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A negação completa da Vontade é a finalidade da Ética de Schopenhauer:

De fato, não podemos assinalar outro fim a nossa existência senão o de aprender que seria melhor que não existíssemos”

– Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação II, cap 48

Estamos no ponto no qual já não temos como voltar atrás. Algo se solta dos desígnios traçados inicialmente pela Vontade. Schopenhauer enfrenta o querer e o desejo para propor uma outra vida, que escape dos caminhos que a Vontade de Vida impõe ao indivíduo. Sua ferramenta será o Intelecto. Ao constatar toda a inutilidade do vir a ser, ao perceber todo o sofrimento que isso gera e a falta completa de objetivos, não havia outra saída possível.

Entretanto, porque somos o que não deveríamos ser, também fazemos, necessariamente, o que não devíamos fazer. Daí para nós a necessidade de uma completa transfiguração de nossa sensibilidade e ser, isto é, de um renascimento, em consequência do qual entra em cena a redenção”

– Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação II, cap 48

O filósofo do niilismo passivo propõe aqui um transfiguração de nossa sensibilidade. Primeiro através da contemplação: da Arte e do Gênio. É uma saída tímida, pequena, mas já é um começo. O Artista contempla o mundo das ideias e esquece um pouco deste mundo. Mas ele tem de voltar, não há outra maneira, a contemplação é apenas um breve descanso, uma hora do recreio. O segundo personagem conceitual encontra uma saída bem mais difícil, mas ao menos definitiva: negação do querer. Este mundo não é para nós, não presta, não deveria ser. A saída da mortificação do corpo e da vida é fazer o conhecimento das dores do mundo voltar-se contra a sua própria afirmação, até lentamente extinguir-se.

A obra última da inteligência será a supressão do querer, a cujos fins havia servido até então”

– Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação II, cap48

Vivemos certamente no pior de todos os mundos possíveis! Se o mundo fosse um pouco pior, apenas mais um pouco, certamente entraria em colapso e afundaria. Um pouco pior e seria completamente isuportável. Aprendemos, através da estética e da figura do asceta a negar o corpo e a vida. Mas é pouco, o objetivo final de Schopenhauer é negar o mundo por completo! Como um todo! Mais que o corpo e a vida, é necessário negar o mundo em sua totalidade.

Salvar o mundo dele mesmo. O corpo é algo vão e fútil, mas a estética dá conta. A vida é algo vão e fútil, a finalidade da vida é vazia e também ela mesma, não tem problema, a negação da Vontade coloca fim a esta questão sem resposta. O que se procura aqui é o quietismo total, renúncia de todo querer, não apenas porque o corpo gera sofrimento, mas porque não se quer mais prender-se à vida. A questão é que agora queremos redimir o mundo. A ascese e a mortificação completa nos levam a negar absolutamente tudo: corpo, vida e mundo, com o fim de suprimir a própria Vontade em sua essência.

Através da renúncia, da abnegação, nos negamos a fazer parte deste mundo miserável, nos elevamos acima do sofrimento e da culpa. Nos tornamos superiores a tudo isso, nos redimimos, nos purificamos. Platão, Kant, o cristianismo e centenas de outras religiões ensinam exatamente isso, redenção através da negação deste mundo. Consciência profunda da conexão entre todas as coisas e portanto da inutilidade de todas as coisas.

O mundo, por conseguinte, é tão ruim quanto lhe é possível, se é que em geral deveria ser”

– Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação II, cap46

Apenas uma Vontade cega poderia colocar-se nessa situação. Sentimos a vida como uma dívida contraída, como um presente de grego, como algo que deveria não ser. Quem foi que nos trouxe à vida? Apenas um Deus cruel faria isso! Quem foi que criou o mundo? Apenas um demônio seria capaz disso! Um Deus desses não merece nossa adoração, mas nosso nojo. Por isso, agora, o objetivo é fugir desta existência o máximo possível. Schopenhauer cita os ermitões que fogem das cidades para habitar o interior das cavernas. Estamos cansados… queremos viver, a partir de agora, distante de nós mesmos, dos outros, do mundo, de tudo!

