção diferente da felicidade. Ou seja, a felicidade e o contentamento são contrários à Vontade. Só podemos concluir que a dor é positiva e o prazer é negativo.

Apenas a dor e a carência podem ser sentidas positivamente, e por isso anunciam-se por si mesmas; o bem estar, ao contrário, é meramente negativo”

– Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação II, cap46

Todos mantêm-se ocupados, preocupando-se em existir, mas assim que sua subsistência torna-se garantida… não sabem o que fazer e caem num tédio mortal. Claro, a vida simplesmente não tem sentido! Não há objetivos claros. Não sabemos como ser felizes. A necessidade é a maldição daqueles que têm pouco, o tédio é a maldição daqueles que têm muito. Vivemos perdidos. Nem um, nem outro, sabem o que fazer de si mesmos, permanecem vagando como espíritos desencarnados, longe da luz. Os ricos morrem na monotonia e os pobres morrem de dor.

Vista do exterior, a vida da maioria dos homens nos parece simplesmente insignificante e vazia de sentido; já de seu interior, tosca e irrefletida. A maioria das pessoas simplesmente vive de maneira inconsciente, sem se dar conta de tudo isso. Deambulam sonolentas acompanhadas de pensamentos triviais e inúteis. O homem é um relógio ao qual se deu corda e se move sem saber o porquê. Máquina que segue adiante sem rumo, ou talvez rumo ao abismo que, por sua vista curta, não consegue ver.

Cada história de vida é um conjunto de sofrimentos, agruras, arrependimentos e frustrações. Podemos tentar, nos esforçar o máximo possível, mas nada saciará a Vontade, nada no mundo pode pôr fim aos seus anseios infinitos. Tudo será eternamente pouco e ela continuará sua marcha pela estrada de dor. Tornando a vida um poço de tormentos contínuos, preocupações infindáveis. Um homem consciente jamais escolheria viver tudo outra vez. Afinal, de onde Dante teria retirado sua inspiração senão de nosso próprio calvário existencial? Afinal, a vida mesma é um inferno.

O objetivo da vida é bastante incerto, e resulta pelo menos duvidoso se ela não seria preferível ao não ser, e mesmo se a experiência e a ponderação tiverem a última palavra, o não-ser tem de triunfar. Se se batesse nos túmulos para perguntar aos mortos se querem ressuscitar eles sacudirão a cabeça negando”

– Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação, §54

A existência apresenta-se para nós como sem fundamento. Seguindo este raciocínio, não é possível outra conclusão: vivemos no pior dos mundos possíveis! Todos contra todos, um passando a perna no outro, um perseguindo o outro. Mata-se por nada, rouba-se por menos ainda. A dor é nossa única certeza. Viveremos na guerra não importa onde estivermos.

– Caspar David Friedrich

A partir daqui, algo na filosofia de Schopenhauer se solta, algo se quebra, algo se parte. Este mundo, como nós o vivemos não vale a pena! Não é clara a resposta? Nós o vivemos, mas não vale a pena. Mais valeria não ser, melhor seria se nunca tivesse existido. Nós não gostaríamos de ter nascido, nós não gostamos da vida, nós não retornaríamos se fosse possível. Boiamos em mar revolto, com a promessa de, cedo ou tarde, nos afogarmos ou sermos comidos por tubarões. Por quê? Não tem porquê, não tem sentido!

Querer ou não querer? Eis a questão. Se a vida é sofrimento, angústia consternação, martírio, por que levar tudo isso adiante? Se a vida é um contínuo morrer evitado, assim como andar é uma contínua queda evitada, por que manter tudo isso? Se a vida oscila como um pêndulo entre o tédio e a dor, qual a razão de continuar? Se a existência de quase todos não passa de uma luta por subsistir, qual o motivo de viver? O jogo vale a pena?

Aqui, então, a coisa torna-se grave, e impõe-se ao ser humano a pergunta sobre a origem e o fim de tudo isso e, principalmente, se a fadiga e a miséria dos seus esforços são compensadas pelo ganho obtido”

– Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação II, cap45

Chegamos à conclusão de que a Vontade não passa de um ímpeto cego, querer sem rumo. Dela, o indivíduo ganha a vida, brota do nada, para depois, após breve estadia enganosa e insatisfatória, retornar novamente ao nada. Sendo que o Em si das coisas não é afetado por essa miríade de idas e vindas. Percebemos que não podemos ter a Vontade como nossa aliada! Ela é nossa inimiga! Óbvio, é só olhar para os lados e ver.

Ora, devemos escapar da vida, de maneira definitiva e certa! Devemos dizer não! Declaremos então guerra à Vontade! Mas como? E o que vem depois? É esta pergunta que Schopenhauer tentará responder: como negar a vida em vida? Aqui, agora, temos de um lado a afirmação da Vontade de Vida e do outro a possibilidade de negação da Vontade de Vida. No primeiro, o conhecimento age guiado por esta força cega, no segundo, o conhecimento leva o querer a findar, torna-se um quietivo da Vontade.

Apenas a total autossupressão e negação da Vontade pode proporcionar um contentamento que jamais poderá ser perturbado! Resignação completa! Busca pelo fim da Vontade, afastar-se de seus desígnios e suas consequências. Olhar para o outro lado, descolar-se dela! Desfazer-se de sua influência! Destruir seus planos. O sofrimento em nós e nos outros é fruto de sua influência, ora, então queremos negar sua influência. Vivemos no pior dos mundos, aqui Schopenhauer dá as caras, o niilismo toma seu rumo passivo, negativo.

O lucro da vida não cobre seus custos, como então diminuir as perdas? A estética e a moral schopenhauerianas seguirão nesta direção. A vir-a-ser foi novamente escamoteado, “não deveria ser”, diz o filósofo alemão, convicto. A partir deste momento, o Buda de Frankfurt se tornará o asceta da Vontade.

Texto da Série:

Vontade e Representação

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Trosobão
Trosobão
3 anos atrás

Excelente questão filosófica, inúmeras reflexões possível e a sua me parece robusta.

Reinaldo
Reinaldo
3 anos atrás

Vida inteligente na Web…