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Quando crianças, todos nós esperávamos avidamente pelo momento de acordar e abrir os presentes de natal. Não ligávamos para o embrulho, rasgávamos com voracidade, ansiosos para ver o que havia escondido atrás dele. A pergunta permanece, o que tem por baixo do embrulho do natal? 

Conhecemos bem a embalagem simbólica dessa celebração: “o Natal não tem nada a ver com os presentes”, dizem os cristãos, “é o momento de celebrar o nascimento do menino Jesus, reunindo a família em torno de seu nome”. Por mais que haja padres bem intencionados, já sabemos que hoje essa resposta é, no mínimo, ingênua.

É bastante evidente que os valores natalinos de amor ao próximo foram expropriados pelo consumismo desenfreado. Não é novidade, o valor moral foi abstraído pelo capital; e o capitalismo funciona por meio de uma colonização, no qual todos os valores são traduzidos para uma linguagem de abstração monetária, que tem o lucro como única verdade inconteste. 

Entretanto, algo que os próprios defensores do natal não esperavam, é que o próprio cristianismo parece funcionar de maneira semelhante. Não há um axioma cristão como o lucro, mas quando procuramos as origens de muitos de seus ritos, também encontramos uma força de tradução que se apropriou dos valores pagãos e proveu-lhes novos sentidos em acordo com seus códigos morais. Talvez o Natal seja um dos melhores exemplos do que significa expropriação – e uma ótima ocasião para pensar sobre isso.

Comecemos pelo simples, porém espantoso, fato de que Jesus supostamente nos ensinou a contar os anos. É o nascimento do filho de Deus que marca uma nova era da humanidade, o ano zero. Ora, que engraçado, parece que nascemos de novo com Cristo. Difícil é saber se os fenícios, os maias ou os aborígenes concordariam com essa divisão. Não é estranho que tenhamos recomeçado a contar? Que inflexão poderosa é essa que nos fez considerar a maior parte da nossa história como passado ultrapassado? Voltaremos a isso. 

Para quebrar a ilusão de uma história que recomeçou do zero, basta perceber que a própria data reservada para o Natal, dia 25 de Dezembro, era originariamente uma festividade pagã: a celebração do Nascimento do Sol Invencível, uma festa instituída pelo imperador romano Aureliano, que prestava homenagem a uma das maiores divindades do império. Aliás, esta celebração substituía por sua vez o nascimento de Mitra, antiga divindade indo-iraniana do zoroastrismo. 

Foi o Papa Júlio I que propôs dar um novo significado ao rito, porém mantendo a data. Se ele fosse um gerente de marketing, diria que é uma questão de rebranding. Essa não foi a única campanha de sucesso desse departamento, várias festas cristãs estão diretamente ligadas à culturas anteriores. A páscoa, a festa junina, o dia de finados, o dia de todos os santos são apenas alguns exemplos. 

Outra questão: a data escolhida para o nascimento de Jesus é o solstício de inverno e possui uma extensa lista de aniversários de outras divindades: Osíris, Apolo, Atis, Mitra, Horus, todas comemoram anos no mesmo dia. E o motivo é relativamente simples de entender: para os humanos, o solstício de inverno talvez seja o evento astronômico mais importante do ano. Neste dia, o Sol, no hemisfério norte, chega à sua inclinação mínima, para então voltar a subir, anunciando a chegada das estações mais quentes.

Inúmeras culturas antigas perceberam isso. Stonehenge, por exemplo, foi erigido para marcar este momento. O solstício de inverno é a noite mais longa do ano, e marca simbolicamente a vitória contra o frio, a escuridão, o medo e a as dificuldades, é o momento de esperança onde o Sol volta a nos iluminar e abençoar com suas calorosas dádivas. Assim sendo, os crisãos, sem saber, celebram alguns dos mais antigos cultos do mundo. Eles pensam que foram os primeiros, mas isso é porque o projeto de sua religião passa pelo apagamento da sua diversidade de origem.

Sem fazer muito esforço, podemos dizer que as antigas religiões estavam muito mais conectadas com o que acontece nos céus. O astro rei foi, desde os primórdios, o representante de toda a vitalidade e força do cosmos. Ao longo do tempo, ele recebeu muitos nomes e foi homenageado por muitas culturas diferentes. Então, para compreender a verdadeira riqueza dessa cerimônia que chamam de natal, faríamos melhor em deixar os presentes de lado e voltar o olhar para as estrelas.

Não problematizamos o natal por birra, o que realmente nos interessa é perceber que nossa história não pode ser resumida em míseros 2 mil anos. Para entender quem somos precisamos de muito mais tempo, precisamos considerar as diversas formas de pensamento, organizações sociais, e até mesmo as condições de surgimento da nossa espécie. Em resumo, quanto mais acreditarmos no Natal, menos conseguiremos perceber o que somos no mundo.

Então, retomando a questão anterior, de onde seria necessário começar a contar? O nascimento de Jesus é certamente muito recente, irrelevante para dizer do tempo dos astros. E se contássemos do culto do Sol Invicto? Não muda muito. Ora, talvez do nascimento das mais antigas civilizações ou da própria espécie humana! Poderíamos muito bem ir até a formação da terra ou até mesmo retornar ao Big Bang. Não parece prático, mas a questão é que não podemos mais desconsiderar o fato de que toda a história do universo nos diz respeito.

São muitas possibilidades de começo, podemos escolher a que mais nos agrada. O que não podemos é deixar de fora toda a multiplicidade irredutível de formas de viver e pensar que fazem parte da nossa história. São tantas as pessoas que já se reuniram para celebrar o Sol, cantando a chegada de uma nova estação, que não podemos deixar que essa data se resuma à cruz ou à bandeira. Em torno do Natal circulam mandamentos, os ritos se impõem, nos mandam comprar e rezar, mas nós podemos dar um passo atrás, perguntando: de onde veio isso? Apenas nos apropriando de mais passado, teremos mais futuro.


Referências:

Cosmos – Michel Onfray
História das crenças e das ideias religiosas – Mircea Eliade
Nova Proposta para a Supressão da Era Cristã – Elisée Reclus
Mil Platôs – Deleuze e Guattari

 

Como citar:

TRINDADE, Rafael. celebrar o começo. Razão Inadequada, 2023. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2023/12/11/celebrar-o-comeco/. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Ludmila
Ludmila
6 meses atrás

Excelente texto! Muito interessante e pertinente a reflexão que você traz, à luz da filosofia, não somente sobre o Natal, mas também sobre a capacidade humana de se apropriar do sentido atribuído a si mesmo. Parabéns e obrigada por isso!