Skip to main content
CarrinhoClose Cart

Parte 1: Sócrates

O filósofo socrático é um tipo desconfiado. Por esse motivo, ninguém o procura para confirmar as opiniões previamente estabelecidas, mas para tensioná-las. Às vezes ele aparece sem ser chamado, estava de passagem, mas não pôde deixar de ouvir a conversa. Questionar o que se pensa saber é o seu fazer filosófico, porque considera o saber pressuposto como primeiro obstáculo no caminho para pensar bem. Aquilo que acreditamos saber pode nos atrapalhar a perceber o que ainda não sabemos e, assim, impedir uma perspectiva mais ampla das coisas. 

Vem daí a ideia de que a filosofia se opõe radicalmente à opinião. No entanto, esta é uma conclusão apressada. Na realidade, a opinião é a ocasião para que a tensão do pensamento se estabeleça: ela começa a se tornar um problema apenas quando se sedimenta na forma de pré-conceitos. Ainda assim, é justamente a existência de um resquício conceitual que justifica o esforço com que o filósofo intervém. A opinião é um rastro que pode nos levar mais longe na compreensão do que se passa – mas isso não costuma acontecer sem um processo de constrangimento das certezas previamente assumidas. Não é possível questionar algo tido como certo sem causar algum incômodo – é por isso que algumas pessoas reviram os olhos ao ver o filósofo sentar à mesa. 

Aos ouvidos de um tal filósofo, a frase pronta, que se repete sem pensar, soa como um convite para o questionamento: ali, no meio de uma conversa banal, ele pode surgir fazendo uma pergunta destrambelhada. Por mais que ele sinta algum prazer em ver o sabe-tudo embaraçado nas próprias ideias, sua intenção não é causar um tumulto gratuito, o que ele tenta é elevar os preconceitos à condição esguia dos conceitos. Questionando a imagem de um saber que se calcifica em certeza, uma filosofia de inspiração socrática surge da aposta de que o conhecimento não é algo que se conquista definitivamente, mas um destino pelo qual passamos juntos – isso se formos capazes de pensar em conjunto, nos esforçando para transformar o senso comum em algo realmente comum, isto é, numa compreensão partilhada das ideias em jogo. 

Neste sentido, um ditado popular é um prato cheio, porque uma frase mil vezes repetida começa a se parecer com uma verdade, e o filósofo sabe que a verdade não cabe em um conjunto de palavras. Ou seja, se há qualquer conteúdo verdadeiro naquilo que tanto se diz, só poderemos saber ao examinar – e o que é examinar? É submeter o objeto ao escrutínio do pensamento, a partir da própria situação em que foi enunciado, entre as pessoas que o trouxeram à tona. Seria terrível tomar por certo algo que não fizesse mais do que nos acomodar a uma ideia preconcebida sobre o mundo, não é? A filosofia quer transformar aquele que pensa numa espécie de ourives, que analisa com cuidado para compreender o real valor daquilo que observa – e quanto mais pessoas estiverem dispostas a realizar esse trabalho, mais certeza elas terão sobre a avaliação que fazem.

Imaginem a seguinte situação: duas pessoas conversam sobre a vida de uma terceira, discordam de suas escolhas pessoais e, ao perceber que não têm muito mais a dizer ou fazer, terminam o assunto dizendo “cada um sabe o que faz”. Esta é uma dessas frases prontas, repetidas com tanta frequência que não é difícil imaginar alguém a dizê-la exatamente agora. É uma conclusão frequente para uma fofoca, na qual a frase pode ser dita entre risos ou lamentos. Basicamente, se assume, por meio dela, que o outro sabe de sua vida e que não há muito o que fazer sobre isso. O filósofo intrometido, pegou a fofoca pela metade, mas já chega dizendo: “mas será que sabe mesmo?”.

Nessa situação de fofoca bem intencionada, a frase pronta aponta para ideia de que cada um cuida de sua vida, no sentido de que se responsabiliza por ela a partir de algo que conhece sobre si mesmo. No entanto, quando paramos para pensar, a frase parte de um saber pressuposto que o outro tem sobre si mesmo e serve para marcar uma diferença em relação ao que os fofoqueiros acham que sabem. Com o perdão da tautologia, podemos traduzir a opinião da seguinte maneira: cada um pensa que sabe o que faz e julga o que os outros fazem a partir do que pensam que sabem. 