Quem menos teme tornar-se nada na hora da morte é quem reconhece que já agora é nada e que portanto não tem mais interesse algum na própria aparência individual”

– Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação II, cap 48

A supressão da Vontade é também desaparecimento do Mundo! Sim, porque o mundo é Vontade e Representação. Com a negação da Vontade também são suprimidos os fenômenos. Nenhuma Vontade torna-se sinônimo de nenhuma Representação e, portanto, nenhum mundo. A filosofia de Schopenhauer se conclui com a redenção deste mundo através da supressão da Vontade. Assim seja:

O que resta após a completa supressão da Vontade é, de fato, o nada. Mas, inversamente para aqueles nos quais a Vontade virou e se negou, este nosso mundo tão real com todos os seus sóis e vias-lácteas é – nada”

– Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação, §71

– Caspar David Friedrich

Nosso pecado original? A afirmação da Vontade. Nossa redenção? A negação da Vontade. Schopenhauer é a grande figura do Sacerdote Asceta. Ele olhou o abismo e o abismo o olhou de volta, isso foi demais para ele. Pois simplesmente não consegue encarar o mundo, tem nojo dele, sente calafrios toda vez que a existência bate na porta. Ele cria uma filosofia para atravessar a longa noite escura, mas se perde dentro dela, não consegue voltar. Ele dorme para recobrar as forças, mas não consegue mais acordar.

O filósofo alemão se perdeu na caverna que desbravou. Sua coragem o fez avançar até certo ponto, denunciou o otimismo da Razão, mas depois de um certo momento não se pode evitar a pergunta: afirmar ou negar a Vontade? Sua resposta foi negativa. Talvez a pergunta pudesse ter sido diferente. Foi o que Nietzsche fez. Realmente, a afirmação desta maneira de viver é absurda! Mas estamos falando desta vida, a que nos ensinaram e nos coagiram a viver, esta que o camelo nunca deixa de carregar pesadamente em suas costas e de afirmar a negação. Existe outra vida nesta vida? Há outra maneira de se viver? É possível tornar-se Leão? É possível criar novos valores, como a criança?

Este fechamento é o resto de Vontade que procura se preservar. A Vontade hiberna, esperando seu momento de acordar e encontrar o Sol, que demora. Mas mesmo de maneira tímida, essa Vontade procurará viver de uma maneira satisfatória, com sabedoria e até mesmo com uma tímida felicidade. Aí encontramos algo de interessante, o pouco de saúde que restou pode nos levar além, pode ser a vela que nos ilumina na noite escura. Hibernar pode nos permitir sobreviver até o Sol voltar. Serve, porque preserva o mínimo, as condições de saúde que serão usadas para a próxima estação. Schopenhauer, nossa educador, ensina a olhar para além dos fenômenos e encontrar a força irracional de toda a existência. Isso é bom, ela será utilizada corretamente nas mãos de Nietzsche.

Texto da Série:

Vontade e Representação

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Leonardo
Leonardo
2 anos atrás

Grande e poderoso Arthur Schopenhauer.

Alex
Alex
2 anos atrás

Nossa muito bom, estava tentando encontrar a definição desse conceito de shopp e não tava achando, tá tudo explicadinho aqui valeu.

Antony
Antony
2 anos atrás

Continue produzindo. Muito bom.

Thalyta
Thalyta
1 ano atrás

Nessa parte em específico: “Entretanto, porque somos o que não deveríamos ser, também fazemos, necessariamente, o que não devíamos fazer. Daí para nós a necessidade de uma completa transfiguração de nossa sensibilidade e ser, isto é, de um renascimento, em consequência do qual entra em cena a redenção.”

– Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação II, cap 48

Teria como especificar a página dessa passagem?

Ótimos textos! Me auxiliaram muito no meu primeiro artigo.