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Estoicos e epicuristas, apesar de certas diferenças fundamentais, concordam em pelo menos uma coisa: devemos aprender a seguir a natureza. Esta diretriz foi a responsável pelo esforço de juntar os estudos do cosmos ordenado e o campo da ação correta (respectivamente conhecidos hoje como física e ética). Alguns defendem que esta união, que hoje cjamamos de ciências exatas e humanas, é impossível, outros defendem que não. Ainda assim, por melhor que seja esta diretriz, isso de forma alguma resolve a questão, porque coloca de imediato pelo menos outras duas: o que é a natureza e qual a melhor maneira de segui-la corretamente? Ou seja, a questão permanece aberta, o que permitiu à filosofia continuar pensando sobre ela.

A pergunta é tão profunda que seus ecos foram ouvidos por toda a história da filosofia. Ela chegou até nós da seguinte maneira: O que é o mundo? O que devemos fazer? A nossa resposta, seguindo a filosofia helênica, começaria de maneira simples: o mundo é o cosmos ordenado, o conjunto total do que chamamos de natureza, e nós somos parte deste conjunto, um subgrupo qualificado como vida humana. Esta é a teimosia tanto de estoicos como de epicuristas, teimosia que a ciência moderna herdou e mantém, por mais que nós tentemos, não conseguimos sair, estamos sempre dentro, talvez seja isso que muitos chamaram de imanência.

Ora, se a natureza é nossa casa, nada nela deveria ser estranho a nós, mas é, o mundo é misterioso, uma esfíngie, impenetrável, eis o problema. Os mitos e religiões serviram muitas vezes como uma espécie de anteparo subjetivo que nos impedia de encarar as profundezas do universo à nossa volta, como a trava de segurança que impede a criança de cair da montanha russa em movimento. A ciência talvez tenha nascido com a mesma função, mas levantou o véu de Isis e deparou-se com um abismo profundo e inimaginável do qual ainda estamos tentando nos recuperar.

Tudo mudou, a natureza deixou de ser um cosmos ordenado por Zeus e tornou-se um mar de forças se afirmando continuamente, ondas de energia desvairada atravessando tudo e todos, uma fúria atômica insaciável. Devemos seguir a natureza, mas como, se a porosidade do mundo fez o universo escorrer pelas nossas mãos? Se os abalos sísmicos derrubaram todas as nossas certeza? Como seguir esta monstruosidade aterradora? Este ser metamorfo que parece transformar sua própria essência nos recantos mais infernais do universo. Como afirmar este universo devorador de mundos? Não, não é possível, preferimos dar um passo para trás. Mas o tempo todo a afirmação helênica insiste: tudo é natureza, nós somos parte da natureza, não é possível escapar.

Pois bem, não temos escolha, devemos seguir a natureza. Mas a nossa concepção de natureza se transformou com a ciência. Se antes vivíamos em um cosmos apolíneo, ordenado e pacificado, onde a harmionia reinava; hoje vivemos em um mundo dionisíaco e aberto, expandido-se, criador, muito maior do que os antigos sequer poderiam imaginar. Retomamos então a pergunta, podemos seguir esta natureza? Podemos continuar a aprender e a viver existindo neste universo? Nada impede da resposta ser não, podemos sempre recuar para um mundo menor, anterior, do qual damos conta. Mas a resposta também pode ser sim! E talvez deste sim resulte uma nova forma de ver e viver neste mundo.

Seguir a natureza se torna agora uma busca por vivermos em um universo aberto, indeterminado, em constante criação. O universo é uma coisa que dura, e ao durar ele se modifica, não apenas na superfície, mas em seus níveis mais profundos. Ainda precisamos seguir o cosmos, mas não como uma peça se encaixa em uma grande engrenagem, não, pois agora o cosmos está vivo. A questão agora se coloca da seguinte maneira: ou o universo é determinado como um relógio e nós somos parte deste mecanicismo universal; ou a determinação do universo é aberta, ele ainda está se fazendo, ou melhor, se perfazendo, e aqui nós adquirimos uma outra forma de liberdade. Em suma nós somos livres na mesma medida em que o universo também o é!

Isto muda profundamente a nossa concepção das coisas. O determinismo do universo não é mais restrito, mecânico, fechado em si mesmo, como grandes ciclos estáveis que retornariam sempre para o mesmo ponto, sem se alterar. A estabilidade do cosmos se mostra frágil perante  o fluxo do tempo.

Neste novo mundo, observamos o grande laço de trocas e relações e percebemos que o a natureza é tão criativa quanto o ser humano. O universo é um só, e ele todo está marcado pela criação contínua de si mesmo não há oposição entre nós e ele. Não é a dinâmica mecanicista do mundo que nos ameaça, pelo contrário, a sua força criadora continuamente nos penetra e trespassa, nos tornamos impregnados de sua energia, seus desvios, seus movimentos disruptivos. Sendo assim, não temos que temer o mundo, temos que abraçá-lo, aprender a acompanhá-lo.

Não é nossa intenção retomar a ideia de liberdade como mistério, como livre arbítrio, isto tudo é uma mentira. Ser livre não significa que nossas ações desafiem as leis determinadas que regem o universo. Mas agora é o próprio universo que não sabe o que reserva para nós. A noção de destino e previsibilidade está limitada, não por causa da nossa ignorância, mas ontologicamente. Em outras palavras, é o próprio universo não sabe para onde segue, ele traça seu caminho enquanto caminha. Neste novo universo a liberdade não volta a ser uma ilusão, mas talvez seja algo mais sutil, parecido com uma sensação cheia de promessas.

Tudo isso é muito estranho: como afirmar a indeterminação do universo pode aumentar a nossa liberdade? Não retornamos a uma noção de liberdade como livre arbítrio, esta liberdade das lacunas, que tanto nos atrapalhou? Não, a liberdade não é livre arbítrio, mas a livre necessidade parece se tornar agora algo a mais: liberdade é a necessidade que o universo se transforme, mude, seja diferente do que é enquanto dura.

Estoicos e epicuristas concordaram em seguir a natureza, e agora, precisam levar sua afirmação até o fim. Tudo bem, eles não podiam imaginar que o conhecimento da natureza multiplicaria o tamanho do universo a este nível. Antes, éramos ignorantes e Deus possuía todo o conhecimento, nosso objetivo então era elevar-se à Sua altura. Agora, ao seguir a natureza, ao menos este novo ponto de vista da natureza, recebemos como presente uma nova forma de liberdade. Continuamos parte do mundo, mas agora ele não parece mais uma enorme harmonia divina na qual nós precisamos nos encaixar, pelo contrário, Deus também parece improvisar e dançar conosco.

gravura de Flammarion

gravura de Flammarion

 

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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brenda
6 meses atrás

Adorei esse texto! Muito obrigado! Sua escrita é cativante!

Esses dias eu li um quadrinho que perguntava: ” quando você estuda para alimentar a sua humanidade”?

Então eu digo, ler os textos daqui e escutar os podcasts são elementos que fortalecem à minha humanidade certamente!

Last edited 6 meses atrás by brenda