Muitos interpretarão essa interferência como uma petulância, arrogância ainda maior do que aquela da perspectiva moralista sobre a vida do outro. Ora, se o filósofo parte do princípio de que não sabe, então por que faz perguntas tão difíceis, impossíveis talvez, de responder? Trata-se da aposta de que lidar com a própria ignorância é melhor do que supor o conhecimento, porque o não-saber tem a vantagem de nos fazer examinar, em cada momento, aquilo que julgamos saber, previnindo-nos de estar enganados sem saber. A filosofia nem sempre chega em grandes resultados, mas prefere sempre uma boa pergunta do que uma má resposta. Assim, o filósofo prefere virar a opinião do avesso do que vesti-la comodamente. Ele diria, provocativamente: “cada um não sabe o que faz”.

Como vimos, o filósofo socrático parte de um princípio segundo o qual desconfia do pretenso saber que cada um tem sobre si mesmo, sobre os outros e sobre o mundo. Quanto intervém, sua intenção é mostrar que existe muito mais a saber sobre aquilo que se pensa que sabe. Constranger uma frase pronta pode parecer falta de espírito, falha de caráter, ausência de modos ou incapacidade de sociabilidade. Na realidade, vinda da filosofia, a intenção é chamar atenção para o que se passa despercebido naquilo que se assume rápido demais. Nesse sentido, a pergunta é um golpe de força pelo qual o filósofo desvia o assunto para um lugar mais interessante: o que sabemos sobre nós? Saber é o suficiente para fazer? Afinal, o que é sabedoria?

 

Parte 2: Espinosa

Uma certa tarde, um entusiasmada leitora de Espinosa recebeu em sua casa um amigo que estava bastante triste. Ele falava assim: “Dizem por aí que cada um sabe o que faz, mas eu não sei o que fazer nem o que quero”. “Nossa, que coincidência!”, responde a espinosista, “estava agora mesmo lendo a Ética e fiquei muito surpreso com uma ideia que tem tudo a ver com isso”. O amigo observa com curiosidade, e ela continua: “Espinosa diz que tudo é perfeito!”. Ao ouvir isso, o amigo levanta o rosto em revolta dizendo: “Como tudo pode ser perfeito se eu não sei o que fazer?”.

A espinosista sorri, abre o livro e recita algumas palavras muito estranhas: “A tristeza é uma paixão pela qual a mente passa para uma perfeição menor, assim como a alegria é uma paixão pela qual a mente passa para uma perfeição maior”. Sob o olhar insatisfeito do amigo, ela acrescenta: “A gente não vai entender o que Espinosa quer dizer se continuar pensando a perfeição como uma comparação entre estados radicalmente distintos de uma mesma coisa. Como poderíamos julgar a perfeição das coisas se elas só podem ser exatamente como são?”.

A leitora lembrava muito bem das palavras de Espinosa: as coisas são da única maneira que poderiam ser. Não importa o quão estranho ou errado pareça, tudo acontece segundo uma relação de determinação absoluta, que se chama Natureza. Por mais que não sejamos plenamente capazes de compreender, cada um de nós é produto de um irredutível nexo de causas que nos faz ser exatamente da maneira como somos. Dessa perspectiva, não existe nada que não seja natural, nada que seja imperfeito.

Instigado pelas ideias, o amigo então faz uma hipótese: “Por um mundo absolutamente perfeito, será que Espinosa não quer nos levar a pensar que tudo está no seu próprio limite?”. “Era isso mesmo que eu estava pensando quando você chegou!”, responde a espinosista. Após alguns segundos de um franzido silêncio, o amigo acrescenta: “Perfeição parece uma maneira de dizer que as coisas se perfazem o máximo possível em cada momento – o que não deve significar que as coisas sempre saem da melhor maneira para nós, senão não faria sentido”. A espinosista balança a cabeça afirmativamente e resume: “Perfeito não é o mais alto estágio que se pode atingir, perfeito é um jeito de dizer que as coisas são da maneira que são, a despeito do nosso desejo de que ela sejam diferentes”.

A partir dessas ideias, eles voltaram ao ditado popular que causava incômodo e perguntaram: “Se as coisas estão no seu máximo, então parece que podemos afirmar que “cada um sabe o que faz”, mas será mesmo? Parece estranho”. A leitora lembra que, na filosofia espinosista, todo conhecimento humano é limitado pela sua própria condição: “Não há como sair completamente da servidão. Então, até dá pra dizer que as pessoas sabem o que fazem, mas só se com isso entendermos que elas são inocentes de sua própria ignorância”.

Sentindo-se um pouco aliviado, o amigo continua o assunto: “Parece que, na realidade, ninguém sabe exatamente o que faz, nem por que faz, mas faz mesmo assim!” – e os dois riram ao pensar isso pela primeira vez. “Faz sentido, porque a filosofia espinosista não vê a razão como algo inato”, continou a leitora, “pelo contrário, ela nos faz pensar o conhecimento como um esforço”. O amigo, um pouco confuso, diz: “Eu já não lembro mais o que isso tem a ver com a perfeição”, ao que a leitora responde generosamente: “Perfeição é uma maneira de dizer que, nesse momento atual, agora mesmo, tudo está exercendo seu máximo esforço”.

Após pensar mais um pouco, o amigo diz: “Certo, mas ainda acho estranho a ideia de que algo perfeito possa passar para uma perfeição maior. E é estranho mesmo”, ele antecipa a resposta dela, “porque estamos acostumados a pensar que só o imperfeito pode ser melhorado”. A leitora de Espinosa continua: “Sim, passar para uma maior perfeição é um jeito de dizer que os limites que um corpo tem de agir e que uma mente tem de pensar foram ampliados, mas sem com isso dizer que antes eles não estavam no seu limite. Veja, Espinosa evita ao máximo estabelecer qualquer tipo de comparação, porque isso não acrescentaria em nada”.

Os amigos procuraram, mas não encontraram em lugar algum da filosofia de Espinosa uma conversão direta entre conhecimento e ação. Ele insiste mais de uma vez sobre a força dos afetos e a incontornável necessidade de considerá-los. Eles perceberam a preocupação do filósofo com a ideia de que o saber basta para fazer. O amigo logo percebeu: “Espinosa parece meio irritado com isso, porque essa concepção de liberdade coloca a ação como uma livre escolha, e isso acaba servindo apenas para culpar cada um por aquilo que faz ou não faz. Ele até cita aquela frase sobre aprovar o melhor caminho, mas continuar escolhendo o pior”. “Sim, verdade!”, continuou a leitora, “é tipo aquele cara que não consegue parar de fumar mesmo depois de saber o quanto faz mal. Todo mundo acaba dizendo que ele não quer realmente.” O amigo responde em concordância: “Parece muito mais fácil dizer isso do que assumir que a gente às vezes não é capaz de mudar as coisas. Tomar nas mãos as nossas relações com o mundo parece algo muito desafiador.”

Os amigos pararam por um minuto, com medo de estar levando muito a sério uma frase que não passava de uma opinião irrefletida. É claro que, ao terminar uma fofoca dizendo que cada um sabe o que faz, as pessoas não pensam tanto sobre o que significa saber ou querer – mas logo eles voltaram a se incomodar: “Ué, então pra que serve essa frase?”. Não demorou para eles perceberam que se trata de um deboche pelo qual as pessoas demonstram a discordância acerca do que os outros fazem, ao mesmo tempo que admitem que são impotentes frente as decisões deles. “Até aí tudo bem, o problema é que elas nunca se colocam em questão!”, diz o amigo empolgado.

Inspirada, a leitora de Espinosa lembrou uma das ideias mais luminosas de sua filosofia: “Para compreender, é preciso deixar de julgar”. Trazido à tona ali entre os amigos, esse mote espinosista denunciou rapidamente o mau caráter da frase: ela é duplamente eficaz no objetivo de julgar os outros e pressupor o próprio saber; ela resume a má vontade em compreender e o forte desejo de menosprezar. Então, a espinosista conclui: “A perfeição é uma ideia que nos abriga contra essa baixeza”. Então, o amigo, revigorado pela conversa, se propôs a consertar a frase. Em um caderno de bolso, que seria tantas vezes revisitado após as conversas dos dois, ele anotou assim: “Cada um não sabe o que faz, mas faz mesmo assim”.

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Um dos criadores do site Razão Inadequada e do podcast Imposturas Filosóficas, onde se produz conteúdo gratuito e independente sobre filosofia desde 2012. É natural de São Paulo e mora na capital. Estudou música na Faculdade Santa Marcelina e filosofia na Universidade de São Paulo. Atualmente, dedica-se à escrita de textos e aulas didáticas sobre filósofos diversos - como Espinosa, Nietzsche, Foucault, Epicuro, Hume, Montaigne, entre outros - e também à escrita de seu primeiro livro autoral sobre a Anarquia Relacional, uma perspectiva filosófica sobre os amores múltiplos e coexistentes.

Mais textos de Rafael Lauro
Subscribe
Notify of
guest
3 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Vanessa Aquino
Vanessa Aquino
7 meses atrás

O que é o saber?
Talvez seja segurar firme,
como à um travesseiro,
o seu não-saber.
E com ele, explorar o mundo.

Last edited 7 meses atrás by Vanessa Aquino
Carminda Canha
Carminda Canha
4 meses atrás

Muito obrigada!